domingo, 2 de dezembro de 2012

Lançamento/ O ARLEQUIM DA PAULICEIA - Imagens de São Paulo na Poesia de Mário de Andrade, Aleilton Fonseca


FONSECA, Aleilton. O ARLEQUIM DA PAULICEIA - Imagens de São Paulo na Poesia de Mário de Andrade. São Paulo: Geração Editorial, 2012. 300 págs. ilustradas (fotos de Sâo Paulo antiga).





Passeando em Sampa com Mário de Andrade

 Um olhar apaixonado sobre uma obra apaixonada. O resultado são estas milhares de linhas/trilhos que conduzem o leitor aos bondes da São Paulo da garoa, aos lampiões a gás, levando-o a acompanhar sensorialmente a construção do Teatro Municipal, da Catedral da Sé, do Edifício Martinelli, ao lado de transeuntes de terno, gravata e chapéu no centro velho da cidade; mulheres à la française, à sombra dos primeiros arranha-céus, ouvindo os ruídos dos primeiros automóveis importados e o gemido cada vez mais rumoroso de uma Pauliceia que engatava marchas em direção a uma loucura que se desenhava e se redesenha até hoje. O que diria Mario de Andrade se visse a São Paulo atual do alto do Pico do Jaraguá, onde pedira, em testamento poético, que os seus olhos fossem sepultados?
Aleilton Fonseca disseca a obra e a alma do famoso escritor, acrescentando pontos de vistas surpreendentes. Se você nunca leu Mário de Andrade ficará com vontade de ler. E se já leu fará uma nova leitura, uma redescoberta. De maneira elegante, Aleilton se coloca em segundo plano para elevar Mário de Andrade à altura que ele merece. Os dois se merecem e se incorporam na busca de compartilhar o sentimento e a poesia com seus semelhantes. Mário, frisa o autor, “procurava incorporar-se ao coletivo, como forma de destruir em si o egoísmo das distinções particulares, despojando-se dos valores que o tornam um indivíduo só e solitário”.
Aleilton nos oferece uma prosa poética juntando fotos antigas da cidade a excertos da obra do modernista. Uma das fotografias mostra passageiros sentados de costas num bonde, talvez o mesmo em que Mário um dia se sentira sozinho ao escrever: “O bonde está cheio/De novo porém/Não sou mais ninguém”. Ao exprimir a cidade em versos, o poeta modernista procurou “domá-la, pô-la nas rédeas da linguagem, de novo humanizá-la, tornando-a inteligível, transparente ao sentimento humano”, acentua o autor, acrescentando que as críticas e os elogios do poeta a São Paulo são puros atos de amor.
Pegue o bonde, então, caro leitor, e vai conversando com Aleilton Fonseca e Mário de Andrade. Não se assuste se você vir passar um veloz Metrô ao largo. Compare as duas metrópoles, mas volte para o presente. Pode doer. Volte devagarinho. 

Jaime Pereira da Silva (Jornalista)

domingo, 25 de novembro de 2012

"28e. Festival International de la Poésie"



Nesta foto, reúne-se parte dos 80 poetas que participaram do "28e. Festival International de la Poésie", na cidade de Trois-Rivières, Québec/Canadá, de 28 de setembro a 7 de outubro de 2012. Tive a honra de ser o poeta convidado para representar o Brasil, em cerca de 30 atividades, nos dez dias do evento

domingo, 30 de setembro de 2012

28º. Festival Internacional da Poesia no Canadá


O escritor e acadêmico Aleilton Fonseca, professor da UEFS, membro do PEN Clube do Brasil, da UBE-SP e da Academia de Letras da Bahia, estará participando do 28e FESTIVAL INTERNATIONAL DE LA POÈSIE, no Quebec, Canadá, como escritor brasileiro convidado. O evento acontece de 28 setembro a 7 outubro, na cidade de Trois-Rivière, Quebec – Canadá. O evento é anual, e este ano conta com a presença de cerca de 80 poetas convidados de diversos países, bem como um grande público formado por jornalistas, críticos, estudiosos, estudantes e leitores em geral.
No evento, Aleilton Fonseca estará participando de várias atividades e sessões bilingues de leitura de poemas, bate-papos, encontros e discussões sobre poesia. Também lançará o livro bilíngue “Une rivière dans les yeux/um rio nos olhos” – poemas, tradução de Dominique Stoenesco, uma coedição
das editoras baianas Mondrongo e Via Litterarum.
Depois do Canaa, o escritor baiano seguirá para a França, de 10 a 18 de outubro, para participar de eventos em universidades francesas (em Rennes e em Nantes), onde também lançará o livro de poemas, em encontros literários e acadêmicos.
riviere

