sábado, 23 de julho de 2011

III Semana de Letras e o I Encontro de Literatura Baiana.


O Colegiado de Letras do DCH – Campus VI da UNEB e o projeto A Quinta da Arte promovem nos dias 27, 28 e 29 de julho de 2011 a III Semana de Letras e o I Encontro de Literatura Baiana.

  O evento contará com a participação de escritores baianos, de editores e de pesquisadores que debaterão sobre leitura, literatura e linguagens, temáticas que perpassam as conferências, mesas redondas, mesas temáticas e momentos culturais.

  O objetivo do encontro é promover o diálogo entre as produções artísticas e as produções científicas que circulam nos meios acadêmicos e nos espaços alternativos de construção do conhecimento para preservação da memória cultural, em especial da Bahia. Tem como público alvo: pesquisadores e profissionais das diversas áreas do conhecimento, pesquisadores de iniciação científica, de pós-graduação, alunos de diversas graduações e demais interessados. Veja mais informações e a programação completa AQUI

 Programação para 3º DIA (29/07/2011) SEXTA-FEIRA

NOITE
19h – Mesa Redonda VI– A produção Literária Contemporânea na Bahia – Poesia e Ficção sob o olhar da crítica.
Prof. Dr. Aleilton Fonseca (UEFS);
Prof. Dr. Adeítalo Pinho (UEFS);
Profª Drª. Rosa Borges (UFBA)
Coordenador da Mesa:  Profa. Ma. Rita Aparecida

 20h  e 30 min – Um dedo de Poesia e Prosa – lançamento de livros
Autor: Adeítalo Pinho "Perfeitas memórias: literatura, experiência e invenção"
Apresentadora: Rosana Ribeiro Patricio(UEFS)
Autores: Aleilton Fonseca "A mulher dos sonhos e outras histórias de humor"
Apresentadora: Paula Laranjeira (UNEB)
21h  Encerramento : Peça Nhô Guimarães 






O universo do homem sertanejo é o tema de Nhô Guimarães





Em 2008, ano em que se comemorou o centenário do escritor mineiro, João Guimarães Rosa, o Núcleo Criaturas Cênicas de Salvador/BA, realizou a adaptação do romance Nhô Guimarães (2006) para a linguagem teatral, do escritor baiano Aleilton Fonseca, escrito para homenagear os 50 anos do livro Grande Sertão: Veredas (1956) de João Guimarães Rosa. A adaptação para o teatro foi realizada por Deusi Magalhães e Edinilson Motta Pará, atriz e diretor desta montagem que teve sua pré-estréia no teatro do IRDEB em 27 de novembro de 2008. O projeto Nhô Guimarães Pelo Sertão do Núcleo Criaturas Cênicas foi um dos vencedores do Programa BNB de Cultura/2009.
O espetáculo, em forma de monólogo, transpõe para o palco a vida, as idéias e a mítica do nosso sertão, privilegiando a linguagem falada rica em neologismos, recheadas de palavras incomuns próprias dessas regiões e tão presente nas obras do autor mineiro. Esse tratamento é mantido na encenação como forma de valorização da diversidade lingüística, existente na língua portuguesa, especialmente a encontrada no sertão brasileiro.
Essa visão é apresentada através dos causos contados por uma senhora octogenária a um visitante. Entre uma estória e outra, a velha cita a presença de um amigo do falecido marido, Nhô Guimarães, senhor de jeitos elegantes, que sempre os visitava, com "seu ouvido bom de ouvir causos e seus óculos pretos de aros redondos". Uma referência direta ao escritor mineiro João Guimarães Rosa. Enquanto relata suas lembranças, a velha desenvolve ações cotidianas, como coar um café, apertar um fumo de rolo, fazer um pirão, dar comida às galinhas etc., busca-se criar uma transposição de quem assiste para o ambiente do cotidiano interiorano.

VENHAM CONFERIR...

