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sábado, 3 de março de 2012

ALÔ, TELEMARKETING! Aleilton Fonseca

Tem cabimento uma coisa dessas? A pessoa está em casa lendo seu jornal, ou assistindo à TV, ou lavando os pratos, ou revendo o álbum de fotografia, ou apenas tirando um cochilo, então o telefone toca. Ao atender, com a maior boa vontade, depara-se com a voz impostada e a simpatia simulada da moça do telemarketing, especializada no uso gratuito de gerúndios.
– Bom dia, eu poderia estar falando com o Seu Fulano de Tal?
Se você é o Fulano de Tal, basta proferir uma única palavra, e pronto! Está fisgado. Ela, com um festivo tom de conversa, diz que o banco tal aprovou para você um mágico cartão, com facilidades encantadoras, crédito pré-aprovado de alguns mil reais e patati e patatá, etc e coisa e tal. E tenta completar assim o golpe de sedução:
– O senhor vai poder estar retirando um empréstimo de 5 mil reais...
Certa vez, alvejado por essa artilharia pesada, contra-ataquei na hora.
– Moça, eu não preciso de empréstimo. Ao contrário, posso até emprestar esse valor ou mais ao seu banco, quer? – esnobei um pouco para ver se ela se tocava e desistia de “estar me aporrinhando” tanto.
Ela não se tocou, ou se fez de desentendida. Passou a discorrer sobre as maravilhas do cartão, dos rentáveis fundos, do seguro, do fundo de aposentadoria. E enumerou diversas formas de sequestrar o meu pobre dinheirinho da minha conta corrente.
– Basta o senhor estar confirmando seus dados, e o cartão estará sendo enviado para o seu endereço automaticamente...
– Não... não quero..., não... não estou interessado...
– ... e o senhor poderá estar dispondo de nosso atendimento especial em sua casa...
– Não, não estou interessado... – eu insistia, mas ela parecia surda.
– ... vou estar agendando uma visita do nosso consultor para...
– Não, senhora! – e desliguei o telefone, sufocado com a insuportável saraivada de gerúndios.
Um amigo desenvolveu uma boa tática para se livrar desse famigerado tele-assédio. Ele atende, diz que vai chamar a pessoa interessada, larga o telefone na mesa, e deixa o tempo passar até que a moça desista e interrompa a ligação. O problema é que voltam a ligar algum tempo depois.
Para meu espanto, a minha mulher desenvolveu uma forma engenhosa e infalível de se desvencilhar da insuportável matraca gerundiva. Toda vez que a moça pergunta pela dona da casa, ela assume uma voz de diarista distraída e vai logo explicando:
– A patroa tá viajando, tou aqui só fazendo a faxina; deseja estar deixando um recado?
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Do livro: FONSECA, Aleilton. A mulher dos sonhos & outras histórias de humor. Itabuna: Via Litterarum, 2010.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O GALANTEADOR - Aleilton Fonseca

A mulher ia tranquila pela calçada, em direção a sua residência, quando percebeu que, da janela de um automóvel, vinha o aceno de um desconhecido. Primeiro olhou discretamente, sem intenção de atender. O homem foi encostando o veículo, e insistiu no aceno, com um sorriso simpático. Ela hesitou em atender. Mas pensou: ora, ele deve estar querendo uma informação. Aproximou-se do motorista e, antes que dissesse algo, ouviu a abordagem inusitada:
– Oi, amor! Para onde vai? Quer ir comigo, minha linda?
Ela estacou, surpresa por um instante. Imediatamente se refez do susto, e riu divertida, achando a cena mais que engraçada, totalmente bizarra. O homem aguardava a resposta, com uma vaga esperança nos olhos semi-cerrados diante da intensa claridade do dia.
– Não, senhor; muito obrigada. Eu moro aqui perto.
– Que tal um chope? Vamos bater um papo.
– Não, agradeço pela gentileza.
Aproximando-se, a mulher olhou mais detidamente para o homem. Moreno, ligeiramente calvo, aparentava uns 45 anos. A marca nítida da aliança denunciava que ele a tirara do dedo, a fim de buscar um affair passageiro. Parecia um marido típico, afundado na rotina de um casamento saturado.
– Eu preciso bater um papo com você, amor! – ele insistiu.
– Ah, eu gostaria mesmo de falar com o senhor – disse a mulher, assumindo uma postura mais ativa.
O homem se animou. Então ela estava a fim de papo! Se conseguisse ganhá-la por um instante, seria a glória do dia. A mulher, com um olhar agora incisivo, continuou o diálogo:
– Em primeiro lugar, esse cigarro está lhe fazendo mal.
Ele, no susto, imediatamente esfregou o cigarro no cinzeiro do carro e atirou o toco longe, para demonstrar claramente a sua renúncia.
– Só fumo de vez em quando – explicou, na defensiva.
– Não devia fumar nunca. Isso mata a pessoa aos pouquinhos.
O homem, com o olhar intimidado, prestava atenção à conversa, entre curioso e espantado. A mulher prosseguiu a inspeção:
– Precisa ir à academia cuidar desses pneuzinhos aí...
– Ah, eu vou... semana que vem eu volto a malhar.
– E essa barriguinha de chope? Vai deixar de beber ou não vai?
– Sim, parei a partir de agora – prometeu, cruzando dois dedos sobre os lábios.
– Está acima do peso. Deixe o carro em casa e vá caminhar.
– Sim, sim: meu médico sempre me cobra isso – informou, assombrado.
– Por falar nisso, há quanto tempo não faz seus exames?
– Pois é... – murmurou, já encolhido, agarrando-se ao volante.
– E tem um exame que precisa fazer logo.
– E qual é? – perguntou, curioso e humilde.
– Está apertando muito os olhos... Faça um exame de vista urgente.
– É, tem razão – concordou, visivelmente vexado.
– E sua mulher? Cuide mais dela, leve-a para passear, viajem juntos.
– Pode deixar, pode deixar... – disse ele, já acionando o motor do carro.
– Se cuide, hein!
– A senhora por acaso é médica? – indagou, num tom respeitoso.
– Sou advogada, casada, e tenho 48 anos.
– Nossa! Eu lhe dava uns 30... – espantou-se, encabulado.
– Obrigada! É que eu não bebo, não fumo, como pouco, faço caminhada, durmo bem, pratico esporte, viajo muito... e sou fiel.
– Ah, bom... eu já vou indo... – ele engatou a marcha, queria fugir dali e enfiar a cabeça no chão.
A mulher sorriu; estava satisfeita com o resultado de seu contra-ataque. Percebeu que o homem, sem graça e desfeito, talvez pensasse consigo mesmo: “Bem que eu podia dormir sem essa”. Literalmente. Ele acionou o acelerador e já ia se afastando, quando a mulher fez a última recomendação:
–Tem um exame que deve fazer amanhã mesmo!
– E... qual é? – gemeu ele, quase em sofrimento psicológico.
A mulher sorriu divertida e arrematou o colóquio, enquanto o galanteador esperava o sinal abrir para sumir dali correndo:
– Seu primeiro exame de próstata!


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Este texto faz parte do livro
"A mulher dos sonhos & outras Histórias de humor"

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

UMA INFORMAÇÃO, POR FAVOR! Aleilton Fonseca

Uma noite, meu filho me ligou, pedindo para ir apanhá-lo na casa de um amigo. Lacônico e despachado, como todo adolescente, contentou-se em me informar que estava no bairro de Brotas, no Conjunto Catavento. E desligou. Liguei de volta, mas deu caixa.
Conheço a região mais ou menos. E achei que acabaria chegando lá no tal endereço sem muito esforço. Ledo engano. Depois de rodar meia hora sem achar o rumo certo, admiti que estava perdido. Sem mapa nem paciência, parei o carro numa esquina e abordei uma velhinha, perdão, digo: uma senhora da melhor idade.
– Boa noite. Uma informação, por favor!
A boa senhora parou e, me olhando de esguelha, desconfiada, aguardou a pergunta.
– A senhora sabe onde fica o Conjunto Catavento?
– Cata o quê? – ela apertou os olhos e apurou os ouvidos.
– Catavento – repeti.
– Ah, é lá pra cima, perto da casa de comadre Sebastiana.
– E onde fica a casa de comadre Sebastiana? – arrisquei, ora!
– Perto do Conjunto Catavento.
Depois dessa, eu ia perguntar mais o quê? Fiquei tão abismado que arrastei o carro dali sem sequer agradecer pela valiosa informação. Segui subindo a rua, prestando atenção aos detalhes.
Mais adiante, havia outra bifurcação. Eu precisava escolher um dos caminhos a seguir. E agora? Felizmente percebi que vinha, a passos calmos, um senhor, também da melhor idade. Animado, eu o abordei:
– Boa noite. Uma informação, por favor!
– Pois não, cidadão – ele disse, solícito e perfilado.
Logo percebi, pelos olhos e pelos passos, que aquele senhor vinha, no mínimo, de uma animada mesa de bar. Assim mesmo, continuei a entrevista.
– O senhor sabe onde fica o Conjunto Catavento?
– Cata quem?
– Catavento.
– Ah, é por ali, olhe. O senhor vai ali desse lado, e segue, vai seguindo em frente... Chegando ali não tem minha casa? Então! Quando o senhor avistar minha casa, é logo ali, o Catavento.
Eu não ia fazer a bobagem de perder tempo com aquela conversa. Agradeci ao homem e fui indo na direção indicada. Quem sabe, adiante eu teria mais sorte. Segui em frente, sem perder a esportiva.
O lugar era realmente confuso. E eu, cada vez mais atrapalhado, não achava o tal endereço. Havia uma lanchonete. Parei ali, e resolvi telefonar para o meu filho. Explique que estava perto, porém perdido; precisava de alguma referência.
–Você está onde? – ele perguntou.
– Em frente a uma lanchonete.
– Ah, é perto. Olha, fica aí mesmo que eu já estou chegando.
Pois bem, tanto melhor. Pus-me a esperar. Daí a pouco, entre transeuntes e automóveis, eis que vejo de novo o senhor que me dera a curiosa informação. Ele me reconheceu. Parou, me olhou, veio em minha direção. Próximo a mim, notei que fazia uma cara de surpresa. Estava muito desapontado.
– Ué, o senhor não achou? Não me leve a mal, mas eu ensinei certo. O senhor foi que não soube raciocinar.
– Tudo bem, eu... – tentei me explicar.
– Eu não lhe disse que era perto de minha casa?
– É, mas...
– Olhe a minha casa ali, olhe! – ele apontava com ênfase.
– Qual? — não sei pra que perguntei isso.
– Aquela lá, pintada de azul e rosa.
– Ah, sim, estou vendo...
– Então! Logo depois, na esquina, já é o Conjunto Catavento.
– Ah, bom...
– Eu ensinei certo, o senhor foi que não soube achar...
– Me desculpe... – eu gaguejei, me sentindo um idiota.
– É, mas da próxima vez tenha mais cuidado – ele disse, tocando na cabeça com o indicador.
Gente, aquilo era demais! Ele passava dos limites. Eu ia responder alguma coisa a ele, mas meu filho já chegava e era preciso dar meia-volta. Mesmo assim, arrisquei me divertir mais um pouco, com aquela situação bizarra.
– Por acaso, o senhor é marido de dona Sebastiana?
– Sou sim, por quê? O senhor conhece Sebá de onde? – ele perguntou intrigado, apertando os olhos, cheio de desconfiança.
– Não, por nada... – eu disse isso, engatei a marcha e fui saindo de fininho.