SITE DO EVENTO: Aqui


* PARTES DO PROGRAMA COM A PARTICIPAÇÃO DE ALEILTON FONSECA*

* 28 de outubro – Abertura

* 29 de setembro – sábado*

8 h – 9 h 30 : *Petit déjeuner*: *Fédération des Festivals Internationaux de Poésie*, *Réservé aux poètes invités.* Petit Salon, restaurant Le Rouge vin, Hôtel Gouverneur, 975, rue Hart, 819 379-9813. *Poètes* *invités : *Javier Alvarado (Panama), Kazimierz Brakoniecki (Pologne), *Aleilton Fonseca (Brésil*), Kätlin Kaldmaa (Estonie), Drazen Katunaric (Croatie), Sigurdur Palsson (Islande), Rigoberto Paredes (Honduras), Simona Popescu (Roumanie), Pablo Poblète (France/Chili), Carles Torner (Catalogne/Espagne), John Watson (Australie). *Animateur* : Gaston Bellemare (Québec).

10 h – 11 h 30 : *Liberté de parole et poésie dans le monde : questions et lectures.* Vieille Prison de Trois-Rivières, 200, rue Laviolette, 819 379-9813. *Poètes* : Kazimierz Brakoniecki (Pologne), Sylvestre Clancier (France), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Emmanuel Simard (Québec). * Animateur* : Gaston Bellemare (Québec).

17 h – 18 h 30 : *Apéro-p**oésie :* Café Bar Zénob, 171, rue Bonaventure, 819 378-9925. *Poètes* : Georges Castera (Haïti), *Aleilton Fonseca (Brésil*), Victor Mendiola (Mexique), Emmanuel Simard (Québec).

*30 de setembro – domingo*

16 h – 17 h : *Poètes en prison. *Vieille prison, 200, rue Laviolette, 819 372-0406. *Poètes* : Fredric Gary Comeau (Nouveau-Brunswick/Québec), Kazimierz Brakoniecki (Pologne), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Drazen Katunaric (Croatie), Antonio D’Alfonso, Émile Martel, Prix du Gouverneur
général-poésie-1995 (Québec).

18 h : *Souper-poésie*. Restaurant Le Saint-Germain Bistro, 401, rue Saint-Roch, 819 372-0607. *Début des lectures : 18 h 30.* *Poètes : *François Guerrette, Prix Jean-Lafrenière/Zénob-2012 (Québec), Raymond Guy Leblanc (Nouveau-Brunswick), Aleilton Fonseca (Brésil), Giovanny Gomez (Colombie),
Victor Mendiola (Mexique).

23 h :* Poèmes de nuit.* Café Bar Zénob, 171, rue Bonaventure, 819 378-9925. *Poètes* : Michel Côté, Prix littéraire Le Droit-poésie-2011, Émile Roberge, Emmanuel Simard (Québec), Michel Dallaire (Ontario), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Victor Mendiola (Mexique).

*Dia 2 de outubro – terça-feira:*

12 h 30 – 13 h 15 : *Réservé aux étudiants de Villa Sainte-Marcelline. Dîner-Poésie – Rencontre de poètes. Poètes* : Galerie d’Art du Parc : *Aleilton Fonseca (Brésil)*. Salle régionale de la Maison de la culture : Drazen Katunaric (Croatie). Musée québécois de culture populaire : Sigurdur Palsson (Islande).

18 h : *Souper-poésie*. Restaurant Bistro L’Ancêtre,603, rue des Ursulines, 819 373-7077. *Poètes* : Fredric Gary Comeau (Nouveau-Brunswick/Québec), Kazimierz Brakoniecki (Pologne), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Giovanny Gomez (Colombie), Germaine Beaulieu (Québec).