terça-feira, 28 de junho de 2011

CULTURA E ORALIDADE NO NORDESTE


Por: Aleilton Fonseca

As manifestações culturais nordestinas constituem um conjunto de práticas que valoriza fortemente as contribuições da oralidade. Na tradição escrita, sobretudo, o conto e o romance, a cultura da oralidade é um elemento intrínseco e visceral.  A oralidade é tão marcante que ultrapassa os limites dos registros escritos. Como arquivo memorial de caráter multidisciplinar, reúne e dá forma aos diversos saberes, fatos e situações das diversas culturas. Essa concepção aproxima-a de algumas estratégias da narrativa de ficção, sobretudo aquela de cunho realista e da história oral.  Elas utilizam métodos semelhantes para apreender os fatos e as situações que compõem a história de indivíduos (personagens na ficção e pessoas reais), e concorrem para o estabelecimento do perfil do grupo, ou seja, sua cultura, seus traços psicológicos e sociais.
A partir do século XVIII, em contato crescente com a modernidade, a cultura nordestina vem misturando as formas da tradição escrita com os acervos da oralidade. Por este ângulo, a cultura do nordeste é um conjunto de práticas e criações provenientes, sobretudo, daquilo que está “na boca do povo”.
A oralidade é uma forma de conhecimento que ultrapassa os limites dos registros da escrita. Essa cultura se afirma em diversas manifestações, entre as quais o cordel (registro escrito da experiência da oralidade) e a literatura de ficção, que mantêm um diálogo fértil com as fontes populares. A literatura nordestina incorpora as fontes da oralidade, assumindo-a como forma de seu discurso. Portanto, encontramos nos livros diversas passagens e situações que incorporam os traços marcantes da cultura oral, com forte presença do vocabulário, do imaginário e dos saberes e experiências populares. A literatura incorpora as fontes das tradições populares, as narrativas orais, os costumes, as crenças, os folguedos, as superstições, as narrativas de heróis e seus grandes feitos.
Todo escritor é também um pesquisador da cultura. Muitas vezes, com o caderno de anotações em punho que ele sai a campo, para colher depoimentos, entrevistar pessoas, fazer registros, assimilar situações, conhecer in loco os ensinamentos que as fontes orais lhe proporcionam.  De volta à mesa de trabalho, ele se assemelha ao pesquisador da oralidade pelo uso do método de recolha de dados e pelo objetivo de sistematizar os sentidos apreendidos nos depoimentos e registros. Nesse caso, o escritor age como pesquisador. A diferença diz respeito aos procedimentos e à adequação aos objetivos do trabalho que se pretende realizar. O escritor difere do pesquisador pela forma de tratamento dos dados, uma vez que o utiliza como matéria-prima de sua escrita. Ele a expande através da recriação e da imaginação, valendo-se dos processos da verossimilhança para dar uma feição particular aos seus conhecimentos. Dessa forma, suas experiências e saberes pessoais tornam-se uma narrativa ficcional. Assim, a ficção nos remete às realidades existentes e observadas e ilumina nossa compreensão crítica dos processos humanos e sociais abordados.
Na criação literária esse método também promove a inserção de sujeitos sociais excluídos que, transmutados em personagens de ficção, transitam para os registros da escrita, passando a ter existência efetiva na cultura, pela via do relato e da representação ficcional, sem perder seu lastro de fontes da oralidade.
Os escritores nordestinos criam uma voz narrativa privilegiada entre duas culturas, a escrita e a oral, que são, enfim, suas culturais de formação. Ele assume a sua condição de sujeito híbrido que se movimenta no cruzamento da oralidade e da escrita. Assim, criam uma voz narrativa própria, uma voz particular que amalgama a oralidade e a escrita, criando na tradição escrita um narrador oral e popular, como um verdadeiro elo de transição cultural.
Eis um exemplo. O escritor Graciliano Ramos (1892-1953), na obra Vidas Secas (1938) mostra as personagens Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória, o Menino mais novo e o Menino mais velho como sertanejos retirantes que protagonizam o romance, publicado em 1938.  Narrado em 3ª pessoa, o romance é uma travessia através do sertão, mostrando a penúria, a fome, a miséria e o abandono de uma família que vive fugindo da seca. Como se sabe, a atmosfera do romance é popular nordestino, girando em torno da condição social e das marcas culturais das personagens. O tom de oralidade é marcante, mostrando indiretamente a matéria pesquisada pelo autor através da observação, do saber da própria experiência local e dos relatos orais. Há uma passagem que ressalta a construção e transmissão do saber pela oralidade. O Menino mais velho era curioso. Ao ouvir Sinha Terta falar em “inferno”, quis mais informação. “Sinha Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma explicação, encolheu de ombros”. O menino não se convence, pois achava a palavra bonita e não podia aceitar que se tratasse de coisa ruim. Vai perguntar ao pai e é repelido. Volta a indagar à mãe que, zangada, “aplicou-lhe um cocorote”. Indignado com a injustiça, o menino vai se consolar com a fiel amiga Baleia, que lhe é solidária. “O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. A cena é um registro da cultura oral nordestina.
Os escritores criam as narrativas a partir de sua experiência e suas vivências como sujeito participante da cultura. E a realidade nordestina é muito forte no imaginário e no processo de criação dos autores. Eles participam dos textos que representam a vida, as memórias e a cultura popular. A narrativa nordestina apresenta as marcas dessa cultura nos discursos e atitudes das personagens, nos enredos, na linguagem e no vocabulário. Desse modo, os saberes da oralidade permanecem vivos nos homens e mulheres que, sujeitos de seus processos de existir e de viver, emprestam suas vozes e testemunhos tanto à história como à literatura.

Disponível também em: caramure 

terça-feira, 14 de junho de 2011

Minutos de poesia na Educadora FM

A rádio Educadora FM apresenta em seu portal multimídia, no programa Minutos de poesia um relato sobre a bio-bibliografia poética e um pouco da poesia de Aleilton Fonseca.  Convido os amigos e leitores para ouvir o programa.