Do livro "A mulher dos sonhos & outras Histórias de humor"

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O VOO DOS ANJOS - Aleilton Fonseca


ÍAMOS PELA AVENIDA AFORA, CONDUZÍAMOS O ANDOR DEVOTO. Havia mais mulheres que homens, mais meninas que meninos, nessa procissão leiga, oficiada por conta e risco particulares. A santa deixava o nicho de sua sala especial que tínhamos em casa, alçava-se ao andor de madeira, até que leve, enfeitado de papel crepom, todo em rosa, azul e branco. O cortejo avançava até o final de nosso quarteirão e voltava pela outra rua, mais afastada e sem calçamento, em suas feições interioranas. Prosseguíamos, nesse compasso, parando o quase nenhum trânsito que porventura houvesse.
Era assim todo ano, por juras e empenhos, até que eu completasse treze aniversários. Por que não doze? Melhor se fossem os onze! — e desde antes se desse por encerrada a última peregrinação. Nos primeiros anos, eu mal sabia desses tratos de minha mãe com a divina. E ainda menos que tais ofícios eram por minha irrestrita causa. No começo, eu ia bem que entonado de vestido azul de seda, no colo materno, as asas brancas pendendo de minhas costas, num treino de voo futuro.
Ora, mas... é que fui crescendo. Primeiro, apeado do colo, fui promovido a anjo pedestre. Acompanhava o séquito, a cada ano mais encabulado, e daí, a mais por menos, já em gritante estado de vergonha. Um anjo quase rebelde à frente do andor. A santa até me assemelhava um quanto tristinha por minha causa.
Desde que me achei em tenência dessa parte, já de ensaios e quereres de minha mãe, aprendi os benditos que se cantavam. Ela, me olhando firme, me recomendava por ordem da santa. Eu os entoava, junto com o vozerio das mulheres, de bom grado, desde logo em decrescente, indo em andante com as asas pendentes, doido para me voar dali para onde fosse.
Eu benditoava num esforço de nem abrir a boca, desejando que o périplo se encurtasse de um zás!, por um milagre. Pois se eu sentia os risos de mofa da meninada, ao lado, acompanhando ao largo a promissória que minha mãe resgatava!? Daí eram uns tempos de zombaria que me encaravam: diziam que a saia de anjo me caía bem, balançavam as mãos juntas para me arremedar as asas. E eram umas asas de papelão coberto de papel crepom repicado a tesoura, com as pontas arrebitadas a modo de penas angelicais. Essa tamanha pena, eu podia?
Quê! Dessa vez bem que pedi substituto: “Mãe, já tou grande pra isso!” Ela fez foi ralhar comigo, em quase que ofendida, benzendo-se diante da santa, contra a minha apostasia. Não! Havia de ser eu, sim, oh ingrato! Era a ultimíssima vez! Não fosse a promessa, eu nem tinha vindo ao mundo para ser o único filho de uma já viúva.
Explico-lhes, de breve para colcheia, em segunda voz, pelas notas e pausas por ela mesma postas nesta partitura. Depois de duas perdas, ela teve a má sorte de se ver viúva quando tentava levar a êxito a terceira vez. E eu era o principal interessado. O meu pai, que nunca o vi em vida, este falecera num acidente pouco explicado. Isso já nem nos toca ao caso agora. Para encurtar caminhos e entrelinhas: minha mãe, já de vez sozinha, tinha na gravidez de risco a única esperança de tirar um fruto de uma vida até então em nada de alegrias. Dava-lhe medo que mais esse fruto pecasse.
Dona Dalva, o filho perigando em dificíl gestação, prostrou-se aos pés da santa, em prantos correntes, ofertando-o por afilhado, em proteção de sua esperança. Assim, o ajuste, de ambas as partes, e Deus por testemunha e juiz. Nascesse eu com vida, completasse um ano de choros e fraldas, iríamos nós nessa romaria de ano a ano, por treze vezes se resumindo. Esse era o trato, ad diem.
É óbvio que, criar, me criei! Mas aquelas andanças de anjo sobre a terra, naquelas tardes e noites de maio, mês de Maria, tais e quais, eu me lembro delas, nessa comichão de lhes contar o invento de quantos pontos. Sigam-me nesse passo, veremos de onde a procissão retorna.
Negociei que ela me arrumasse companhia, eu já pelos treze anos, mais dado aos babas de futebol de rua, às caças aos passarinhos e aos castigos escolares, me sentia nas reticências do ridículo, transvestido de anjo, logo eu! E um quê de anjo, como mamãe o concebia, eu tinha mesmo o nenhum! Eu me descriancei desde muito cedo, nas aprendizagens, nos papos furtivos com os meninos maiores e nos brinquedos com as meninas vizinhas. A gente ia sabendo, de outiva, de sutis observações, ensinos e práticas, como as diferenças se combinavam. Tudo em brincadeiras sãs, embora nunca menos escondidas que vigiadas pelos zelosos adultos equidistantes.
Nos entretantos dessa última prestação, era preciso prover motivos de eu não entornar o andor. Então minha mãe me arrumou um anjo de companhia — e eu até cogito que esse anjo se ofereceu para a empreitada comigo. Uma menina das mais levadas, tão mais que linda!, muito sabida em nossas primeiras desinocências. Um trisco menos nova que eu, minha alegria escondida de todos, invasora consentida de meus intentos de adolescer.
Ao lado dessa ângela de madeixas, esqueci das mofas — que, se antes me feriam amiúde, agora evaporavam pelo caminho. Os moleques declinavam de mim e se conjugavam nela, cobiçosos sem o saberem. Eu azul, ela rosa: nossas asas até se tocavam nas pontas, nossos olhos sorriam-se a piscar, inventando brincadeiras. Era uma ângela mais que a santa! — Oh, amada, por onde andas agora, há quanto tempo depois de tudo?
Mas a mãe da menina, de si em si quase desconfiada, ficava de olho em nossas asas, perdendo às vezes o ritmo do bendito, pesponteando-o à frente, no embalo do refrão que se repetia. De vez em vez, ela nos tirava uma mira, tentando adivinhar os ângulos de nossos passos. Ah, que anjos que éramos, os dois numa alegria inexplicável, difícil de se alcançar quando a inocência se desgasta. No enlevo de nem saber o que se passava em nossas veias angelicais, um calor ia-nos tomando, uma vontade louca de nos tocarmos, de nos sentirmos os cheiros, ficarmos por conta de um nada. Estávamos entre o céu e a terra, com olhares lânguidos, de um para o outro.
De mãos postas, em posição devocional, não conseguimos prosseguir. Eu me acerquei de minha ângela e lhe ofereci o calor de minha mão, que suava. Ela tocou-me com um sorriso que me elevou às nuvens, meu coração perdeu o compasso do canto e o ritmo do caminhar, como um tambor desafinado. Continuamos, agora de mãos dadas, sob o olhar impassível da santa em seu andor, que se arrojava à nossa retaguarda.
Minha mãe, se notou alguma coisa, fingiu que não. Até desistiu de ficar me admirando com olhos devedores à santa (uf!). Ela descansasse, que estava tudo pago, e com sobras, isso estava. E eu não morria mais, jurava em mim que não.
Era esse crescendo e caminhando, todo ano no mesmo cair da tarde. Promessa é dívida. A gente se saldava no trato. Eu, no entanto, tinha agora um maior regozijo que valia por todas as peregrinações passadas. Eu queria que o caminho se multiplicasse e que ninguém nos aparasse as asas, nos deixassem flutuar azul e rosa nos sorrisos em que nos doávamos.
Eis que chegávamos ao fim da caminhada. Quando o cortejo se aproximava de casa, escapamos de vez daquela devoção. E nos completamos num abracíssimo demais das medidas. Um verão enorme nos vinha à pele e nos deixava suados, revelando-nos as mais íntimas fontes. E isso era justo enquanto todos se preocupavam em disputar as portas, buscando acomodação diante do nicho da santa, para a celebração da ladainha final.
Havia o lugar certo para os anjos. Mas ali não chegamos. Numa combinação de olhares, dirigimo-nos para o quintal, ao fundo da casa, acolhidos pela moita de quarana.
Anjos, os nossos olhos se entendiam. Decifrávamos segredos a sete chaves ocultos, em busca de aprendermos o prazer de voar. Os nossos lábios se ensinavam, com o ardor que o coração palpitava. Nossas mãos consagravam os corpos tenros, que se buscavam num voo cada vez mais alto. Assim, descobríamos que os anjos também se amam, em carne e alma, sem precisar de palavras.