20 h 30 : *Récital-poésie*. Café Bar Zénob,171, rue Bonaventure, 819 378-9925. *Poètes* : Jean-Paul Daoust, Prix Jaime-Sabines-Gatien-Lapointe-2012, Isabelle Dumais (Québec), José Claer (Ontario), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, John Watson (Australie).

*3 de outubro – quarta-feira*

13 h 30 – 15 h : *Poésie ludique*. *Artiste* :Régent Ladouceur. Galerie d’art Le Réfectoire, Musée des Ursulines, 734, rue des Ursulines, 819 375-7922. *Poèmes* : Carl Bessette. *Poètes* : Normand de Bellefeuille, Grand Prix Québecor du FIP-2012 et Prix du Gouverneur général-poésie-2000, Jean-Philippe Dupuis (Québec), Georges Castera (Haïti), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Rigoberto Paredes (Honduras),
Simona Popescu (Roumanie).

16 h – 17 h : *Goûter-poésie. *Nys Pâtissier, 1449, rue Notre-Dame centre, 819 691-9080. *Poètes : **Aleilton Fonseca (Brésil)*, Kätlin Kaldmaa (Estonie), Amir Or (Israël).

18 h : *Souper-poésie*. Restaurant Le Saint-Germain Bistro, 401, rue Saint-Roch, 819 372-0607. *Début des lectures : 18 h 30.* *Poètes* : Jean-Paul Daoust, Prix Jaime-Sabines-Gatien-Lapointe-2012, Normand de Bellefeuille, Grand Prix Québecor du FIP-2012 et Prix du Gouverneur général-poésie-2000 (Québec), Pablo Poblète (France/Chili), *Aleilton Fonseca (Brésil)*.

*4 de outubro – quinta-feira*

9 h – 10 h : *Tartines et poésie.*Restaurant Le Sacristain, 300, rue Bonaventure, 819 694-1344. *Poètes :*Michel Thérien (Ontario), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Kätlin Kaldmaa (Estonie), Sigurdur Palsson (Islande), Étienne Ruhaud (France).

12 h : *Dîner-poésie*. *Apportez votre lunch*. Foyer de la Maison de la culture, 1425, place de l’Hôtel-de-Ville, 819 379-9813. *Poètes* : *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Kätlin Kaldmaa (Estonie), Vladimir Zakharov (Russie), Paule Doyon (Québec).

17 h : *Apéro-poésie*. Bar l’Hexagone, Hôtel Delta Trois-Rivières, 1620, rue Notre-Dame Centre, 819 376-1991. *Poètes *: Sarah Yi-Mei Tsiang (Ontario), Aleilton Fonseca (Brésil), Aarón Rueda (Mexique), Odelin Salmeron (Québec).

*4 de outubro – sexta-feira*

12 h : *Dîner-poésie.* Café Le Bucafin, 920, boul. du Saint-Maurice, 819 376-2122.*Poètes* : *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Aarón Rueda (Mexique), Victor Mendiola (Mexique), Pablo Poblète (France/Chili), Victor Redondo (Argentine).

17 h : *Apéro-poésie*. Foyer de la Maison de la culture, 1425, place de l’Hôtel-de-Ville, 819 379-9813. *Musique : *Daniel Lessard. *Poètes : *Jean-Paul Daoust, Prix Jaime-Sabines-Gatien-Lapointe-2012, Carole David, Prix Alain-Grandbois-2011 (Québec), Margaret Michèle Cook (Ontario), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Aarón Rueda (Mexique), Vladimir Zakharov (Russie).

*5 de outubro – sábado*

16 h : *Rencontre d’information pour les poètes de la Grande soirée Québecor de la poésie* à la Maison de la culture : Françoise Coulmin, Prix International de Poésie Antonio Viccaro-2012 (France), Jean-Paul Daoust, Prix Jaime-Sabines-Gatien-Lapointe-2012, Normand de Bellefeuille, Grand Prix Québecor du FIP-2012 et Prix du Gouverneur général-poésie-2000, Joël Des Rosiers, Prix Athanase-David-2011, Marco Geoffroy, Prix Piché de poésie de l’UQTR-2012, Prix de poésie Radio-Canada-2012 (Québec), Marilyn Dumont (Alberta), Phil Hall, Prix du Gouverneur général-poésie-2011 (Ontario), Javier Alvarado (Panama), Kazimierz Brakoniecki (Pologne), Georges Castera (Haïti), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Aarón Rueda (Mexique), Kätlin Kaldmaa (Estonie), Erik Lindner (Pays-Bas), Victor Mendiola (Mexique), Sigurdur Palsson (Islande), Victor Redondo (Argentine), Carles Torner (Catalogne/Espagne), Vladimir Zakharov (Russie), John Watson (Australie), Amir Or (Israël), Rigoberto Paredes (Honduras).