Clique aqui...Minutos de Poesia 

Continuação 2

Continuação 3

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A NECESSIDADE DA LEITURA

 Por: Aleilton Fonseca

A engrenagem do mundo atual absorve as pessoas de forma tão avassaladora, que mal se tem tempo para abrir um livro. De fato, cada vez mais é frequente a frase: “Não tenho tempo de ler”.  Nada mais grave, porque uma pessoa que não lê passa a ver e interpretar o mundo através dos olhos alheios. Sem hábito de leitura, perde-se o contato com um imenso arquivo de saberes acumulados nas grandes obras da literatura universal.
A literatura nos revela as faces visíveis e ocultas da nossa condição, apresenta as misérias e as grandezas humanas, denuncia as mazelas e as injustiças. Assim ela se reveste de uma energia criativa e renovadora que pode acrescentar experiências e saberes como projeção de realidades imaginadas, auxiliando a formação da consciência crítica e da personalidade, antecipando e prevenindo as contingências da vida cotidiana. Através da literatura apreendemos e vivenciamos a gravidade de atos e fatos, antes mesmo de vivenciá-los na dura realidade. Na leitura, convivemos virtualmente com a maledicência, a traição e a impostura através das projeções dos textos ficcionais. Através da poesia aprendemos a perceber a beleza das formas, as imagens e os sentidos das coisas, para além de sua aparência real e objetiva.
Lendo ficção e vivenciando os seus enredos, aprendemos o valor da crítica, da ponderação e do arbítrio, antes de sentirmos na carne os embates da vida que nos ensina a ferro e fogo. A literatura, nas suas virtualidades, dá o exemplo e o espelho em que nos mirarmos e apreendermos o mundo das possibilidades. Ensina-nos a refletir sobre as tragédias e as injustiças, antes mesmo que elas venham a acontecer, para que as vivenciemos e as combatamos no mundo real. A literatura nos conduz a exercitar os sentimentos e as percepções, elevando a nossa mente para uma relação mais significativa com a vida cotidiana. Assim, a leitura adquire grande importância ao promover e estimular o equilíbrio emocional e a reação ponderada e produtiva diante de situações críticas.
A literatura tem um caráter formativo, educativo e civilizador. Sem a vivência da narrativa e da poesia, as potencialidades afetivas podem declinar e o ser humano pode ter diminuído seu grau de civilização, retornando relativamente ao estado de natureza, em que o instinto de conservação repõe a agressividade e a autopreservação como vetores da violência, do egoísmo e do etnocentrismo que passam a presidir as relações entre indivíduos, grupos sociais e nações.
Uma sociedade, por mais rica material e tecnologicamente que seja, estará em decadência e em dissolução se não cultiva as suas potencialidades expressivas, sobretudo através do pensamento, das artes e da literatura — não como simples espetáculo, mas como vivências formativas da personalidade diante da vida pessoal e coletiva.
No entanto, cada vez mais a literatura perde espaço, atenção e importância nos dias atuais. Mas, com isso, o mundo não se torna melhor. Ele nos parece caótico, consumista, violento, egoísta – uma sociedade absorta nas roletas da produtividade tecnológica, nos slogans do mercado, nos interesses de grandes corporações econômicas. Trata-se de uma sociedade que abdica de valores e práticas humanistas para cultuar, sobretudo, as voláteis cifras das bolsas e os dividendos da exploração pecuniária, promovendo a devastação da natureza e a exploração do trabalho e da inteligência. E, apesar de tanto produzir, encontra-se em franca crise material, em que a fome e a indigência se multiplicam pelo planeta. Trata-se de mundo desigual onde os povos abastados naufragam em crises e enfermidades físicas e psíquicas, tão ou mais infelizes quanto os famintos e deserdados dos países pobres e desamparados. Este é um mundo que negligencia os valores do cultivo da arte e da literatura como alimento diário de sua condição de humanidade.
A grande maioria de homens e mulheres não tem condições, não tem tempo, não tem motivação para se alimentar com o pão secular da arte e da literatura. As pessoas correm o risco de se tornarem seres maquinizados na estrutura produtiva, movendo-se de um canto para outro, sem outra aspiração senão angariar recursos para pagar suas eternas dívidas de consumo e de manutenção, para satisfazer necessidades inventadas pelo consumismo de objetos e serviços não essenciais à saúde do corpo e da mente. Para enfrentar esse culto à dissolução, precisamos recuperar o tempo de leitura, o convívio saudável com a poesia, a narrativa, as artes, reativando o exercício proveitoso da imaginação.
A literatura representa os sopros, os avisos, os planos, as intuições, os ensinos do nosso inconsciente coletivo, em busca desse horizonte utópico. É a humanidade que fala e dialoga em cada ritual de escrita e leitura que se instala no ciclo literário, envolvendo o autor, a língua viva e o leitor. Sempre que um texto flui de seu autor e atinge o leitor, estabelece-se a comunicação primordial entre os seres e o universo. O escritor é, antes de mais nada, um mensageiro. Ele empresta sua imaginação e sua voz à fala do gênero humano, cuja voz permanece na memória e na vida de cada leitor que o lê e o revive a cada leitura, dias, meses, anos, séculos, milênios mais tarde.
Atualmente, grandes massas humanas encontram-se marginalizadas e afastadas dos bens artísticos.  Muitas pessoas são cada vez mais faltas da experiência e da formação que as lições da arte e da literatura lhes dariam, integralizando na sua ação e reação diante da vida e dos semelhantes o respeito, a justiça, a honestidade, a tolerância, a fraternidade como bens superiores da vida. Quem não lê, não exerce plenamente sua condição humana. E a leitura faz muita falta. 

Também disponível aqui

Imagem: O pensador, de Rodin 

terça-feira, 10 de maio de 2011

A poesia e a cidade, Aleilton Fonseca


O surgimento da literatura moderna é intrínseco às movimentações das grandes cidades que cresciam vertiginosamente, em meio ao caos e à crise de valores, entre o final do século XIX e o início do século XX. O processo acelerado de urbanização, a adequação do espaço público ao ritmo da vida cotidiana e o intenso fluxo de pessoas constam de seu contínuo vir a ser. A busca de uma nova linguagem literária para expressar essas transformações se constitui num objetivo fundamental dos poetas e ficcionistas para garantir a sobrevivência e a inserção da literatura na nova realidade das metrópoles.

Para o poeta moderno, os diversos matizes das cidades trazem consequências em relação à forma de observar e exprimir a realidade de sua experiência cotidiana. A cidade passa a ser vista como um lugar sempre estranho, em ininterrupta mutação. E na multidão de homens desconhecidos e apressados que se acotovelam na engrenagem, o poeta é também um rosto estranho. O seu canto não encontra eco imediato. Imerso na teia urbana, concretização física da consciência moderna, ele reage como artista e como ser humano através do discurso de sua poesia. Da observação das ruas e avenidas extensas e perigosas, das torres de pedra, cimento e ferro é preciso extrair um sentido poético novo e expressá-lo em linguagem moderna, positiva ou negativamente. Sobre as formas da cidade tentacular, o poeta projeta o seu ideal e vislumbra a silhueta da futura urbe, em que a vida e a poesia possam se reconciliar, em nome da humanidade. Enquanto isso não é possível, a cidade se agita diante de seus olhos e do seu canto, levanta-se como esfinge e repõe o expressivo desafio mítico: decifra-me ou te devoro.

A poesia da modernidade, na abertura de suas trilhas iniciais, evolui em duas direções principais, muitas vezes de maneira ambígua, contraditória, dialética. Geralmente, os poemas traduzem as imagens do desencanto ou do encanto em relação ao progresso, com a recusa ou a incorporação das massas que constituíam a cidade em constante movimentação. Na base desse ponto de vista, está uma atitude de estranhamento, seja de forma encantada, seja de forma desencantada. O desafio que se apresenta é que o mundo mudara e a poesia precisava mudar para torná-lo linguagem, daí a necessidade de se estabelecerem novas formas de correspondências entre os objetos do mundo e sua tradução em imagens poéticas.