domingo, 11 de abril de 2010

O Canto de Alvorada


O dia já clareava, com os avisos dos pássaros. A hora certa do canto de Alvorada. Era um belo galo, senhor absoluto da primeira hora da manhã. O nome era um batismo de fé num futuro de glórias. Alvorada, desde frangote, já dominava o terreiro: distribuía bicadas nas canelas dos galinhos que ousassem desafiá-lo. Mestre Ambrósio, anos a fio a criar galos de raça, saberia a hora certa de fazê-lo descer à rinha para brigar. Criador experiente, em cada ninhada escolhia o filhote que daria um lutador imbatível durante várias temporadas. Muita fama, algum dinheiro, sensação e certeza de que a rinha continuava firme, apesar da recente proibição. Na cidadezinha, um lugar sem outros atrativos, muitos gostavam das rinhas, nos finais de semana. Era a única diversão de peões, feirantes, pedreiros, vendeiros e até de algumas pessoas influentes, que ajudavam a manter a rinha funcionando.
Mestre Ambrósio confiava no futuro de Alvorada. Aquele galo, sim, o melhor de todos. Ia ser, com certeza. Na hora certa, quando estivesse preparado, com esporões em riste, entraria na arena para estraçalhar. Com apostas de favorito, transformaria em pinto qualquer um dos valentões calejados de pelejas e vitórias. Os freqüentadores da rinha acompanhavam o crescimento do galo, admiravam-se da dedicação do tratador e de sua fé na força do animal. Alvorada já era famoso na praça, antes mesmo de iniciar sua carreira de glórias. Era conhecido dos maiores apostadores, que já viviam na expectativa de assistir a sua grande estréia. Alguns arriscavam uma proposta pelo futuro campeão, ouvindo todos a mesma resposta firme do treinador:
— Este galo eu não vendo por dinheiro nenhum.
O galo já valia uma fortuna. Promessa certa de grande desempenho. Os apostadores queriam vê-lo em ação, mas mestre Ambrósio não tinha um qualquer de pressa. Já adulto, o animal estava forte e arisco, não encontrava páreo nas lutas de treinamento. Do alto de seu canto, agitava as asas com firmeza e harmonia, riscava o chão, marcando seu território, absoluto no terreiro. Galos experientes, com vitórias contadas, apanhavam, baixavam a crista diante das bicadas e dos esporões do futuro campeão. Mestre Ambrósio sorria satisfeito. Tinha certeza, já previa os lances das melhores brigas no meio da rinha. Alvorada faria estrago, invencível anos e anos. Ia ser, mas na hora certa. Por enquanto, esperassem.
Ambrósio sabia: era preciso ter calma e calcular o momento certo da estréia. Uma coisa era o terreiro, calmo e arejado. Outra coisa era a rinha, o círculo apertado, o barulho da platéia, a pressão dos olhares. Alvorada tinha força de brigão, mas ainda não estava pronto: faltava muito pouco.
O criador tinha uma afeição diferente por esta ave. Era o resultado de muitos cruzamentos de galos de raça com as fêmeas mais ariscas. Desde que deitara aqueles ovos de casca áspera, mais dura que o normal, tivera a intuição de que um deles daria um macho dos melhores já produzidos no seu terreiro. Acompanhou o choco passo a passo, cuidou para que a galinha não demorasse de voltar ao ninho, para que os ovos não esfriassem nem gorassem. As semanas se passavam; agia ali a natureza, com seu ciclo perfeito. O futuro galo de briga ia-se gestando.
Quando os ovos começaram a se romper, um deles exigiu bicadas mais fortes do filhote. Ele veio à luz, estreou um pio repetido, forte, meio esganiçado, desde já imponente. Era um bom sinal. Certeza de canto firme e asas poderosas. Por coincidência ou cuidado, Ambrósio estava por perto e ajudou a alargar a saída, afastando as cascas com a unha. Riu satisfeito ao receber a primeira bicada do filhote em seu dedo. Ali estava, talvez, o animal tão esperado.
Mestre Ambrósio tocava há tempos o negócio da criação de aves de raça. Mas o que o empolgava mesmo eram os galos de briga, paixão herdada do velho pai. Nas tardes de sábado, a rinha era como um estádio. Os aficionados chegavam de vários pontos da cidade, com seus animais de estimação super bem-tratados, transportados em tipóias típicas, bordadas por suas mulheres ou encomendadas às costureiras das vizinhanças. Eram interessantes essas peças, com suas abas, com alças semelhantes às de sacolas de tecido, um bojo onde se colocava o corpo do animal e com dois furos paralelos, por onde passavam as pernas que iam pensas, pelas ruas, ou em guidões de bicicletas.
A rinha fazia parte da tradição do lugar, funcionava ali há mais de cinqüenta anos. Um grupo de trabalhadores do interior de Sergipe ali se estabelecera, trazendo a novidade. O finado mestre Jorge, pai de Ambrósio, trouxera da terra natal, junto aos patrícios, os primeiros galos de raça e de briga, com a idéia e o sonho de tocar uma rinha. Começou com a cara e a coragem, devagar, com dedicação e vontade. O negócio foi prosperando aos poucos, com a criação e a venda de aves de raça. Mestre Jorge foi desenvolvendo seu tino de treinador, ganhou a experiência de preparar os frangotes para a luta. Os bichos, uma vez adultos, bem nutridos com milho e ração preparada em casa, tornavam-se pequenos gladiadores de pena.
A rinha era um templo: espaço de consagração e decepção, entre vitórias e derrotas. Ali começava ou acabava a fama de um galo de briga e de seu dono ou tratador. Tal como uma praça de touros, a rinha se desenhava enquanto palco de vida e morte. Os animais se enfrentavam com uma fúria silenciosa, olho no olho, crista a crista, a bicadas e golpes de esporões afiados. O sangue e as penas, num ruflar de asas ariscas, cristas dilaceradas, os pescoços arrepiados. As batalhas levavam horas e se transformavam em tema de discussões, dias e dias. Nas paredes, algumas fotos antigas, outras mais recentes, os assentos de madeira em volta, como uma pequena galeria de circo. Era uma arena trágica para os galos, o deleite dos amantes do estranho esporte.
O galo que perdia o combate cambaleava até cair. Moribundo, ia para os tratos com ervas e ungüentos que pudessem recuperá-lo aos poucos, se agüentasse. Curado, poderia mais tarde retornar à rinha para as grandes revanches. Porém, se morresse em combate, ia direto para a chamada panelada de sábado, degustada pelos participantes do esporte, regada a cerveja. Já os vencedores cresciam no conceito de todos. Seu dono amealhava considerações. As apostas subiam cada vez mais. O animal pegava valor no preço, como subia o valor de um canário que cantasse melhor após a primeira muda de penas.
O tempo glorioso de Mestre Jorge passou. O velho tratador não resistiu à decepção de ver o seu melhor galo, pelo qual chegara a enjeitar uma oferta alta em dinheiro vivo, perder uma luta e morrer na rinha. Trovão caiu feio, sangrado por um franguinho de primeira luta. Um golpe de sorte, um puro acaso. O velho Jorge entendeu o pressentimento que tivera naquele dia. Não tivera tempo de fazer a simpatia especial que dava mais força ao galo. Subestimara o inimigo, e Trovão morreu. O tratador, chateado demais, quebrou as regras: não deixou que levassem Trovão à panelada daquele sábado. Enterrou o galo no terreiro, como um ente querido, ao lado de seu saudoso cachorro perdigueiro. Depois disso, o velho Jorge perdeu a graça, ficou triste e desanimado. Não preparou nenhum outro galo de briga. Morreu com essa tristeza, sem jeito que se desse.
Mestre Ambrósio herdou o lugar do pai. Desde menino já acompanhava o velho, ajudava no trato diário das aves, aprendia a profissão por vivência e entusiasmo. E agora, experiente e afamado, sabia que cada galo tem a hora certa de subir ao ringue, encarar o inimigo de frente, sem cacarejar. Havia lá uns segredos que guardava para si mesmo, algo como uma superstição, que ele empregava. Quando preparava um galo para briga, tratava-o de maneira especial. Deixava-o a sós com as galinhas, dono do terreiro, por três dias. O galo ali se sentia senhor absoluto, sem rival que lhe disputasse as fêmeas. Horas antes da luta, o mestre recolhia a ave, prendia-a num abrigo ali mesmo no terreiro, e soltava outro macho em meio às galinhas. O lutador, privado de seus privilégios, e vendo o rival livre para desfrutar de suas fêmeas, ficava inquieto, riscava o chão com as esporas, cacarejava alto, inconformado. Dali saía para a rinha certamente com muita raiva acumulada. E descontava no adversário, com toda fúria, castigando-o a bicadas certeiras, com esporões vingativos. Depois da luta, o galo treinado por mestre Ambrósio regalava-se de volta ao convívio com suas fêmeas. Esse era o segredo a sete chaves que tornava mestre Ambrósio um treinador respeitado, já que vencer seus galos era um desafio quase impossível. E nisso também se apostava, quando e quem o venceria. A fama corria, vinham tratadores de outras cidades, e mais de longe, adversários cada vez mais qualificados. Galo de Ambrósio era invencível, até que um dia se provasse o contrário.
Muitos queriam ver Alvorada lutar. Alguns para admirar os lances de perícia adquirida nos treinos, outros com sede de ver o tratador derrotado.
— Está com medo de botar o galo na rinha, compadre?
A provocação irritava mestre Ambrósio. Por que tinham tanta vontade de derrotá-lo, se ele preparava galos para todos, se proporcionava espetáculos que valiam pelas apostas e pelas diversões? Ora, talvez por isso mesmo. Tudo fazia parte da mesma festa. A sede de pequenas crueldades permeava aquele esporte esquisito. Uma delas era o gosto de ver o favorito perder a briga, pela emoção da surpresa e do desafio. Degustar a carne de um favorito, inesperadamente derrotado, era talvez mais saboroso. Mestre Ambrósio se preocupava com isso. Mas estava certo de que não iam conseguir derrotá-lo. Alvorada estava pronto para brigar bonito, de igual para igual, com o melhor galo que aparecesse. Com a velha simpatia que pai lhe ensinara deixaria o galo enfezado e feroz, capaz de derrotar o qualquer que o desafiasse. Mas, e se não fosse um dia bom? E se Alvorada perdesse a briga, como acontecera com Trovão há tantos anos? Este era o receio do tratador, pelo amor que sentia pelo galo, um verdadeiro animal de estimação.
— Como é, vai ou não vai botar o galo na rinha? Ou está com medo?
— Vou, claro que vou. Vocês vão ver.
Espalharam o boato de que Alvorada subiria à rinha na próxima jornada de lutas. As apostas foram se multiplicando, nas rodas de conversas, nas praças, nas feiras. Era clima de festa esperada, sem volta. Mestre Ambrósio, de surpreso com a notícia, se viu enredado, que não podia recuar. Mas o treinador se perguntava se o galo estava mesmo pronto. E não havia jeito de adiar a estréia no sábado. As apostas cresciam, a notícia da luta se espalhava entre os interessados, corria até nas cidades vizinhas. Alvorada havia de subir à rinha sem falta, sob pena de provocar pilhérias, descrédito, desmoralização. E isso Ambrósio não podia tolerar. O galo estava bem treinado, forte, em forma. Certamente estava pronto para a briga. Mas isso garantia que iria vencer? No terreiro, o tratador observava a ave, que ciscava despreocupado, soberano. Ora, Alvorada venceria qualquer peleja.
No sábado a rinha estava apinhada, entre conversas e animação, na torcida pelos galos, nas brigas preliminares. Os homens se acomodavam como era possível, na casa lotada, com visitantes de fora, alguns estranhos, com seus galos a tiracolo, gente de outras bandas. Chegava a hora de se definir o adversário de Alvorada, pela escolha da platéia, ou pelo desafio da maior oferta em aposta. O desafiante firmava o valor da aposta que oferecia, como uma espécie de leilão da luta. Entre os desafiantes, dentre os da cidade, apenas dois fizeram um desafio, porém sem convicção de que pudessem vencer. Naquelas circunstâncias, seria honroso desafiar o galo de Mestre Ambrósio, ainda que para dali ver sua própria mascote ir direto para a panelada de sábado.
Na hora de firmar o desafio, surgiu, da última fila, a voz de um visitante. Era um homem moreno, estatura média, cabelos grisalhos e bigode ralo. Nunca fora visto antes por ali. Trazia um galo à mão, numa tipóia bem bordada, o bicho de olhos vivos, piscando sem parar, como se nervoso com o barulho do ambiente, de prontidão para a luta. Com voz pausada, o homem fez, em desafio, uma aposta dez vezes maior que qualquer outra oferta já cantada naquela rinha. E diante dos olhares surpresos e silenciosos dos presentes, o desafiante se apresentou.
— Sou Manuel Ramos, venho de Estância, cidade de seu pai. Sou filho de um velho compadre de Seu Jorge. Eu também trato de galos de briga; aprendi com meu pai . Eu soube de sua fama, resolvi vir para o desafio. Este aqui é o melhor galo que já tive na vida. Venho cuidando para que seja um vencedor. Estréia hoje para valer, igual a seu galo. Vamos ver quem é melhor.
Mestre Ambrósio coçou a nuca, acariciou a crista de Alvorada na tipóia vermelha, com frisos brancos. Pensou um pouco. Não havia mais jeito. O desafio estava posto de forma irrecusável. Era confrontar Alvorada contra o galo do visitante, que aparentava ser um treinador experiente, firme e confiante. Era um lance arriscado, mas não podia recusar.
— Muito prazer, seu Manuel. Aceito a aposta – disse, com certa preocupação, diante do vozerio geral.