20 h : *Grande soirée Québecor de la poésie *: dédiée, aux poètes décédés au cours de l’année et spécialement à : Louky Bersianik, Rémi-Paul Forgues, Jean-Pierre Guay, Irving Layton, Angéline Neveu, Marie Savard (Québec), Wislawa Szymborska, Prix Nobel de littérature 1996 (Pologne). Maison de la culture, 1425, place de l’Hôtel-de-Ville. Coût : à partir de 15 $ taxes incluses. *Réservations* *entre 11 h et 18 h* : 819 380-9797 ou billetterie@v3r.net ou 1 866 416-9797 (sans frais). *Poètes :*Françoise Coulmin, Prix International de Poésie Antonio Viccaro-2012 (France), Jean-Paul Daoust, Prix Jaime-Sabines-Gatien-Lapointe-2012, Carole David, Prix Alain-Grandbois-2011, Normand de Bellefeuille, Grand Prix Québecor du FIP-2012 et Prix du Gouverneur général-poésie-2000, Joël Des Rosiers, Prix Athanase-David-2011, Louise Dupré, Prix du Gouverneur général-Poésie-2011, Marco Geoffroy, Prix Piché de poésie de l’UQTR-2012 (Québec), Prix de poésie Radio-Canada-2012 (Québec), Marilyn Dumont (Alberta), Phil Hall, Prix du Gouverneur général-poésie-2011 (Ontario), Javier Alvarado (Panama), Kazimierz Brakoniecki (Pologne), Georges Castera (Haïti), *Aleilton Fonseca (Brésil),** * Aarón Rueda (Mexique), Kätlin Kaldmaa (Estonie), Erik Lindner (Pays-Bas), Victor Mendiola (Mexique), Sigurdur Palsson (Islande), Victor Redondo (Argentine), Carles Torner (Catalogne/Espagne), Vladimir Zakharov (Russie), John Watson (Australie), Amir Or (Israël), Rigoberto Paredes (Honduras).

*6 de outubro – domingo*

13 h 30 – 15 h : *Poésie ludique*. *Artiste* :Régent Ladouceur. Galerie d’art Le Réfectoire, Musée des Ursulines, 734, rue des Ursulines, 819 375-7922.*Poèmes* : Carl Bessette. *Poètes* : Kazimierz Brakoniecki (Pologne), *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Claire-Anne Magnès (Wallonie-Belgique), Étienne Ruhaud (France), Robert Giroux, Pica (Québec).

17 h : *Musique du monde et poésie d’ailleurs*. Salle Louis-Philippe-Poisson, Maison de la culture, 1425, place de l’Hôtel-de-Ville, 819 379-9813.*Musiciens : *Claire Tremblay et Sébastien Deshaies. *Poètes *: *Aleilton Fonseca (Brésil)*, Claire-Anne Magnès (Wallonie-Belgique), Victor Mendiola (Mexique), Rigoberto Paredes (Honduras

Encerramento:

*Fin des activités du Festival International de la Poésie.*
23 h :* **Poèmes de nuit.* Café Bar Zénob, 171, rue Bonaventure, 819 378-9925.*Poètes* : tous les poètes invités du 28e FIP encore présents.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

28e. FESTIVAL INTERNATIONAL DE LA POÉSIE 2012


ALEILTON FONSECA É UM DOS ESCRITORES CONVIDADOS PARA PARTICIPAR DO 28º. FESTIVAL INTERNATIONAL DE LA POÉSIE 2012.

 28 de setembro a 7 de outubro
Trois-Rivières - Québec - Canada

Veja o site do evento aqui





terça-feira, 21 de agosto de 2012

Revista Cinza no Café entrevista Aleilton Fonseca



Não deixem de ler mais essa conversa literária!




sábado, 21 de julho de 2012

Feliz Aniversário!