Assim, o discurso poético flui diante do estranho mundo que se apresenta ao olhar sensível e que é preciso incorporar a um discurso de aceitação e/ou de recusa. O encanto e o desencanto em relação ao progresso material da sociedade humana atualizam-se na técnica, na linguagem e na focalização, como formas de recusa e/ou incorporação seletiva dos seus temas e valores. O grande ator desse espaço são as massas, no seio da qual o poeta circula como simples mortal, observador e participante atento. Diante da massa fourmillante (formigante) que avança em todas as direções, demolindo ruas e edificações antigas que lhe impeçam o caminho e, em seu lugar, abrindo avenidas e construindo edifícios, submetendo os trajetos dos passantes à lógica dos veículos a motor, o poeta precisa tomar posição, diante de um mundo que é preciso incorporar ou recusar como objeto válido para a consideração da poesia.

O angloamericano T. S. Eliot é o poeta que assume uma atitude de distanciamento, abandona o presente e volta-se para as fontes das tradições do passado, recusando as massas que ele considera multidões urbanas irredimidas, como exemplo de degenerescência e esterilidade. O pessimismo de T.S. Eliot está presente de forma enfática nos poemas “The waste land” (1922) e “The hollow men” (1925), em que o mundo na era da modernidade é visto como uma espécie de “terra arrasada”, habitada por “homens ocos.” O poeta brasileiro Augusto dos Anjos já havia plasmado, a seu modo, a imagem da decadência humana na metrópole, no longo poema “Os doentes” (1912). Já Fernando Pessoa mantém com a cidade moderna uma relação de amor e ódio, traduzindo as múltiplas possibilidades de vivenciá-la através de um coro de vozes líricas que constituem os seus diferentes heterônimos. O russo Vladímir Maiakovski entrega-se a ação revolucionária e compõe a nova poesia inserida no processo de construção da sociedade socialista. De outro modo, o norte-americano Hart Crane também mergulha no presente da cidade com entusiasmo, em seu livro White Buildings, de 1926. Paradoxalmente, ambos os poetas cometem suicídio, renegando as possibilidades de uma existência satisfatória no mundo moderno, tanto nos termos do socialismo russo, no caso de Maiakovski, como no cenário do capitalismo norte-americano, no caso de Hart Crane.

Evidentemente, as duas posições fundamentais assumidas pelos poetas, de aceitação e de recusa, não são estanques no discurso poético moderno. Na verdade as perspectivas de abordagem são dinâmicas, pois a poesia move-se dialeticamente em situações nas quais freqüentemente se contrapõem visões positivas de determinados aspectos e negativas de outros. O poeta estende sobre a vida da cidade moderna um olhar dialético capaz de transubstanciar em seu texto os feixes de contradições que regem sua lógica cotidiana e as relações entre os indivíduos. Dessa maneira, a poesia da cidade muitas vezes exibe um estado de permanente tensão ao tematizar os valores urbanos e seus diferentes aspectos. Os discursos poéticos geralmente transitam entre os dois extremos, de forma dinâmica, pendendo dialeticamente entre a aceitação e a recusa dos valores modernos. Portanto, momentos de crença e de descrença nesses valores se alternam, pessimismo, ironia e entusiasmo dividem espaços ou se chocam nos diversos textos que exprimem a cidade em processo. Diante desses procedimentos, observa-se que o poeta moderno aproxima-se e distancia-se metaforicamente da cidade, num movimento de constante recusa e retorno, em tom irônico e afetivo. O poeta está consciente de seu irrecusável estatuto de artista da vida urbana, embora sentindo um mal-estar sem cura. Angústia e esperança, utopia e realidade, constituem forças motivadoras que ele maneja nesse espaço possível da sua experiência de vida e de sua sobrevivência como indivíduo e como artista.

Desse modo, o discurso da poesia incorpora as relações contraditórias e problemáticas do poeta no mundo, fixando imagens que traduzem a negação/ afirmação dos valores e das circunstâncias de vida que a cidade oferece, ao lado das indagações acerca do próprio fazer poético diante dos desafios da estética da modernidade. Estes elementos consubstanciam o ponto de vista do poeta, a partir do qual se desenvolvem as posições de aceitação, recusa, questionamento, problematização, análise e reflexão, em discursos marcados pelo jogo de tensões e contradições inerentes ao universo poético da cidade moderna. O poeta não integra o epicentro da transformação material do mundo, uma engrenagem que o dispensa. Sua posição é de deslocamento, a partir da qual constrói um discurso crítico de recusa e resistência, como observador e experienciador da vida que a modernidade lhe impõe.

Estas questões também se relacionam com a poesia moderna brasileira. A vida literária brasileira não ficou infensa à grande movimentação das vanguardas europeias, no momento em que se plasmava a nova poética das metrópoles. Ao lado disso, também as principais cidades passavam por um acelerado processo de urbanização, na esteira das transformações urbanas experimentadas pelas metrópoles europeias. Com o atraso de algumas décadas, mas igualmente vivenciando experiências semelhantes no urbanismo, cidades como São Paulo e Rio de Janeiro se constituíam também como palco de observação e de vivências para os artistas. A renovação literária se dá no mesmo contexto das reformas urbanas, ao lado da expansão da indústria, do comércio e dos transportes, no bojo do processo geral de modernização do país.

O primeiro poeta brasileiro a mergulhar na experiência poética de cantar a cidade moderna de maneira sistemática foi Mário de Andrade. Atento às experimentações das vanguardas e impressionado com as cidades tentaculares do poeta belga Émile Verhaeren, o poeta paulista concebe um projeto de traduzir São Paulo em imagens de uma escrita poética, o que faz no seu livro de estreia, Pauliceia desvairada (1922) e no seu último livro Lira Paulistana (1945). Em todos os seus livros encontram-se poemas que tematizam a cidade de São Paulo, que já assumia a posição de principal metrópole brasileira. Em vários poemas seus, preponderam observações líricas sobre a vida urbana, suas circunstâncias e vicissitudes cotidianas, transfiguradas pelo ponto de vista crítico do poeta atento às questões da modernidade. Observa-se a preocupação constante com temas da vida urbana, em seus aspectos intrínsecos à existência do homem no intrincado labirinto da cidade que se vai transformando e impondo rápidas mudanças na forma como os indivíduos participam do processo. Dessa forma, a poesia brasileira, através de um dos seus autores mais representativos, também produz a sua contribuição para a lírica da cidade moderna, inserindo-se de maneira expressiva na tradição da poesia urbana ocidental.