Na hora da luta, cada tratador fazia os preparativos finais para o combate. Acertavam os esporões de metal nas patas dos bichos. Massageavam as asas e o pescoço, apertavam o bico abrindo e fechando algumas vezes, faziam gestos de avançar com a mão sobre a ave para apurar os seus reflexos. Diante da expectativa da platéia, inquieta, em conversas e comentários animados, era hora de se iniciar o combate. Como um ritual, os galos eram apresentados à platéia, seguros pelas asas pelos treinadores, em lados contrários da arena de luta. Assim alçados, ao sinal de uma contagem de um até três, soltavam-se as aves na arena mortal.
Os dois galos logo se encararam, arrepiando penas do pescoço e das asas, cabeças em riste, olhos adrenalinos. Reconheciam-se já em disputa pelo mesmo espaço, correram para o centro da rinha, em franco combate. Era a sorte lançada. Um balé de gestos agressivos, numa coreografia de volteios, saltos, golpes, espera, avanços e recuos, diante da gritaria animada dos torcedores em volta. Dois galos bem treinados, uma briga com lances espetaculares, como poucas vistas por ali.
Eu, narrador futuro, me espremia num canto, mais atrás, firme na ponta dos pés para ver os lances da briga. Sorrateiro, bem quieto, com medo de ser posto para fora, pois proibiam meninos naquele lugar. Mas o dia era de total atenção ao centro da rinha, ou, pelo simples, toleravam minha presença discreta. A cada bicada, a cor avermelhando-se nas cristas e pescoços dos galos, isso me deixava preso no misto de angústia, pena, expectativa, sem saber para que ave torcer, com medo de ver uma delas, cada qual tão bonita, cair derrotada na rinha, entregue ao abate, direto para a panela.
Em meio àquela gritaria, as aves guerreavam, em gestos acirrados, mostrando os efeitos de treinamentos requintados. Manuel, nervoso e arisco, gritava para seu galo desafiante: — Vamos, Veloz! – revelando o sugestivo nome do combatente. Mestre Ambrósio permanecia calado, concentrava-se em estudar, nos lances dos animais, qual era a tendência da luta. Embora calado, notava-se uma aflição no seu cenho enrugado. Ele sabia quando uma briga era das mais ferozes, daquelas que deixava um galo morto e outro bastante estragado. E essa era uma briga das mais perigosas. Ele avaliava o esforço das aves, sentia pelos saltos e golpes de Veloz que Manuel era um excelente treinador.
Ia a luta se desenrolando, de parte a parte, os bichos se atacavam, se revezam em golpes mais fortes. Veloz era melhor nos saltos, quando suspendia o esporão de forma perigosa para Alvorada. Ia acertando-o na coxa, sempre arriscando encaixar um golpe certeiro, talvez mortal. Esses golpes repetidos serviam para minar a resistência do inimigo pouco a pouco, deixando-o sem forças para saltar, para avançar. Com tempo, ia se cansando, ferido na base, acabava se entregando aos golpes fatais do adversário. Alvorada era mais forte, atacava com mais consistência e às vezes acuava Veloz num ponto da rinha, de um lado ou do outro. Havia equilíbrio, a luta mostrava-se empatada, sem vantagem clara para uma das aves.
Nas brigas de galo acertava-se, por acordo, um intervalo. Servia para descansar um pouco os lutadores, quando se julgava a luta empatada. O treinador podia ajustar as esporas dos bichos, limpar os pescoços sanguinolentos, massagear o peito, refrescar com um curioso banho. O treinador enchia a boca de água gelada, segurava a ave diante de si, na altura do seu rosto e borrifava, soprando o líquido da boca no corpo da ave, daí massageando o peito e as coxas para aliviar as dores e a tensão. Alguns acariciavam seus galos, até beijando-lhes o pescoço como incentivo à luta. Mas cada treinador só podia pedir um intervalo de cada vez, e se o outro concordasse. Só tinha direito a novo pedido, depois que o adversário usasse o mesmo direito.
A briga empolgava a platéia. Os galos não decepcionavam. Alvorada distribuía toda a sorte de golpes, conforme seus treinos mais requintados. Veloz, no entanto, era um galo surpreendente, forte, bem treinado, ou mesmo o que se diz: — um galo bom de briga! Um páreo duro para mestre Ambrósio. Os bichos seguiam em saltos, bicadas, negaceios de asas, olho no olho, procurando acertar um ao outro com os esporões em riste. Um balé de golpes e saltos, desenhando ziguezagues na arena, uma coreografia que deixava respingos de sangue pelas cabeceiras do ringue, no revestimento de um tecido rústico com enchimento acolchoado. A platéia admirava-se da disposição das aves na briga. Os mais empolgados faziam novas apostas. Alvorada e Veloz recebiam novas cotações. A torcida quase que dividida, uns até apostando num improvável empate, se ambos restassem vivos, mas esgotados, sem forças para lutar. Seria uma pena se um daqueles magníficos galos viesse a morrer, numa carreira de luta tão curta, mal iniciada. Podiam dar espetáculos contra inimigos mais fracos, fazendo o delírio dos torcedores.
Este narrador espichava o pescoço, procurava acompanhar a dança de golpes pelo tablado, prognosticando o fim das duas aves. Parecia-me que ambas estavam prestes a cair mortas, mutuamente vencidas, causando um silêncio de pena. Seria um castigo para todos aqueles homens.
A briga continuava e Veloz agora parecia estar em vantagem, acertando mais bicadas do que levava. Alvorada lutava, mas sempre recuando, com saltos cada vez mais baixos, sem alcançar vantagem contra o inimigo. Manuel, satisfeito com o desempenho de sua mascote, observava de esguelha, verificando o ânimo de mestre Ambrósio, se ele entregava os pontos. Mas a regra era clara, se o tratador entregasse os pontos, o galo perdedor saía desacreditado, jamais voltava a lutar na rinha. E Alvorada não merecia tamanha desonra, já que, em desvantagem, bastante machucado, lutava sem medo contra a fúria de Veloz. Mestre Ambrósio, observador experiente de quantas lutas, sentia que os golpes de seu galo atingiam o inimigo, mas não faziam um bom efeito. E viu que, pela posição que Veloz adotava, os esporões de Alvorada não o alcançavam em cheio. Restavam forças para reagir, mas os golpes não surtiam efeito. Assim, a sua derrota era uma questão de tempo, suas forças iam-se minando, o cansaço ia-lhe abatendo. Só um intervalo poderia reverter a situação, corrigindo-se o ângulo das esporas de metal. Era preciso fazer algo: uma parada, um borrifo de água gelada, uma massagem no peito, algo que salvasse Alvorada da derrota. Mas era nítido que Veloz estava vencendo e Manuel não consentiria em parar a luta. Confiante, enfrentava o olhar nervoso de mestre Ambrósio, diante da gritaria da platéia, que sentia a proximidade de uma definição na luta, uns apreensivos pelos valores apostados, outros comemorando a vitória iminente.
Os gritos se chocavam: Veloz! Veloz! Alvorada! Alvorada! O galo de mestre Ambrósio cambaleou pela primeira vez, junto à borda almofadada da rinha. Mas seguia lutando, aplicando os golpes de esporão, mas sem atingir o alvo em cheio. Nesse momento, o tratador sentiu perto o perigo de perder sua ave predileta. Pensou em fazer algo, pedir uma pausa, sair da luta, salvar Alvorada. Mas não tinha coragem de ceder, pois sentia que o galo queria lutar, espanando as asas, perdendo penas, o sangue escorrendo da crista. Eram lances fortes, bicadas firmes, esporeadas no ar, cortes nas coxas dos gladiadores de penas, ambos sangrando, bicos abertos de cansaço, penas espalhadas pelo chão. A platéia, quase em delírio, seguia gritando a cada lance mais espetacular, aos gritos: “Vai! Aí! Bica! Vai! Sangra! Mata!”. Era a expectativa de um lance fatal. Pelos movimentos da luta, muitos já esperavam ver Alvorada tombar vencido.
O galo de Ambrósio cambaleou mais de uma vez e, diante de uma bicada forte de Veloz, os torcedores já esperavam de pé pela queda fatal. Ali, quase solenemente, fez-se um silêncio longo. Uma espera, uma aflição, um galo bicava, o outro retrocedia, sem ânimo. Então mestre Ambrósio, meio que em desespero, quebrou sua tradição: de calado rompeu a pular e a gritar, com as palavras de incentivo que usava ao treinar o seu galo.
— Eia! Vai! Pega! Reage, Alvora! Enfrenta! Alvora!
Era só sua voz no recinto, nervosa, quase embargada, uma lágrima vinha brotando dos olhos cansados do velho tratador. Foram a voz e os apelos de Ambrósio? O que foi que deu ânimo novo ao galo? O que se sabe é que Alvorada soltou um cacarejo como um gemido de aflição, agitou as asas, riscou o chão e partiu instintivamente para cima do inimigo. Veloz, num lapso de surpresa, abaixou um pouco o corpo, recuando. Alvorada, por estar meio desequilibrado, acertou de lado, com o esporão em cheio no pescoço do inimigo. O golpe prostrou Veloz na rinha e este foi o último gesto de luta de Alvorada, que ambos tombaram lado a lado, com as cristas e os pescoços ensangüentados.
A luta chegava ao final, já se apurava o resultado. Ou se considerava o empate por esgotamento, ou o empate por morte dos dois galos. Já se examinavam as aves, daí logo constatando: Veloz, sem reação, não respirava: estava morto, vencido, nas mãos de seu dono desapontado. Veloz, conforme a praxe, seguia dali para se juntar aos demais perdedores da tarde, como iguaria da panelada. Alvorada, sem reação, ainda respirava: estava vivo, embora extenuado. Já recebia os cuidados nos braços de mestre Ambrósio, agora feliz, aliviado.
Esportivamente, Seu Manuel veio cumprimentar o mestre, e pagar a aposta devida. Prometia voltar para novas jornadas. E assim avaliou:
— Foi uma boa luta, em verdade um empate – disse, traindo no ritmo da fala uma certa tristeza. Dobrou a tipóia de Veloz, tentou enfiar num dos bolsos, mas não conseguiu. Então, olhou-a mais uma vez e atirou num canto, na minha direção. Eu peguei a tipóia do galo vencido, guardei como troféu que até hoje figura em meu velho baú de lembranças.
Seu Manuel se despediu, que já ia pegar a estrada, de volta a sua cidade. Ali, de ouvidos atentos, ouvi as suas observações, que deixaram Ambrósio em silêncio, preocupado.
— É uma pena. Seu galo é muito bom, mas, assim ferido, dessa noite não escapa.
Aquele sábado terminou em festa, com rodadas de cerveja, cantigas ao som de sanfonas e violões. A panelada já ia para o fogo e a expectativa era grande, pois diziam que galo bravo dava mais caldo, tinha mais sabor.
Mestre Ambrósio não ficou para comemorar. Seguiu para casa com o seu campeão na tipóia, muito ferido, num silêncio que só cedia a um ruído de cacarejo impossível, como gemidos de dor. Em casa, Ambrósio preparou beberagens que lhe enfiou bico adentro, passou ungüentos medicinais no corpo do bicho, tratou os ferimentos da crista, fez curativos no pescoço. Agasalhou Alvorada num ninho especial, com serragem e maravalhas finas, num canto bem arejado do terreiro. Ele se sentia culpado pelo sofrimento do animal, e orgulhoso pela vitória contra o pior inimigo que já vira na rinha. Manuel era um treinador dos melhores, com certeza. Ambrósio acariciou seu galo de estimação, abaixou-se e o beijou no bico. E, aproximando-se das aurículas do bicho, disse: “Boa noite, velho!”. Mas logo voltou, para ficar observando-o mais um pouco. “Você vai escapar dessa, velho”, ainda disse. E daí se recolheu, entre enternecido e confiante.
Na cama, sua mulher, Dona Dália, já ressonava, que dormia sempre mais cedo. Ela detestava brigas de galo. Já deitado, mestre Ambrósio sentiu o cansaço do dia, dos anos, da vida. Pela primeira vez sofrera de verdade com uma briga de galo. Sentira um aperto, quase uma dor no peito, com medo de perder. Não pela aposta em si, mas pela vida do galo. Não queria ver o bichinho cair morto diante de todos, virar tira-gosto de sábado, devorado com cerveja. Agora, Ambrósio sentia: Alvorada não era apenas um galo; era seu animal de estimação, mais que um amigo. E se emocionou, lembrando do trato diário com o pinto, o frango, o belo galo. Vinha-lhe a decisão firme. Nunca mais entregaria Alvorada à rinha. Deixaria essa vida de uma vez, como Dália vivia pedindo. Livre, Alvorada viveria solto pelo terreiro, a cobrir as galinhas de raça, como um verdadeiro reprodutor. Era o melhor galo de todos os tempos. Merecia ter uma linhagem, ninhada após ninhada. Os filhotes de Alvorada iriam povoar todos os terreiros, com aquele porte de campeão invencível, com aquele canto que encantava a manhã. Um canto que fazia os pássaros suspenderem a voz para ouvir.
Ambrósio estava sem sono, via a noite se arrastar. Como se sonhasse de olhos abertos, revia os piores lances da luta. Imaginava Alvorada morto, como seria sua enorme tristeza. Mas logo revia as melhores cenas, e o lance final da luta: o galo inimigo tombando, Alvorada reagindo, olhos semi-abertos, ferido mas vivo, vivo como sempre. Alvorada vivo!
A madrugada declinava, começava a clarear, com os avisos dos pássaros. Era a hora certa, como todo dia era, do canto de Alvorada. E, de repente, esquecido das feridas da ave, que também doeram, agudas, dentro dele, Ambrósio apurou bem os ouvidos. E de lá do terreiro, ouviu o canto de Alvorada. Era o belo canto de sempre, absoluto sinal de vida, entre os primeiros raios da manhã. Era um canto nítido, claro, imponente, superior: este canto, este que só mestre Ambrósio ouvia, e de agora para sempre ouviria, todo dia. Porque, nas redondezas, outros cantos longínquos assumiam o vago romper da manhã. No terreiro desolado, era só a alvorada que rompia e se elevava, e era alva como todos os dias. No entanto, estava envolta num silêncio de luto – que só se escutava, ali e além, o canto triste dos passarinhos.