Mais um dia...Novo dia...Outro dia...Muitos dias...
Dia de receber, ainda mais, o carinho da família, dos amigos e também dos leitores.
Hoje é dia de refletir sobre a vida, sobre os passas dados, os caminhos trilhados e renovar os planos para os próximos dias...os próximos anos! E também os próximos livros (rsrs).
Assim, desejamos a você, querido Aleilton, muita saúde, muita luz, uma paz constante, infinitas alegrias, toda felicidade que couber em sua alma, amor sempre e crescente, sua família sempre próxima,que Deus o abençôe infinitamente, e claro, muitooo SUCESSO!
Parabéns!!!






domingo, 8 de julho de 2012

MELHORES POEMAS DE SOSÍGENES COSTA, (org.) Aleilton Fonseca


No próximo sábado, dia 14 de julho, Aleilton Fonseca estará na cidade de Belmonte-Bahia, para o lançamento do livro MELHORES POEMAS DE SOSÍGENES COSTA. O livro, organizado por Fonseca, acaba de sair pela editora Global, de São Paulo, em edição nacional, na Coleção Melhores Poemas, com direção da escritora Edla van Stein. Além de organizar a coletânea, Aleilton Fonseca também fez o estudo crítico introdutório sobre a obra lírica do poeta belmontense. Sosígenes Costa nasceu em Belmonte, em 14 de novembro de 1902, viveu muitos anos em Ilhéus, e depois no Rio de Janeiro, onde faleceu, em 5 de novembro de 1968. Deixou apenas um livro publicado Obra poética (1959), que recebeu o primeiro Prêmio Jabuti de poesia, em 1960. O poeta foi redescoberto no final da década de 70, através de um ensaio Pavão parlenda paraíso, de José Paulo Paes, da reedição do seu livro de estreia, ampliado e organizado por Paes, e da edição do longo poema narrativo Iararana (1979). No final dos anos 90, sua obra voltou à tona, graças a um ensaio original de Gerana Damulakis, Sosígenes Costa - o poeta grego da Bahia (1996). Em 2002, o centenário do poeta foi comemorado na ALB, através de um seminário promovido pela revista Iararana, então editada por Carlos Ribeiro e Aleilton Fonseca. Em seguida, a publicação da revista Iararana (14 números), a Poesia completa (Conselho de Cultura da Bahia), a coletânea crítica A Sosígenes com afeto (Org. Hélio Pólvora) e Travessia de oásis. A sensualidade da poesia de Sosígenes Costa (Florisvaldo Mattos) consolidaram o nome do autor, chamando a atenção para sua obra. Surgiram então artigos,e studos e ensaios sobre a obra do poeta dos pavões e das paisagens atlânticas. Em 2007, a pesquiadora carioca Jane Malafaia defendeu uma dissertação de mestrado (O modernismo singular de Sosígenes Costa) na Universidade Federal Fluminense, e em setembro próximo defende tese de doutorado (a primeira sobre o poeta) na mesma UFF, sobre os torneios das metáforas na poesia de Sosígenes Costa. O livro MELHORES POEMAS DE SOSÍGENES COSTA insere o poeta belmontense numa seleta coleção da melhor poesia brasileira de todos os tempos, fazendo jus ao seu valor estético, temático e cultural.

domingo, 3 de junho de 2012

Convite/Lnçamento: Memorial dos corpos sutis, de Aleilton Fonseca.


Lançamento do livro "Memorial dos corpos sutis". Dia 5 de junho, terça, à 19 h no Bar Póstudo, no Rio Velmelho, Salvador-Bahia.



Galera de Salvador que não tiver outro compromisso agendado...vamos prestigiar!