Disponível em:Caramure

HOMENAGEM ÀS MÃES


Fotografia: Cristiane Oliveira






A poesia e a maternidade são temas que se interagem completamente porque se harmonizam. Ambos estão ligados à necessidade intrínseca do ser humano de criar, gerar, transformar… A poesia cuida de nossa alma e a mãe de nossa vida. Ambos os valores são importantes para o desenvolvimento da humanidade. Por isso, no tempo do consumo, do descartável, do pragmatismo individualista, nos escondemos de nós mesmos, deformando o perfil do humano, negando qualquer ligação nossa com a possibilidade de mudanças. Assim estou me referindo a um otimismo transformador que foi e é o responsável pelas grandes realizações no mundo. Poesia e maternidade estão diretamente ligados a este conceito. Não existe mãe que não acredite no melhor para seu filho, nem poeta que não veja a sua poesia como agente transformador.



Diante desta realidade e confirmando a contradição do mundo atual é que reunimos uma fotógrafa e cinco poetas baianos em um shoping center de Salvador para uma exposição de poemas cartazes. Confesso hoje que em alguns momentos desta produção tivemos receio de não dar certo, afinal estava usando como espaço o grande símbolo do consumo moderno. Mas a surpresa foi maravilhosa, o que prova que, por mais contraditório que sejamos, apesar de consumistas não perdemos a essência da nossa humanidade.



Assim, em uma noite de abril de 2009 estavam reunidos: os poetas Aleilton Fonseca, Cleise Mendes, Damário Dacruz, Mabel Velloso, Washington Queiróz e a fotografa Cristiane Oliveira na praça central de um shoping. Todos prontos para aquela aventura Quixotesca de levar poesia para o “consumidor”. Para completar a situação, um grande temporal caiu em Salvador, o que poderia atrapalhar a festa. Mas não! A participação das pessoas que estavam no local junto com alguns convidados, que enfrentaram um verdadeiro “dilúvio” para prestigiar o evento, foi impressionante. Foram mais de duas horas de autógrafos e depoimentos emocionados dos presentes. Assim se fez o Palavra Mãe que agora o Caramurê reapresenta em uma versão digital.



Fernando Oberlaender

Disponível também em: Caramure

Este post foi pulicado com atraso por causa de problemas técnicos. peço desculpas aos leitores. (Paula Laranjeira)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Lima Trindade entrevista Aleilton Fonseca


ENTREVISTA COM ALEILTON FONSECA
POR LIMA TRINDADE

“A literatura é de grande utilidade pública”
Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves-BA em1959, e viveu a infância e adolescência em Ilhéus-BA. Residiu em João Pessoa (1988-1990) e em São Paulo (1994-1997), fixando-se em Salvador, em 1996. Cursou Letras na UFBA, mestrado na UFPB, e doutorado na USP (1997). É Professor Pleno (titular) de Literatura da Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia. Em 2003 lecionou na Université d’Artois (França). É coeditor das revistas Iararana (Literatura) e Légua e Meia (Artigos). Publicou vários livros. Poesia: Movimento de sondagem (1981), O espelho da consciência (1984), Teoria particular do poema (1994). As formas do barro (2006). Contos: Jaú dos Bois (1997), O desterro dos mortos (2001), O canto de Alvorada (2003) e Les marques du feu (2008, França). Ensaio: Enredo romântico, música ao fundo (1996) e Guimarães Rosa, écrivain brésilien centenaire (2008, Bélgica). Romances: Nhô Guimarães (2006) e O Pêndulo de Euclides (2009). Pertence à UBE-SP, ao PEN Clube do Brasil e à Academia de Letras da Bahia. Acaba de publicar A mulher dos sonhos & outras histórias de humor, uma coletânea de 25 histórias curtas, focalizando situações bizarras do cotidiano.