O conto se encontra no livro O Canto de Alvorada, de Aleilton Fonseca, ed José Olympio, 2003.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

ZÉ PRETO

Aleilton Fonseca

Ninguém dava atenção a Zé Preto, mas ele e seu cachorro insistiam em me reconquistar com seus olhos penitentes. Tudo, no entanto, havia mudado. Eu já não dispunha de tempo livre como antes. Adulto, agora eu vivia apressado, cheio de tarefas no escritório. Mas insistiam, como se eu pudesse interceder por eles, em busca de um lugar em que ainda coubessem no mundo.

Sempre juntos, o velho manso, com seus passos miúdos, e o triste escudeiro, de olhos não ferozes e cauda intranquila, que nem se atrevia a latir. Guardavam-se de maiores maltratos, de maus olhos, certas pedradas e quais descasos. Pior: agora estavam ameaçados de despejo. Queriam pôr Zé Preto no hospício e o cachorro porta afora. Entretanto, como separar tais criaturas que só sabiam existir um para o outro?

A vizinhança, totalmente renovada, agora os desconhecia. Queriam varrer os pobres da tapera triste, em plenas formas arruinadas por chuva, sol e janeiros. Eles eram considerados uma mancha feia naquela rua que cada vez mais se tornava chique. Os novos moradores os rejeitavam, pois que eram, muitos deles, bem empregados, alguns cheios de empáfia aos ventos. De fato, não era mais uma rua de gente pobre, como durante tantos anos, desde que Zé Preto se amoitara naquele canto.

Ele era de outras datas, na época das velhas vizinhanças. Desde sempre bem aceito e tratado, davam-lhe de comer, beber, vestir e remediar. Até sorrisos lhe sobravam. Minha mãe, enquanto viveu, esteve atenta a esses cuidados. Para ela, zelosa dos vizinhos mais humildes, Zé Preto era uma devoção diária. Como fornecia marmita, mandava-me levar o almoço e a janta dele. Eu entregava o embrulho, com dois pratos fechados, um contra o outro, enrodilhados num pano de cozinha.

Zé Preto também recebia atenção de outros vizinhos. Tanto que não precisei continuar os cuidados; ele se arranjava com outras pessoas. Daí que fui esquecendo dos velhos tratos e, raramente, o via. E eram cada vez mais remotas suas aparições na rua. O cachorro certamente era outro, mas parecia o de sempre. Se me avistavam, insistiam em chamar minha atenção. Eu, no entanto, desviava deles os olhos e os passos. Cuidava de minha vida.

Esse homem, eis um ser discreto. Naquele tempo, ninguém triscava num sequer detalhe de sua história. Era sempre assim, de seu jeito, sem nenhum motivo que se comentasse. Provado manso, era circunspecto, por vez risonho, sobretudo divertido com as crianças. Ele gostava de brincar. Fazia carrinhos de madeira, toscos, desengonçados, que arrastava pela rua, barulhando. Ora engendrava algo como se parecesse um avião, um catavento de lata, que, se não voava, ao menos divertia ao rodopiar pelo terreiro.

Certas vezes, Zé Preto saía correndo pelas ruas, nas mãos uma tampa de lata, qual fosse um volante; buzinava e fazia ruído de motor com a boca. Era o perfeito homem acriançado, bom de se gostar, sem travos nem receios. Os meninos íamos colher balas para guerra nas mamoneiras do seu quintal, sem que isso somasse riscos ao zelo das mães. Zé Preto era ajuizado, de confiança, incapaz de malfeitos ou abusos. Todos gostavam dele.

Dia a dia, o tempo salta e as pedras rolam. Os meninos da vizinhança crescemos, os velhos morreram. Muitos se mudaram, venderam as posses, foram-se embora. A cidade crescendo sempre, a rua foi ganhando novos donos, outras feições, pontos de comércio, asfalto, carros e transeuntes; uma gente estranha e apressada, em busca de outros tratos de viver e morar. Diante dos novos jeitos da rua, Zé Preto e sua casa foram-se tornando estranhos, exóticos, — ruínas indesejáveis.

Um boato ganhou as esquinas, correu a rua de ponta a ponta. Não achavam certo semelhante pessoa enfear a paisagem, ali morador, no horrível casebre em ruínas, cercado de mato. Aquilo desvalorizava a rua e as casas vizinhas. Era algo ruim de se ver, conviver e aceitar. Diante do caso, voltei a me preocupar com o velho amigo. Dei-me conta de que eu era o único remanescente dos jogos de gude, das brincadeiras de bola, picula e empinações de arraia, agora impossíveis na rua movimentada. Daqueles tempos, só eu e Zé Preto restávamos.

Entretanto, mantive-me discreto, ao largo dos comentários. Os mentores da campanha vieram me pedir apoio para desalojar o homem dali. Ora, eu não podia compartilhar uma ação contra Zé Preto. Discordei, defendi seu direito de permanecer no lugar. Eu trazia do tempo de infância uma atenção silenciosa pelo velho, e agora indesejado, morador da rua.

O fato me avivou a memória. De vagos registros, em calças curtas, me lembrava de haver brincado em seu terreiro, em seu quintal aberto. E mais: eu me via em seu colo, minha mãe perto, mas nem aflita, pedindo, com muita calma, que ele me pusesse no chão. Zé Preto, então jovem, ria de me haver em seus braços. Um dia me levou para sua casa, para desespero discreto de minha mãe. Eu tinha uma vaga ideia de seu estranho lar por dentro, onde havia latas dependuradas, pequenas caixas de papelão, trastes espalhados — que me pareciam uma arte de fazer ruídos. Brinquei com aquelas coisas; bati lata com lata, juntei pedra com pedra, armei pilhas de gravetos, combinei cacos de vidro. Ele, muito atento, quase sempre calado, só me olhando e rindo. No seu tom encabulado, me dizia baixinho: “Oh, Zefizim”.

Minha mãe tinha muito cuidado. Preenchia os tratos comigo, limitava meus vôos, vigiava-me os passos, quedas, cismas e vontades. Era rígida no trato, e firme nos exemplos. Mas aceitava que eu errasse, desde que soubesse o quanto, como então me explicava. Eu crescia pelos terreiros, de rua a rua. Zé Preto de vez em quando me tomava pelo braço, me dava os estranhos brinquedos de lata e de madeira, sem nenhum sentido de uso que eu imaginasse. Eram só mesmo de se pegar ou fazer barulhos. Minha mãe procurava evitar, escondia-me dele, dizia que eu estava na escola. Mas o vizinho acercava-se de nossa janela e me chamava pelo apelido inventado:

— Oh, Zefizim, vecê vem cá, vem brincar com eu, vecê vem...

O bom amigo, de voz e passos mansos, flagrava às vezes a inverdade. Seus olhos brilhavam, quando me descobriam. E eu, sem saber que minha mãe reprovava nossos encontros, até gostava de entrar naquelas ruínas. Eu tomava bons borrifos de chuva, boa aragem de vento, naquela ex-casa, quase mesmo a céu aberto.

O tempo agora era outro. Mas como eu poderia ser contra Zé Preto? Jamais. Ignorei o problema, embora notasse que as pessoas estavam determinadas a expulsá-los dali. Só espreitavam um pretexto, um deslize assim que fosse. Insinuavam que eram perigosos, que ameaçavam os passantes. Mentiras! O velho e o cachorro, amoitados no casebre, vigiavam a rua de longe, adivinhando os perigos através das frinchas das paredes arruinadas.