sábado, 3 de março de 2012

ALÔ, TELEMARKETING! Aleilton Fonseca

Tem cabimento uma coisa dessas? A pessoa está em casa lendo seu jornal, ou assistindo à TV, ou lavando os pratos, ou revendo o álbum de fotografia, ou apenas tirando um cochilo, então o telefone toca. Ao atender, com a maior boa vontade, depara-se com a voz impostada e a simpatia simulada da moça do telemarketing, especializada no uso gratuito de gerúndios.
– Bom dia, eu poderia estar falando com o Seu Fulano de Tal?
Se você é o Fulano de Tal, basta proferir uma única palavra, e pronto! Está fisgado. Ela, com um festivo tom de conversa, diz que o banco tal aprovou para você um mágico cartão, com facilidades encantadoras, crédito pré-aprovado de alguns mil reais e patati e patatá, etc e coisa e tal. E tenta completar assim o golpe de sedução:
– O senhor vai poder estar retirando um empréstimo de 5 mil reais...
Certa vez, alvejado por essa artilharia pesada, contra-ataquei na hora.
– Moça, eu não preciso de empréstimo. Ao contrário, posso até emprestar esse valor ou mais ao seu banco, quer? – esnobei um pouco para ver se ela se tocava e desistia de “estar me aporrinhando” tanto.
Ela não se tocou, ou se fez de desentendida. Passou a discorrer sobre as maravilhas do cartão, dos rentáveis fundos, do seguro, do fundo de aposentadoria. E enumerou diversas formas de sequestrar o meu pobre dinheirinho da minha conta corrente.
– Basta o senhor estar confirmando seus dados, e o cartão estará sendo enviado para o seu endereço automaticamente...
– Não... não quero..., não... não estou interessado...
– ... e o senhor poderá estar dispondo de nosso atendimento especial em sua casa...
– Não, não estou interessado... – eu insistia, mas ela parecia surda.
– ... vou estar agendando uma visita do nosso consultor para...
– Não, senhora! – e desliguei o telefone, sufocado com a insuportável saraivada de gerúndios.
Um amigo desenvolveu uma boa tática para se livrar desse famigerado tele-assédio. Ele atende, diz que vai chamar a pessoa interessada, larga o telefone na mesa, e deixa o tempo passar até que a moça desista e interrompa a ligação. O problema é que voltam a ligar algum tempo depois.
Para meu espanto, a minha mulher desenvolveu uma forma engenhosa e infalível de se desvencilhar da insuportável matraca gerundiva. Toda vez que a moça pergunta pela dona da casa, ela assume uma voz de diarista distraída e vai logo explicando:
– A patroa tá viajando, tou aqui só fazendo a faxina; deseja estar deixando um recado?
_________________
Do livro: FONSECA, Aleilton. A mulher dos sonhos & outras histórias de humor. Itabuna: Via Litterarum, 2010.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O GALANTEADOR - Aleilton Fonseca