1- Você começou publicando poesia, mas parece ter se firmado mesmo na prosa. Houve uma razão especial para a mudança ou ainda cultua o gênero?
Aleilton - Na verdade, comecei publicando contos em jornais, em 1978, aos 19 anos.  Publiquei três contos no Caderno de Domingo, do Jornal da Bahia, então dirigido por Adinoel Motta Maia, e dois contos no suplemento dominical A Tarde/Novela, dirigido pelo saudoso Prof. Junot Silveira. Eu residia em Ilhéus e fazia o curso de Técnico em Agrimensura na EMARC, em Uruçuca. Também publicava a coluna “Entre aspas” no Jornal da Manhã, de Ilhéus, além de contos e poemas no mesmo jornal.  Em 1981, já em Salvador, cursando Letras na UFBA, soube do edital da Fundação Cultural do Estado da Bahia, convocando jovens autores para a Coleção dos Novos, selo criado e dirigido pela poeta Myriam Fraga. Inscrevi o livro de poemas Movimento de Sondagem, que havia recebido menção honrosa no Prêmio Literário UFBA de 1980.  O livro foi aprovado e saiu como volume 2 de poesia da Coleção dos Novos. Mais adiante, meu veio criativo se intensificou na prosa, possibilitando-me publicar livros e receber o um reconhecimento público crescente, através de edições, prêmios e leituras. De fato, sou conhecido e me reconheço como ficcionista, muito mais do que como poeta e ensaísta. Não houve uma razão especial para eu abraçar a ficção, mas sim a afirmação de uma tendência mais forte de contar histórias, aliás um hábito que aprendi com a minha avó D. Anália Souza, de 90 anos,  e de minha mãe D. Lourdes Santana, de 70 anos.  Até hoje, quando nos encontramos, em Ilhéus, é para contar histórias, umas dramáticas e outras divertidas. Creio que temos a imaginação e a narrativa à flor da pele e da voz.
2- Em Salvador, ainda no começo da sua vida literária, você integrou a Geração Oitenta. Fale um pouco sobre o grupo e como era o cenário cultural daquela época em relação ao restante do país.
Aleilton – No início dos anos 80 era muito caro e difícil publicar um livro na Bahia. Os autores jovens esforçavam-se para se afirmar, através das raras e efêmeras revistas, através de edições de mimeógrafo e pequenas brochuras produzidas em off-set. A chamada Geração Oitenta, na Bahia, composta por escritores iniciantes, era desde então dispersa. Tivemos, apesar de tudo, quatro vetores de divulgação e afirmação dos jovens escritores: o concurso Prêmios Literários UFBA de 1980, que revelou cinco poetas; o Movimento Hera, de Feira de Santana, que publicava novos autores em sua revista; o movimento Poetas na Praça, que reunia um grupo muito atuante nas ruas, e a Coleção dos Novos, que publicou quatorze autores de poesia e de prosa, criando um clima de incentivo e renovação muito importante. O movimento editorial na Bahia era muito local, muito isolado do restante do país. Jorge Amado representava sozinho a expressão literária do estado, nacional e internacionalmente. Parecia não existir mais nada além dele.
3- Depois de O espelho da consciência, 1984, houve um interregno de dez anos até Teoria particular (mas nem tanto) do poema. Qual a razão para tamanha ausência?
Aleilton – Em 1984 entrei na vida universitária, como professor da UESB, em Vitória da Conquista, Bahia. Então me dediquei à formação profissional. Cursei Especialização, fiz mestrado na Universidade Federal da Paraíba, residindo em João Pessoa, entre 1988 e 1990, com minha mulher, Rosana Ribeiro Patricio, e nossos filhos, Diogo e Raul. Aliás, Raul nasceu em João Pessoa, nessa época, em 1989. Com a família, retornei à Bahia, adiante segui para São Paulo, em 1994, para cursar doutorado na Universidade de São Paulo. Foram 10 anos de estudos e aprendizado teórico, crítico e didático. Em 1994, em plena USP, recuperei o ímpeto da criação. Escrevi e publiquei o poema Teoria particular (mas nem tanto) do poema. Comecei a escrever os contos do livro Jaú dos Bois, que recebeu menção honrosa no Prêmio Nascente 1994, da USP. Em 1996, esse livro, revisto e aumentado, foi premiado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, e editado pela Relume-Dumará, em 1997. Foi meu retorno à vida literária plena. Entre 1995 e 1997, enquanto escrevia a tese de doutorado, eu ia também escrevendo poemas e contos que logo saíram em livros e revistas, com muito êxito. Já a tese, sobre a poesia urbana de Mário de Andrade, deve sair em livro ainda este ano. A minha ausência de 10 anos, portanto, foi devida a um ciclo de formação de professor, pesquisador e ensaísta, voltado para a reflexão sobre questões teóricas e analíticas da literatura. Hoje, produzo poesia, ficção, crítica e ensaios. Eu era um professor que escrevia; agora sou um escritor que dá aulas.
4- Pensa que a poesia perdeu o status nos dias de hoje? Como percebe o fenômeno da internet na formação de novos escritores e leitores?
Aleilton – Vivemos a era da imagem e da comunicação de massas. A poesia e a ficção disputam espaço e tempo com várias outras ocupações oferecidas aos diversos segmentos do público. A literatura foi muito popular no século 19, como uma fonte de educação, ilustração e entretenimento. A ênfase agora é na formação técnica, profissional e científica das pessoas. Ainda que menos visível e dificilmente mensurável, o volume de leitura é muito maior hoje, considerando-se o crescimento da população e o ritmo e os apelos da vida contemporânea. A questão do status da poesia – e da ficção – é de escala. A literatura continua sendo muito importante na formação, na vivência e no enriquecimento intelectual dos indivíduos. Se uma sociedade não investe nisso, fica prejudicada nos índices de discernimento e participação criativa, produtiva e crítica de sua população. Há desníveis entre os países, e, dentro deles, entre os diversos segmentos sociais. É uma questão de educação e de investimento na formação intelectual das pessoas. Todos os países que investiram na educação e na leitura desenvolveram-se rapidamente. A internet é uma conquista fabulosa de nosso tempo. Ela multiplica as possibilidades de integração à comunidade de informações em tempo real. Isso mudou, de forma silenciosa e sub-reptícia, a face do mundo. A internet é uma ferramenta fundamental na formação dos novos escritores e leitores, pois os insere instantaneamente no processo universal de troca de informações, de conhecimentos e de bens culturais, através dos milhares de sites, blogs, orkuts, livros, revistas e boletins eletrônicos.
5- Tanto Nhô Guimarães quanto O Pêndulo de Euclides são romances concebidos a partir de contos. Como foi esse meio-de-campo? Houve uma transposição da idéia principal ou você partiu de inquietações não contempladas originalmente nas narrativas curtas?