Um dia aconteceu o pior. Eu estava no escritório quando recebi um telefonema revelando o inexato. Eu fosse até lá urgente. Davam conta de que Zé Preto havia sequestrado o filho da nova vizinha, levando-o para sua casa. As pessoas, instigadas contra ele, posicionavam-se em atitudes agressivas. Chamaram a polícia e reclamaram providências para, segundo diziam, salvar a criança das garras do doido perigoso.

Eu corri de imediato para acudir Zé Preto. Era urgente livrá-lo daquele apuro. Eu sabia que ele, certamente revivendo estórias, queria apenas agradar o menino. Talvez sentisse saudade de brincar comigo.

Infelizmente, cheguei na hora máxima do tumulto. E não consegui evitar a tragédia. Alguém havia visto o cano de uma arma apontada para a rua, desde as ruínas. Houve correria, gritavam que Zé Preto ia atirar. Na confusão, ouviram-se dois tiros. E depois só silêncio e sobressalto. Imediatamente, corri para o casebre e vi a mesma cena que eu, em criança, também protagonizara. O menino, de uns cinco anos, entretido com os estranhos objetos, empunhava a velha arma de brinquedo. Ele havia apontado a arma para a rua pela grande frincha da parede.

De imediato, vi Zé Preto caído, seus frangalhos de roupa tingiam-se de vermelho. Na aflição, gritei que o tinham matado. Mas ele ainda estava morrendo. Corri para tentar ajudá-lo, em vão. Ele se apagava rápido. Ainda olhou piedoso para mim e para a criança, e murmurou sua velha frase, quase inaudível: “Oh, Zefizim”. E calou, sem expressão nos olhos úmidos. Ajoelhei-me sobre ele, angustiado, e fechei seu olhar vazio. Zé Preto, morto. Eu fiquei perplexo, uma vida inteira ia repassando em minha memória. De pé, eu olhava o seu corpo, custava-me acreditar. O cachorro, num canto, acuado, rosnava baixinho. Apanhei o menino, trouxe-o para fora das ruínas. A mãe, em prantos, arrebatou o filho de meus braços e o apertou ao peito. A multidão em volta estava em silêncio, depois irrompeu, num vozerio abafado, com diversos comentários.

Zé Preto estava morto. A pior coisa estava feita, por dúvidas de um ato suspeitoso ou premeditado. Voltei às ruínas, e vi o velho cachorro junto ao dono. Lá fora, os curiosos se dispersavam. Eu me sentia num viés, entre uma grande perda e uma enorme culpa. Eu me atrasara por longos anos ou por um eterno minuto?

Zé Preto foi declarado morto em tumulto, num crime de autoria desconhecida. Fui ao centro, falei com autoridades e nada obtive de certo. Apenas aceleraram os papéis e dispensaram outras praxes. Um ser humano, morto de modo tão mesquinho, e constou que era apenas um doente mental sem dono. Eu, único vizinho do tempo em que Zé Preto era bem-quisto, sentia agora o dever de cuidar dele como se fosse gente minha. Tomei as providências normais para o seu enterro.

Entretanto, não fiquei sozinho nessa missão. Um homem grisalho, de jeito muito humilde, apareceu para cuidar do morto. Chegou trazendo um caixão simples numa carroça. Eu o acompanhei. Ele parou, me olhou fundo, apertou os olhos e indagou:

Eu conheço o senhor de algum lugar?

Creio que não — respondi convicto.

Ao ver o morto, o homem murmurou:

Coitado de meu irmão.

Surpreso, examinei bem os seus traços. De fato, ele se parecia com Ze Preto, só que normal, sem aquele ar vago e manso, embora fosse um tipo circunspecto, sem dar trela a conversas compridas. Com minha ajuda, limpou o corpo do irmão, vestiu-lhe um traje que trouxera num embrulho. Daí fez a barba do morto, aparou seus cabelos, dando-lhe uma feição nova que me pareceu estranhamente familiar.

Em silêncio, preparamos o corpo e o ajeitamos no caixão. Ficamos ali, de guarda, durante algumas horas, num estranho e solitário velório. Sem uma palavra. De vez em quando fitava meu rosto, olhava demoradamente para o morto, franzia o cenho, de jeito indagativo. E rezava em silêncio. Eu apenas recordava as boas passagens da vida.

No fim da tarde, colocamos o esquife na carroça e nos dirigimos ao cemitério. Tantas vezes eu levara alimento a Zé Preto. Agora uma prece lhe bastava. No fim do ato, quando acabamos de juntar terra à cova, o homem estendeu-me a mão. Ele me agradecia e, por fim, me indagava:

— O senhor sabe o que é feito do filho de José de Arimateia de Jesus?

— De quem? — eu estranhei.

Ele repetiu seu olhar para mim, firme, apontando para a sepultura com o queixo:

De meu irmão.

E ele teve um filho? — eu me espantava.

— Sim... Quando moço, ele teve um filho com uma vizinha.

Engoli em seco; balancei a cabeça negativamente. Ali mesmo nos despedimos. E eu prossegui minha vida, sempre calado, até que as palavras começaram a ressurgir com sutis insinuações. Aquelas ruínas me chamam, e eu preciso juntar pedra com pedra, arrumar os gravetos, combinar os cacos de vidro.

In: Teresa nº 3. Revista da USP. São Paulo, 2004.



Disponível também em: http://www.tanto.com.br/aleilton-contozepreto.htm

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A última partida



Aleilton Fonseca

Num mais que de repente, Linco ia se levantar dali de um pulo, com sua risada de mangação. A certeza nos aliviava, por hora, de uma dor mais funda. Pois se ele era tão fingido, nos metendo cada susto! Era só um esperar, os adultos se preparassem, que nem precisava lotar a sala de tanta gente para o maior efeito. Ele estava debaixo do lençol, bem quietinho, sobre o banco de madeira rústica. A gente queria ver de perto, era difícil.

Linco era assim mesmo, imprevisível, sempre que presepando coisas. Na maré, que corria ao fundo de nossas casas, ele inventava ondas. De uma vez das tantas, tomávamos um banho num fim de tarde. De mergulho em mergulho, ele sorveteu-se nas águas; nós esperamos que voltasse à superfície... e nada! Caímos em desespero:

– Linco sumiu, gente!

– Ele se afogou!

Os companheiros e eu tremíamos de assustados, quase nem tomando o ar correto, a gente escarafunchava as águas, nos mergulhos de busca. Abríamos os olhos, que ardiam, mais do que salinados, já com as lágrimas brotando.

– E agora?

Um silêncio nos assaltou, a maré nos pareceu monstruosa, doida para nos engolir também. Mergulhar desse jeito afoito dava logo um cansaço. A gente precisava boiar juntos, de mãos dadas, desfadigar. Então, ouvimos o desgramado, que saboreava a maior gargalhada, se enganchando nos galhos do manguezal. Ele prendera o fôlego, nadara por debaixo, voltando à tona escondido nas ramagens. Tudo isto um apronte só, o tinhoso, para colher de nós uns risos sem graça entre a raiva e o alívio.

Agora, ali na sala, cadê que não se denunciava logo em nova traquinagem? Acontecera de supetão, corremos à casa de Linco, depois de um certo rebuliço havido por lá. De logo a gente não dava passagem ao real, ele deixasse de manha! Isto já estava para lá de um despropósito. Era um demais, pois olhem o estado da mãe, coitada!

Estávamos atordoados, acotovelando-nos entre os adultos. Encostados à parede, a gente se firmava na ponta dos pés. O manhoso se levantaria dali – é claro! – dando o maior susto no povo. Era o caso para umas boas risadas. Linco estava para além das margens, nos seu exagero. Depois, depois...

Mas, que manchas eram aquelas, de um modo avermelhado, ensopando uns quantos pontos do lençol? A gente espichava-se em mais um apuro de prestar atenção. Linco, ali debaixo, encoberto, a mãe dele se desconsolava num canto, amparada no abraço da irmã. Dona Aurora se revelava em desespero, uma noite imensa invadia seu rosto e já clareava o nosso entendimento. Houvesse mais coração para tanto pulo, a gente se via à beira de um choque. Mas como podia ser isso com ele? E com cada um de nós também podia, pois lençol, banco e sala todos tínhamos em casa.

Era um sábado. E amanhã haveria o jogo de bola, nosso time todo montado nos acertos de Linco. Era a final do campeonato de bairros, que a gente mesmo organizava para distrair aos domingos. Ponta da Pedra, nosso esquadrão azul e branco, trajando as camisas que a Prefeitura nos dera, por pedido escrito e insistências de Linco. E o adversário não era mole! Enfrentar as feras do Malhado, uns até mais velhos que nós, e bons de bola, era fogo. Mas Linco bem que traçara uma tática nova. Como líder e goleador, garantia que íamos ganhar o troféu. E até fizera aposta de honra contra o dono do time inimigo. Quem perdesse teria de tomar banho no rio, todo nu, calado, sem poder revidar a gracejos nem gozações.

Agora, porém, eis que Linco... Mas como foi? Por quê? De déu em deu, a história se desatava nos sussurros, mas, para a gente, não assentava por certo haver o amigo em tal estado. Linco fora cedo para a praia desafiar as ondas, como gostava de fazer. Na volta, acabara recolhido naquela situação.

Este fato era difícil aceitá-lo, aquilo é que não podia! Linco desistisse do mau gosto, fosse dormir mais cedo que amanhã haveria um jogo duro. O time do Malhado não alisava, com suas jogadas e tramóias, dava de seis a zero na gente com facilidade. Mas, isto, só se Linco não jogava. Era quando ele ia cumprir as ordens da mãe, fazer lição de casa, estudar para as provas, sem outro jeito de escapar.

– Primeiro a obrigação, depois a distração, – era o lema de casa.

Sem Linco nosso time era pato. Com ele sobravam as diferenças. Sob o seu comando a gente não se intimidava. Ele arranjava sempre uma das suas mais novas artimanhas. De cochicho em cochicho nos dava todas as dicas, nos colocava na função certa em cada parte do campo. A gente perdia por placar apertado, sem fazer feio. Outras vezes íamos vencendo, com sorte e com jeito. Foi assim, de gol em gol, chegamos à decisão do torneio, para surpresa de todos.

De uma outra vez, estávamos abatidos no aperto de cinco a zero, numa partida de seis. Era justo contra o temível Malhado. Perder de seis a zero, uma lavada para dúzia e meia de gozações! Nosso craque esmoreceu, comentava alto para todos:

– O jogo está perdido, não adianta! – e atirava a bola para o lado, atrasava-a para o goleiro.

Linco era o único jogador de nosso time que inventava medo aos adversários. Mas, naquela altura do jogo, parecia preso por um cansaço. Perambulava em campo, quieto, sem dar parte na disputa. Os caras do Malhado relaxaram, deram por ganho o combate. Era só questão de a qualquer momento marcar o gol de misericórdia e ir mergulhar no rio, zombando de nosso “timinho”. Eles começaram a fazer firulas, com toques desconcertantes e às gargalhadas, dando um banho de olé na gente. A platéia de fora se deliciava. Os demais meninos de nossa rua, entre aflitos e conformados, se contorciam. De repente, apertamos a marcação, a bola deu rebote e foi quicando de flerte com Linco. Ele a tocou como quem não quer nada e, sem mais nem menos, inventou um chute torto e certeiro. No ângulo. Este gol nem o comemoramos dada a indiferença do próprio artilheiro.