A mulher ia tranquila pela calçada, em direção a sua residência, quando percebeu que, da janela de um automóvel, vinha o aceno de um desconhecido. Primeiro olhou discretamente, sem intenção de atender. O homem foi encostando o veículo, e insistiu no aceno, com um sorriso simpático. Ela hesitou em atender. Mas pensou: ora, ele deve estar querendo uma informação. Aproximou-se do motorista e, antes que dissesse algo, ouviu a abordagem inusitada:
– Oi, amor! Para onde vai? Quer ir comigo, minha linda?
Ela estacou, surpresa por um instante. Imediatamente se refez do susto, e riu divertida, achando a cena mais que engraçada, totalmente bizarra. O homem aguardava a resposta, com uma vaga esperança nos olhos semi-cerrados diante da intensa claridade do dia.
– Não, senhor; muito obrigada. Eu moro aqui perto.
– Que tal um chope? Vamos bater um papo.
– Não, agradeço pela gentileza.
Aproximando-se, a mulher olhou mais detidamente para o homem. Moreno, ligeiramente calvo, aparentava uns 45 anos. A marca nítida da aliança denunciava que ele a tirara do dedo, a fim de buscar um affair passageiro. Parecia um marido típico, afundado na rotina de um casamento saturado.
– Eu preciso bater um papo com você, amor! – ele insistiu.
– Ah, eu gostaria mesmo de falar com o senhor – disse a mulher, assumindo uma postura mais ativa.
O homem se animou. Então ela estava a fim de papo! Se conseguisse ganhá-la por um instante, seria a glória do dia. A mulher, com um olhar agora incisivo, continuou o diálogo:
– Em primeiro lugar, esse cigarro está lhe fazendo mal.
Ele, no susto, imediatamente esfregou o cigarro no cinzeiro do carro e atirou o toco longe, para demonstrar claramente a sua renúncia.
– Só fumo de vez em quando – explicou, na defensiva.
– Não devia fumar nunca. Isso mata a pessoa aos pouquinhos.
O homem, com o olhar intimidado, prestava atenção à conversa, entre curioso e espantado. A mulher prosseguiu a inspeção:
– Precisa ir à academia cuidar desses pneuzinhos aí...
– Ah, eu vou... semana que vem eu volto a malhar.
– E essa barriguinha de chope? Vai deixar de beber ou não vai?
– Sim, parei a partir de agora – prometeu, cruzando dois dedos sobre os lábios.
– Está acima do peso. Deixe o carro em casa e vá caminhar.
– Sim, sim: meu médico sempre me cobra isso – informou, assombrado.
– Por falar nisso, há quanto tempo não faz seus exames?
– Pois é... – murmurou, já encolhido, agarrando-se ao volante.
– E tem um exame que precisa fazer logo.
– E qual é? – perguntou, curioso e humilde.
– Está apertando muito os olhos... Faça um exame de vista urgente.
– É, tem razão – concordou, visivelmente vexado.
– E sua mulher? Cuide mais dela, leve-a para passear, viajem juntos.
– Pode deixar, pode deixar... – disse ele, já acionando o motor do carro.
– Se cuide, hein!
– A senhora por acaso é médica? – indagou, num tom respeitoso.
– Sou advogada, casada, e tenho 48 anos.
– Nossa! Eu lhe dava uns 30... – espantou-se, encabulado.
– Obrigada! É que eu não bebo, não fumo, como pouco, faço caminhada, durmo bem, pratico esporte, viajo muito... e sou fiel.
– Ah, bom... eu já vou indo... – ele engatou a marcha, queria fugir dali e enfiar a cabeça no chão.
A mulher sorriu; estava satisfeita com o resultado de seu contra-ataque. Percebeu que o homem, sem graça e desfeito, talvez pensasse consigo mesmo: “Bem que eu podia dormir sem essa”. Literalmente. Ele acionou o acelerador e já ia se afastando, quando a mulher fez a última recomendação:
–Tem um exame que deve fazer amanhã mesmo!
– E... qual é? – gemeu ele, quase em sofrimento psicológico.
A mulher sorriu divertida e arrematou o colóquio, enquanto o galanteador esperava o sinal abrir para sumir dali correndo:
– Seu primeiro exame de próstata!


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Este texto faz parte do livro
"A mulher dos sonhos & outras Histórias de humor"