Aleilton – A criação literária é um processo engenhoso de autoconhecimento. Cada obra é uma revelação do autor para si próprio e para o leitor. Ocorre uma ideia, dá-se a gestação de um texto, até um dia aflorarem o apelo e a necessidade da escrita. No caso desses dois romances, inicialmente tive ideias associadas às minhas leituras e às minhas vivências com os livros, os fatos e os autores. Escrevi o conto “Nhô Guimarães” em 2000 e o publiquei no livro O desterro dos mortos, em 2001. Mais adiante, a voz narrativa do conto manifestava-se na minha mente a fim de que eu continuasse o processo narrativo. Voltei ao conto, seccionei-o em várias partes e fui escrevendo novas histórias encaixadas, ao sabor do enredo principal. O conto tornou-se um romance. Na ampliação do texto, mantive a unidade difusa de uma história de fundo, entremeada por diversos causos vividos ou lembrados por uma senhora sertaneja, a narradora, que afirma ter sido amiga de Guimarães Rosa, a quem conhecera em suas viagens pelos sertões dos Gerais. Já O pêndulo de Euclides surgiu como sinopse para a escrita de um romance. A partir da sinopse de 30 laudas, escrevi o conto “Às margens do Belo Monte”, de 20 laudas. O conto foi publicado no livro Todas as guerras, coletânea organizada por Nelson de Oliveira, em 2009. Nesse processo, retomei e expandi a sinopse inicial até concluir o romance, que foi publicado em agosto de 2009, no centenário de morte de Euclides da Cunha. Nos dois casos, fiz uma transposição da ideia principal do conto e, ao mesmo tempo, desenvolvi várias situações que tinham origem em minhas inquietações não contempladas nas narrativas curtas. O conto impõe contensão de elementos, enquanto o romance comporta a expansão dos diversos aspectos do enredo. Tenho alguns contos que são verdadeiros convites à escrita de um romance, através da ampliação de tudo aquilo que se entremostra nas entrelinhas da narrativa curta e que pode ser retomado e estendido na forma romanesca. Sinto-me melhor no papel de romancista.
6- Considera que tem mais facilidade para um gênero específico?  Quais são os seus hábitos para escrever? Eles se modificam de um livro para outro, de um gênero para outro?
Aleilton – Na criação literária não existe facilidade nem para se colocar ou tirar uma vírgula. Escrever é um processo difícil, no qual ideias, palavras, textos, correções, cortes, tudo ocorre e convive simultaneamente, como um desafio à paciência e à capacidade do escritor. Eu vivo tendo ideias que vêm e vão, umas persistem e outras somem ou se adiam. Nem todas as ideias se concretizam em texto. Cada escritor tem seu método, mas cada livro também impõe sua regra e sua medida. Levei 5 anos para concluir a transformação do conto “Nhô Guimarães” em romance, após submetê-lo à leitura de cerca de 6 leitores críticos. Levei um mês para desenvolver o romance O pêndulo de Euclides, e mais quatro meses relendo e reescrevendo os originais, após conferir e compulsar as leituras, as críticas e as sugestões de quatro amigos escritores: Carlos Ribeiro, Gerana Damulakis, Gláucia Lemos e, principalmente, o poeta Luis Antonio Cajazeira Ramos, que leu em voz alta cada frase dos originais e me fez diversas sugestões. Leitores críticos ajudam muito, pois anteveem questões que o autor pode analisar e sobre as quais pode refletir, antes de dar a obra por concluída.
7- O seu novo livro, A mulher dos sonhos, é uma guinada para a literatura de humor?
Aleilton – Desde o início de minha carreira, também escrevo histórias de humor, até aqui só publicadas em jornais. Resolvi, então, juntar em livro uma seleção dessas narrativas, que captam momentos sui generis do cotidiano, situações que levam o leitor ao riso. Várias delas foram publicadas nos anos 90, no Caderno 2 do Jornal da Tarde de São Paulo, numa coluna então dirigida pelo escritor José Nêumanne Pinto. Outras circularam em fotocópias na universidade e por e-mail, com muito sucesso. Minha mulher, Rosana Ribeiro Patricio, professora e pesquisadora de literatura, me incentivou muito a publicar o livro. Não pretendo com isso me afastar da narrativa dramática. Mas o humor é uma faceta que já está presente em passagens dos meus romances. Neste livro eu quis mostrar o humor de forma mais explícita, em histórias curtas e certeiras. Trata-se de um livro para fazer o leitor rir, mas também refletir sobre situações bizarras do cotidiano.
8- Recentemente você teve uma antologia de contos, Les Marques du Feu et autres nouvelles de Bahia, traduzida e publicada na França, seguida de vários lançamentos no país. Como foi essa experiência?
Aleilton – No ano 2000 conheci, em Salvador, o ensaísta e tradutor Dominique Stoenesco, então professor de português num Liceu e numa universidade na França. Formado pela Sorbonne, é um fã da literatura brasileira, apreciador da obra de Jorge Amado. Ele coedita até hoje a revista Latitudes, Cahiers lusophones, que divulga literatura e cultura de língua portuguesa na França. Dominique gostou de meus contos, escreveu sobre meu trabalho na revista e, em 2007, manifestou o interesse de traduzir alguns de meus contos. Ele reuniu os contos traduzidos em livro, que foi publicado pelas Éditions Lanore, em 2008. Lançamos o livro em Paris, em Rennes, em Toulouse e na capital belga Bruxelas, sempre com um bate-papo com o público, com tradução simultânea. Visitamos as universidades Sorbonne Nouvelle, Rennes e Toulouse Le Mirail, pelas quais fomos convidados a falar do livro e da tradução. O livro Les marques du feu foi adotado pelo Lycée des Arènes, de Toulouse, o que me rendeu uma homenagem especial, num evento coordenado pela Profa Brigitte Thierion e outras docentes. A partir dos enredos dos contos, os alunos produziram pinturas, instalações, gravuras, cerâmicas, livros artesanais, planos teatrais, esculturas, entalhes em madeira, quadrinhos e vídeos. Eu fui convidado para essa exposição e para falar no evento. Estive lá, vi e vivi essa demonstração de reconhecimento de meu trabalho. Foi algo inesquecível.  No mesmo ano, o Instituto de Letras da UFBA fez um seminário, em comemoração aos meus 50 anos, através do Projeto de Pesquisa “O escritor e seus múltiplos”. A Academia de Letras da Bahia também fez uma sessão comemorativa. Tudo isso me incentiva a trabalhar mais, pois esses eventos confirmam o compromisso do escritor para com a comunidade literária.
9- Em sua opinião, o interesse pela literatura brasileira fora dos padrões dos best-sellers aumentou ou diminuiu? Persiste a busca pelo exótico ou há espaço para todo tipo de produção?