– É o gol de honra – ele murmurou, cabisbaixo.

Os meninos de Malhado nem sequer se assutaram. Continuaram desperdiçando as chances de vencer, mais interessados em nos dar aqueles dribles, colocando a gente na roda de bobo. Lá vai, de novo, a bola lhes escapava. Linco apanhou a sobra e lá se foi nas fintas; deu um chute, agora chocho e enviesado, deixando o goleiro com cara de besta.

– Este é para a goleada não ficar muito feia – ele comentou, sem alarde.

A coisa ficou por conta. O pessoal do Malhado se ressabiou, atirando-se todo ao ataque, seis a dois ainda renderia uma boa pilhéria. Já o nosso goleiro, mais animado, se pôs a subtrair os graus dos piores ângulos. E a bola passava raspando, mas não entrava. Eu, reles zagueiro, com as canelas ardendo, me afogava no suor. Chutava para qualquer lado, procurando acertar as moitas de capim bravo, que dava tempo de respirar um alívio. E Linco, rente ao meio de campo, estava só que olhava o jogo acirrado sobre nossa defesa, num desinteresse de irritar. Lá um lance, a bola rebateu em minha cabeça e se foi aos caprichos de Linco, num contra-ataque fulminante. Ele rompeu nas costas de um zaqueiro que perseguia as suas pernas serelepes. Não houve senões, o goleiro avançou firme, mal-encarado. Linco ziguezagueou-lhe um drible e o plantou na lama, com a bola na rede.

Cinco a três era já um acinte, os caras do Malhado endureceram de vez, dando-nos rasteiras e pontapés explícitos. E já se desentendiam em campo, trocando entre si uns feios xingamentos. Linco, sempre em surdina, de cócoras, em campo, colhia uns matinhos e os mastigava, todo matreiro. Num avanço da defesa, o Malhado quase lavrava a fatura, mas nosso goleiro operou a mágica com as pontas dos dedos. A bola sobrou na minha frente, eu a chutei a esmo, sem querer encontrei Linco e já fui vibrando contrito, o gol era questão de segundos... pronto! O jogo em quase que empate. Cinco a quatro feria a honra do Malhado. Eles deram a nova saída, com as caras entufadas. O jogo passava dos limites. Nesta demora, as cigarras já nos recomendavam recolher a bola, a tarde já se ia turvando.

Já entendíamos o plano de Linco: ele se fazia de morto para ser visitado. Os malhadenses discutiam forte, erravam passes, os afobados, numa ânsia de nos liquidar de vez com o sexto gol. Armaram um abafa sobre nós, chutaram um petardo venenoso, nosso goleiro espalmou para escanteio. Linco intuiu o lance e recuou para nos ajudar. A bola alçada à nossa área, ele a matou no peito e a pôs no chão em desabalado rompante. Os caras, desesperados, gritavam para os da defesa:

– Pega! Agarra! Não deixa!

Qual o quê?! Linco rodopiava, deixando os zagueiros para trás, pulava para escapar de uma rasteira, se retorcia todo mole para fugir dos agarrões. E pimba! Entrou com bola e tudo, deixando o goleiro órfão e humilhado, prestes ao choro. Eis aí, mestre Antonio: o jogo estava empatado! Os “craques” do Malhado caíram de suas torres, fulminavam-se uns aos outros com raiva e nos assassinavam com o olhar. Culpavam a defesa e o goleiro, que maldiziam os atacantes. A gente nem tico nem taco! Era só tocar a bola, de olho nas treitas de Linco.

– Quem fizer um gol ganha! - o maioral deles vociferou o óbvio.

A gente conspirava em silêncio. O Malhado se perdia de vez em campo. Mas insistia, desordenado, em busca do último gol. Nossas pernas se multiplicavam, na resistência. Mais tarde, um menino vinha decretado com um aviso. A mãe de Linco o estava chamando, era a ordem de ir para casa. A gente queria aproveitar a chance de vencer, mas sem ele no ataque não dava.

– Vamos ganhar logo, que eu estou de partida.. – ele disse, bem animado.

Linco correu até a defesa, pediu a bola ao nosso goleiro, levantou a cabeça com ímpeto e irrompeu contra o time do Malhado. Ele sorria e avançava. Eu o segui de perto, vibrando. Na minha frente desenhava-se um ziguezague: driblou um adversário, dois, três quatro... Arremeteu contra o goleiro deles, que saía do gol fechando o ângulo. Linco parou, como só ele parava, deu um toque sutil e saiu de lado. O gol estava diante dele, entregue e escancarado. Houve ali uma expectativa, o jogo já terminava. E ele me ofertou a bola: Terto, faça o seu gol!”. Eu, simples zagueiro, jamais provara aquele sabor. Então eu mesmo rolei, bem de levinho: e a bola foi sorrir no fundo da rede.

Todos corremos para ele e gritávamos gol e nos abraçávamos, era a virada de seis a cinco. O invicto Malhado enfim derrotado, diante da platéia surpresa ao redor do gramado. Contra a nossa festa, o líder deles jurou vingança, de cara amarrada:

– Na próxima vocês vão ver!

Saíam de campo sem graça, mais que inconformados. A gente degustava a justa vez de zombar:

– Oh, timinho de patos

E agora? Amanhã era a final, contra o ferido time do Malhado, cheio de brios pela revanche, com um ressentimento bairrista demais. Prometiam nos bater de seis a zero. Eis que era chegada a hora, e Linco naquele pior estado. A par de tanta tristeza, as nossas lágrimas prosperavam, renovando-se nas lembranças daquelas glórias repassadas. De nossa parte, era a vez primeira de enfrentar esse tipo de jogo, totalmente vencidos. E cada um de nós compreendia, a seu modo e tanto, o quanto gostávamos daquele menino. No entra-e-sai da sala, ninguém podia efetuar o total que sofríamos. Sem o nosso amigo, sentíamos o vazio de uma enorme parte de nós mesmos. Tínhamos muita pena de Linco não jogar aquela última partida. Ele, com tanta espera e vontade, planejara a grande vitória. Um ou outro de nós se arriscava, em meia voz, para o maior silêncio dos pares:

– E o jogo de amanhã?

Primeiro concordamos com a idéia de que não haveria o jogo. Os caras do Malhado tinham de compreender o respeito devido a Linco, o motivo de força maior. Aliás, que jogo teria graça para nós, naquelas circunstâncias? Estava, então, acertado. Passava da meia-noite, de qual a qual íamos tombando de sono. Cada um procurou seu caminho de casa.

No domingo, pela manhã, nos reuníamos em frente à casa de Linco. Vinha então a embaixada do Malhado em nossa petição, naquele uniforme grená desbotado de sempre. Cadê nosso time? Era hora do jogo. Logo explicamos o fato, eles se concentraram no silêncio, com algumas perguntas esparsas. Depois entraram para ver o nosso amigo, já composto entre flores, perfilaram-se com respeito e tristeza. Não havia ânimo para a partida, com tal desfalque em nosso coração.

Todos de volta ao terreiro, daí batíamos uma bola solidária, numa roda de pé em pé, comungávamos a dor daquela tragédia. Num momento em que a bola resvalou da roda, fugindo de controle, veio dos amigos do Malhado uma proposta:

– Vamos jogar a partida – um deles se aventurou, meio que experimentando.

– Não dá – cada um de nós respondia, em consequência perfeita.

Eles insistiam que jogássemos em homenagem a Linco. Haveria um minuto de silêncio. Eles queriam o jogo, mas não lhes víamos nenhum sinal de revanche. Era razoável, de olhar em olhar nos entendemos: a gente jogava. Mas, com uma condição: seria a partida de um só gol. Quem marcasse primeiro ganhava o torneio, com respeito, sem festa nem gozação. Este jogo de futebol não podia demorar, pois sabíamos que, logo mais, Linco seria levado para outro campo. E todos o acompanharíamos em sua última partida.

– É o nosso último jogo. Sem Linco, o nosso time acaba – alguém murmurou e todos acenaram que sim.

Vestimos o uniforme do time, em azul e branco, para o jogo final. A camisa de Linco ficou estendida no chão, próxima ao campo, invocando a sua presença. O juiz, que vinha do bairro Pontal, depositou o troféu sobre a camisa dele. E nos convocou ao meio do gramado. Depois do minuto de silêncio, que varou mais que sessenta segundos, demos a saída de bola e nos pusemos em disputa.

Era um jogo estranho, sem o mínimo ânimo de ambas as partes. O pessoal do Malhado nos dominava, mas chutava sem força, parecia que sem querer marcar o gol. Dava vontade de parar a partida, lagar aquilo de mão, ir velar os últimos momentos de Linco. Após longos minutos madorrentos,os nossos oponentes inprovisavam de novo:

– Vamos disputar pra valer, gente!

Outro de lá lançou um ajuste: o troféu ganhasse o nome de Taça Linco. E o tento da vitória seria o “Gol Linco de Ouro”. De pronto concordamos, isto trazia um novo significado, valia a homenagem de nosso esforço. Abraçados em campo, reafirmamos a senha da vitória que o próprio ausente nos ensinara. Em seu nome, nos renovávamos com a vontade de vencer.

A partida reiniciou-se com outro espírito. O Malhado mostrava-se bem melhor, correto e persistente, em busca do gol. Para nós, restava resistir e lutar por honra, pois agora sentíamos Linco entre nós, suas palavras de incentivo e ensino nos alcançavam, minando de nossa memória.

Mas o empate persistia em zero a zero, quase à hora de Linco partir. Eu me senti tocado pelo desejo de oferecer aquela taça ao amigo, antes que a luz do mundo lhe fosse apagada para sempre. Então, deixei minha posição de defesa, me postei no lugar em que ele ficava, no todo que arisco, ao largo dos lances do jogo. A bola haveria de me procurar ali, com saudades do seu preferido. E enquanto aguardava o momento, eu imaginava um lance, um jeito dos que Linco sabia.

Os companheiros pareciam entender a tática, pois embarcaram num modo manhoso de chutar a bola, sempre que conseguiam, com muito esforço, tomá-la dos craques do Malhado. Do meio de campo, eu via o terreiro da casa, o povo já ia se aglomerando para o enterro. Os outros meninos, tão entretidos, não perceberam logo. Eu, sim, pois alheava-me da disputa e fiscalizava o movimento das pessoas minuto a minuto. Era urgente encerrar o jogo, que Linco estava de partida. Baixou em mim uma agonia, era uma tristeza, deu-me um aperto no peito, as lágrimas suadas me queimavam os olhos. Gritei, dentro de mim mesmo:

– Linco, não pode ser! Levante daí, venha jogar com a gente!

Corri até a defesa, pedi a bola ao nosso goleiro. Levantei a cabeça com ímpeto e irrompi contra o time do Malhado. Eu sorria e chorava. Na minha mente desenhava-se um ziquezague: driblei um adversário, dois, três quatro... Arremeti contra o goleiro deles, que saía do gol fechando o ângulo. Parei, como só Linco parava, dei um toque sutil e saí de lado. O gol estava diante de mim, solidário e desamparado. Houve ali uma expectativa, o jogo já terminava. E eu lhe ofertei a bola: “Linco, faça o seu gol!” Então eu mesmo rolei, bem de levinho: e a bola foi chorar no fundo da rede.