Aleilton – Trata-se de uma questão de escala. Há uma demanda significativa por best-selleres em todo lugar do mundo. E há as demandas e as circunstâncias que levam à leitura de obras literárias de alto padrão artístico, seja no ambiente literário, seja na escola, na universidade, nos grupos intelectualizados. Creio que há espaço para todo tipo de produção, pois o mercado opera por um processo de segmentação do consumo e dos produtos.  Hoje, a literatura não pode ser limitada ao padrão consagrado pela tradição intelectual, aliás, eurocêntrica e burguesa.  A literatura hoje é uma noção plural, mais ampla e diversa, e por isso mesmo segmentada, que comporta, forçosamente, os diversos adjetivos indicadores dos mais variados grupos de interesse. Isso faz parte da democratização do acesso aos bens simbólicos de maneira descentralizada, dentro dos horizontes dos diferentes grupos humanos e da diversidade cultural. Se, por exemplo, você não lê a chamada literatura espírita, saiba que milhares de pessoas preferem-na à literatura dita “normal”. Há quem prefira literatura estrangeira.  Há quem goste mais das biografias. Há quem se interesse por livros temáticos, da moda, de grande apelo midiático. A literatura precisa descer, definitivamente, da velha torre de marfim, e reincorporar o seu antigo estatuto utilitário. Os artistas da modernidade caíram numa cilada, ao voltar-se à arte da palavra em si, ou seja, a arte em si mesma, arte pela arte, disseminando a ideia de que a literatura não tem uma utilidade concreta para além de si mesma. É claro que ela tem utilidade, desde a sua origem. Ao cultivar a “inutilidade” da poesia, os modernos tornaram, ipso facto, sua leitura dispensável às pessoas práticas, voltadas às atividades e interesses técnicos e produtivos. Disseminou-se o equívoco de que literatura, sobretudo a poesia, é uma perda de tempo. Ledo e terrível engano. A literatura é muito útil. Os escritores do século 21 devem repensar essa falsa “inutilidade”, recuperando um lugar indispensável da literatura na formação integral dos indivíduos. Estão faltando literatura e arte na formação das pessoas. Se a literatura for vista e aceita como um valor indispensável, as pessoas tenderão a incorporá-la em maior proporção ao seu cotidiano, ao seu universo intelectual.  Este é o desafio: desenvolver uma efetiva educação literária na sociedade do século 21. 
10- Muitos debatem o problema do narrador na literatura atual, defendendo um esgotamento do discurso onisciente e o uso da terceira pessoa como estratégias narrativas. Essa questão parece estar bem resolvida em seus dois últimos livros de prosa, nos quais se tem a impressão de que o narrador-autor se cala para que as personagens, até então secundárias no livro e também na literatura, levantem voz e ocupem o proscênio. É uma escolha consciente? O que ela diz do autor?
Aleilton – Em seus romances, o escritor russo Dostoieviski quebrou a hegemonia da voz narrativa única, absoluta, onisciente e onipotente. Mikhail Bakthin analisou sua narrativa, na qual contracenam diversas vozes, definindo o romance polifônico. Com seus estudos, Bakthin influenciou, ao lado de outros estudiosos, as novas teorias do narrador. Walter Benjamin também refletiu sobre o tema, demarcando a diferença entre o narrador clássico, de contos tradicionais, lendas e fábulas, e o narrador moderno, do romance do século 20. Hoje coexistem as múltiplas possibilidades, formas e técnicas que os escritores empregam visando a um certo efeito ou resultado ficcional. No meu caso, escolho meus temas, meus personagens e, consequentemente, meus narradores de forma consciente. Procuro dar voz a narradores pinçados de uma experiência cultural, e que não costumavam ter a primazia da palavra. Em Nhô Guimarães, uma sertaneja de 80 anos detém a palavra e narra, de seu ponto de vista, o imaginário de um sertão que sempre pertenceu aos homens. Em O pêndulo de Euclides, o narrador erudito e a voz oficial dos livros se calam para ouvir a voz do narrador sertanejo canudense, que conta uma outra versão para a destruição do Arraial do Belo Monte. A Guerra de Canudos continua, agora no campo da revisão dos registros históricos, no debate cultural, na reavaliação dos fatos e na audição das vozes que foram sufocadas. Meu romance traz isso à tona. Trata-se, no limite, de um trabalho de inclusão de vozes culturais que precisam intervir no processo da instauração de sentidos, participando como sujeitos da legitimação dos saberes coletivos. 
11- Em O Pêndulo de Euclides você mistura ficção, dados históricos, memória e ensaística. Esse hibridismo é uma das marcas da permanência do romance enquanto possibilidade de renovação e possibilidades criativas na contemporaneidade?
Aleilton – Creio que sim. O romance de cunho realista praticamente esgotou seu alcance de interesse em face das múltiplas formas de veiculação imediata da realidade cotidiana. O romance fantasioso tem seu lugar junto a um determinado segmento do público, entretanto funciona mais como forma de entretenimento, sem maiores consequências na opinião e na visão de mundo dos leitores. O romance puramente literário, da palavra pela palavra, metalinguagem de exibição das técnicas romanescas, limita-se às igrejas dos literatos puros e seu pequeno público fiel. O romance, que é de origem burguesa, já gastou muito tempo e muitas páginas com dramas e dilemas particulares, com as idiossincrasias de protagonistas problemáticos presos às ideologias de sua classe. O mundo vive grandes questões coletivas, e demanda dos escritores uma intervenção à altura nos debates atuais. O romance há muito vive uma crise de linguagem, de foco e de identidade. Paradoxalmente essa crise o mantém vivo. Mas já se falou até na morte do romance. Então, qual é a saída para uma literatura que se queira portadora de utilidade e que possa ter permanência num mundo prático e ultra-realista, mantendo o interesse do leitor atual? Acredito na emergência do romance híbrido, em que a multiplicidade, conforme uma das propostas de Ítalo Calvino, seja sua característica de fundo e sua força motriz. Um romance tecido com elementos de ficção, mas também de história, de memória, de crítica, do ensaio, do debate, e que seja capaz de amalgamar uma teia de relações de interesse social mais amplo. O romance precisa ser propositivo e instigador, motivando o leitor a intervir e a se posicionar, em face de um conteúdo engastado na realidade da história e da cultura. Neste sentido, creio que o hibridismo, a polifonia e a multiplicidade sejam os elementos capazes de manter a permanência do romance na contemporaneidade enquanto ficção, e também como texto de utilidade intelectual e de interesse coletivo.  A literatura é de grande utilidade pública.



A UNIÃO. Ano LXI, nº 11, João Pessoa, novembro de 2010. p. 15-19.