Disponivel em: http://www.panoramadapalavra.com.br/conto49.html acessado em: 10/11/09

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O sabor das nuvens - Aleilton Fonseca


Era aquele cheiro cálido de biscoitos no formo. Invadir o portão era sempre o sonho, a vontade de ver como se faziam biscoitos, quantas mãos os amassavam, enfornavam, acomodavam nas embalagens coloridas. Mas não podia, que lá sempre havia o homem a vigiar, sozinho, quieto na guarita. Ele se ocupava em ouvir um rádio de pilha, enquanto os nossos olhos escalavam o ar para colher a fumacinha, um sorriso sorrateiro da chaminé multiplicando-se em nuvens baixas. Elas levavam aos arredores de nossas casas as cores silenciosas daquele gosto morninho. Dava-nos vontade de saborear a fábrica inteira.

Era uma enorme casa. O ruído dos geradores era o aviso, o coração da fábrica pulsava: distraía-nos como um motor de nave em vôo, zumbindo nos ouvidos curiosos. Mas, o portão! Sempre fechado aos estranhos – estranho, eu?! –, a guarita e seu morador solitário, escutando aquelas notícias. Seu mundo saía do rádio e ali mesmo se esvaía. E as letras vermelhas, iradas, gritavam: ENTRADA PROIBIDA
Agora, não: eu ia vencendo portão adentro, de repente escancarado; nem portão que era, mas a entrada que me chamava sem impor condições:
– Ei, o senhor está procurando alguma coisa? - um menino me atalhou.
– Biscoitos! – respondi, sem deixar escapar-me o fio de meu próprio tempo.
– No meio do mato? - ele insistiu.
– Não, no meio da fábrica.
– ?!
– Huummm. Esse cheiro! - murmurei, sentindo-me orvalhar nos lábios.
– Cheiro de mato e insetos - ele pontuou-se no real.
– Não, biscoitos quentinhos.
– ?!
– Veja a fumaça da chaminé.
O menino olhou para as nuvens, que se iam altas e ensolaradas, me encarou e, distanciando-se um pouco, me observava de um certo soslaio, bem que desconfiava de mim. Eu estava um doido? Ambos fizemos pausas, entrecortadas de olhares esconsos. E, nesse diálogo, já de somente olhar, nos tangenciávamos, nos recortes do tempo. Cada qual seus quais, com suas estampas, em que a vida pode ser revisitada.
Era um menino e sua bicicleta, nas rodas de seu presente. Eu, então... Ele encostou o brinquedo numa estaca sobrevivente, entrou na fábrica saltando por sobre um resto de parede. E me disse que seu avô trabalhara ali antigamente. Ao se aproximar, ele afastou as ramagens tenras, por entre as touceiras de mato. Colheu um melão-de-são-caetano e o apertou entre os dedos, as partes se abrindo em estrela, expondo as carnes vivas e sementes do fruto silvestre. Era bonito, desde menino eu achava: pena que não se prestava a melhor degustação, só servia para alimentar o sonho. Aquele fruto viera do passado, entrando portão adentro para tomar conta de tudo. Eram as ramagens da mão do tempo.
– Olhe isso!
O menino tocou o pé na parede e me disse que estava tudo podre. O telhado viera abaixo, os cupins devoraram as madeiras. Eu ouvia o relato, mas não acompanhava seus olhos. Ouvia mesmo era a engrenagem trabalhando. As máquinas que nunca vi, apenas as imaginara, pelo som do trabalho que os cobogós me avisavam. Dois tijolos saltaram, quebrando-se sobre o capim rasteiro que assoalhava o lugar. Eram dois tijolos que se esmigalhavam, mas eu os revia intactos, na parede firme, na cor do óxido de terra, sempre novos.
O menino montou de um salto, saiu cavalgando a bicicleta, ia-se equilibrado. Segui atrás, sem saber ao certo por que o acompanhava. Lá adiante, vi quando ele entrou num terreiro, a casa simples mais ao fundo. Continuei caminhando, até me acercar da grade baixa do portão. Na frente da casa compunham-se pequenos canteiros de flores, acenavam-me ali nessa busca as rosas e seus espinhos. Havia uma aroeira jovem, sob a qual um banco de madeira convidava à sombra:
– Ô de casa! – me arrisquei a novo rumo.
Um homem de boa idade assomou à porta, logo me averiguava as feições, certamente para ver se me conhecia de outro tempo ou lugar. Ele veio ao meu encontro. Senti o seu esforço a esmo: não, ele não me conhecia. Eu desatei a cena:
– Boa-tarde. O senhor é seu...?
– Ivo, eu mesmo. Boa tarde. É alguma coisa? – ele respondeu e perguntou, reticente.
– Nada. Ia passando, seu neto me disse que o senhor trabalhou na antiga fábrica, então...
– Ah, sim, trabalhei, né? Mas isso faz muitos anos, pra lá de uns trinta! – ele informou, enquanto apontava o banco de madeira, num convite.
– É, faz tempo! - comentei, enquanto nos sentávamos à sombra.
– O senhor veja: o tempo passa, leva tudo. Leva a gente também - ele filosofou, buscando apoio nas nuvens.
– O senhor se importaria de me falar um pouco daquele tempo, da fábrica, como era antigamente?
A primeira frase de sua resposta foi um gesto silencioso, de quase em quase, desde seus olhos para os meus. Depois seu olhar fugiu para os galhos da aroeira que nos assistia. Esse seu Ivo, avô do menino, estava já encabulado. Eu lhe trazia aquele assunto morto, num repente voltando à luz da tarde. Ele estava surpreso. Depois de se cultivar absorto, num quase sorriso, ele murmurou, com jeito de certa tristeza:
– Ah, não sei lhe contar, não. Não sei de lá, nada.
– Mas, e o serviço, lá dentro? – eu quis insistir.
– Lá dentro, não lembro.
– Mas se o senhor trabalhou lá?!
– Mas eu só trabalhava fora.
– Ah – murmurei, desapontado.
– Quem é o senhor? – ele reverteu a entrevista, mas já eu desanimara.
Fiquei de pé, olhei a aroeira tranqüila, ele também se levantou. O menino vinha de volta, os olhos acesos em nossa direção.
– Contou a ele, vô? – disse, com o ar orgulhoso.
– O quê?
– Que o senhor era vigia da fábrica?
Para mim, esta revelação do menino, diante da fala vazia do seu avô. Meio a contragosto, o velho esfregou as mãos, com os dedos entrelaçados, e confirmou:
– Eu era só mesmo vigia.
Os três ficamos calados. Eu reconhecia naquele homem a função que nos impedia de alimentar a curiosidade, de nos arriscar à prova de alguns biscoitos. Ele ficava de guarda na guarita para que os meninos vadios não entrassem. No seu sem jeito, ele confessava isso, meio que pesaroso, até mesmo descontente. Restava-nos aquele silêncio em branco.
Então eu cumprimentei o velho com um gesto e disse “até logo”. Aquilo era mesmo um adeus. Ele, cabisbaixo, nem respondeu. Segui pelo caminho de barro, sem ânimo sequer de olhar para trás. De repente, ouvi que o menino me seguia, em meu rumo direto de volta à fábrica. Meus olhos ainda iam cheios das imagens que aquele avô não pudera me contar. Toda a fábrica para ele resumia-se à mínima guarita, o tamanho exato de sua história. Eu me senti pleno, tinha a fábrica inteira dentro de meus olhos. E agora ia seguindo, o menino guiando, sem palavras quais que fossem.
– Essa fábrica foi importante aqui, o senhor sabe? – ele se esforçava para preencher a página que o seu avô rasgara sem querer.
Eu fui seguindo pelo acostamento da pista recém-asfaltada, enquanto o menino me acompanhava, pedalando devagar. Aproximei-me do velho prédio e agora eu via de fato as ramagens que invadiam os restos das paredes, entrando e saindo pelos cobogós sobreviventes.
De novo, entrei pelo vão aberto das ruínas da guarita onde ficava o vigia: era a boca do tempo que tudo engolira. E percorri aquele mapa da fábrica, um debucho antigo perdido nas memórias envelhecidas de uns e sepultadas de outros. Eu rabiscava as imagens, preenchendo-me de todos os talvezes. Riscava por onde fosse que ficava cada máquina, onde era o forno, onde se empacotava, tudo agora um ex-existir das coisas e dos gestos. Os operários de novo a postos, suas vozes e passos abafados pela vibração das máquinas. Quantas vezes eu sonhara ser um deles! Dentro de mim a massa ia engrossando, os biscoitos tomando forma e daí ao forno, saindo de lá quentinhos para os pacotes e para as latas.
Eu não podia me perder daquele cheiro. Eu precisava me repor no saber experiente que a vida desbota e destrata, nas rimas certas do texto, a súmula do sim e do nada, as respostas que a gente colhe como frutos de safra no pomar. Estou aqui, mas cheguei tarde, contudo em data aprazada: em vez de massa, preparo um outro tipo de fermento.
O relógio sumiu de minha rota, eu me vi num ponto suspenso, as reticências entre duas vírgulas absortas, antes de assinar aquela sentença. Eu tinha de reconhecer: três gerações, o avô, eu e o menino vivíamos cada um sua própria alegoria, cada qual a mais plausível e incerta. Em cada um de nós havia uma fábrica diferente brotando de dentro do mato, que invadia os nossos olhos e os nossos dias. Dos três sobreviventes do sonho, apenas eu tinha pena e papel; e sabia sentir as cores, o gosto e o sabor das nuvens.
Tudo sobrevive nos sulcos que as letras escavam sobre o mudo pergaminho. Debaixo dos riscos, sobrevivem as demais escritas.
Eis a fábrica. Entrei de novo, sem licença. Eu andava a esmo, pelo meio do salão de trabalho, tropeçando nos matos rasteiros. Eu só queria repor as peças em seus lugares, ligar as máquinas, aquecer o forno e despertar a chaminé. O menino de novo me observava, talvez curioso ante minha empreitada. Eu perscrutava-lhe uma pergunta que ele não alcançou formular. Eu, também funcionário, em certo depois, minha função era a última de todas. Enfim, eu agora a exercia. Ouvi que a fábrica apitava e me senti arrepiar inteiro. Estava findo esse turno de trabalho. Então eu fui saindo.
– Esta fábrica está morta.
O menino disse isto e retomou sua bicicleta. Deu uma última olhada, foi-se a guiar para longe, fazendo girar o tempo presente. Era já o cair da tarde; e dentro de mim o apito da fábrica chorava. Eu via de novo a fumaça formando nuvens e provava o cheiro morno dos biscoitos. Continuei caminhando, sem olhar para trás, os matos já não me incomodavam. Era hora, e eu ia saindo pelo mesmo portão aberto, por onde as minhas lágrimas passavam.

(Do livro O Desterro dos Mortos (Relume Dumará), 2001)


Disponivel em: http://contosbrasileiros.blogspot.com/ acessado em 06/10/09