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

UMA INFORMAÇÃO, POR FAVOR! Aleilton Fonseca

Uma noite, meu filho me ligou, pedindo para ir apanhá-lo na casa de um amigo. Lacônico e despachado, como todo adolescente, contentou-se em me informar que estava no bairro de Brotas, no Conjunto Catavento. E desligou. Liguei de volta, mas deu caixa.
Conheço a região mais ou menos. E achei que acabaria chegando lá no tal endereço sem muito esforço. Ledo engano. Depois de rodar meia hora sem achar o rumo certo, admiti que estava perdido. Sem mapa nem paciência, parei o carro numa esquina e abordei uma velhinha, perdão, digo: uma senhora da melhor idade.
– Boa noite. Uma informação, por favor!
A boa senhora parou e, me olhando de esguelha, desconfiada, aguardou a pergunta.
– A senhora sabe onde fica o Conjunto Catavento?
– Cata o quê? – ela apertou os olhos e apurou os ouvidos.
– Catavento – repeti.
– Ah, é lá pra cima, perto da casa de comadre Sebastiana.
– E onde fica a casa de comadre Sebastiana? – arrisquei, ora!
– Perto do Conjunto Catavento.
Depois dessa, eu ia perguntar mais o quê? Fiquei tão abismado que arrastei o carro dali sem sequer agradecer pela valiosa informação. Segui subindo a rua, prestando atenção aos detalhes.
Mais adiante, havia outra bifurcação. Eu precisava escolher um dos caminhos a seguir. E agora? Felizmente percebi que vinha, a passos calmos, um senhor, também da melhor idade. Animado, eu o abordei:
– Boa noite. Uma informação, por favor!
– Pois não, cidadão – ele disse, solícito e perfilado.
Logo percebi, pelos olhos e pelos passos, que aquele senhor vinha, no mínimo, de uma animada mesa de bar. Assim mesmo, continuei a entrevista.
– O senhor sabe onde fica o Conjunto Catavento?
– Cata quem?
– Catavento.
– Ah, é por ali, olhe. O senhor vai ali desse lado, e segue, vai seguindo em frente... Chegando ali não tem minha casa? Então! Quando o senhor avistar minha casa, é logo ali, o Catavento.
Eu não ia fazer a bobagem de perder tempo com aquela conversa. Agradeci ao homem e fui indo na direção indicada. Quem sabe, adiante eu teria mais sorte. Segui em frente, sem perder a esportiva.
O lugar era realmente confuso. E eu, cada vez mais atrapalhado, não achava o tal endereço. Havia uma lanchonete. Parei ali, e resolvi telefonar para o meu filho. Explique que estava perto, porém perdido; precisava de alguma referência.
–Você está onde? – ele perguntou.
– Em frente a uma lanchonete.
– Ah, é perto. Olha, fica aí mesmo que eu já estou chegando.
Pois bem, tanto melhor. Pus-me a esperar. Daí a pouco, entre transeuntes e automóveis, eis que vejo de novo o senhor que me dera a curiosa informação. Ele me reconheceu. Parou, me olhou, veio em minha direção. Próximo a mim, notei que fazia uma cara de surpresa. Estava muito desapontado.
– Ué, o senhor não achou? Não me leve a mal, mas eu ensinei certo. O senhor foi que não soube raciocinar.
– Tudo bem, eu... – tentei me explicar.
– Eu não lhe disse que era perto de minha casa?
– É, mas...
– Olhe a minha casa ali, olhe! – ele apontava com ênfase.
– Qual? — não sei pra que perguntei isso.
– Aquela lá, pintada de azul e rosa.
– Ah, sim, estou vendo...
– Então! Logo depois, na esquina, já é o Conjunto Catavento.
– Ah, bom...
– Eu ensinei certo, o senhor foi que não soube achar...
– Me desculpe... – eu gaguejei, me sentindo um idiota.
– É, mas da próxima vez tenha mais cuidado – ele disse, tocando na cabeça com o indicador.
Gente, aquilo era demais! Ele passava dos limites. Eu ia responder alguma coisa a ele, mas meu filho já chegava e era preciso dar meia-volta. Mesmo assim, arrisquei me divertir mais um pouco, com aquela situação bizarra.
– Por acaso, o senhor é marido de dona Sebastiana?
– Sou sim, por quê? O senhor conhece Sebá de onde? – ele perguntou intrigado, apertando os olhos, cheio de desconfiança.
– Não, por nada... – eu disse isso, engatei a marcha e fui saindo de fininho.


Do livro "A mulher dos sonhos & outras Histórias de humor"

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nhô Guimarães em Ilhéus


Sinopse Nhô Guimarães


Nhô Guimarães é uma adaptação do romance homônimo de Aleilton Fonseca, escritor grapiúna membro da Academia de Letras da Bahia, para a linguagem teatral. O livro foi concebido em 2006, como forma de homenagear os 50 anos de publicação de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O espetáculo, em forma de monólogo, transpõe para o palco a vida, as ideias e a mítica do nosso sertão, privilegiando a linguagem falada rica em neologismos, recheadas de palavras incomuns, próprias dessas regiões. Esse tratamento é mantido na encenação como forma de valorização da diversidade linguística, existente na língua portuguesa.
A estória é apresentada através dos causos contados por uma senhora octogenária a um visitante. Entre uma estória e outra, a velha cita a presença de um amigo do falecido marido, Nhô Guimarães, senhor de jeitos elegantes, que sempre os visitava, com "seu ouvido bom de ouvir causos e seus óculos pretos de aros redondos". Uma referência direta ao escritor mineiro João Guimarães Rosa. Enquanto relata suas lembranças, a velha desenvolve ações cotidianas, como coar um café, fazer bolinho de feijão, fumar cachimbo, busca-se criar uma transposição de quem assiste para o ambiente do cotidiano interiorano.
Em 2008, ano em que se comemorou o centenário do escritor mineiro, João Guimarães Rosa, o Núcleo Criaturas Cênicas de Salvador, realizou a adaptação do romance Nhô Guimarães, lançado em 2006 pela Bertrand Brasil, para a linguagem teatral. A adaptação foi realizada por Deusi Magalhães e Edinilson Motta Pará, atriz e diretor desta montagem, que teve sua pré-estréia no teatro do IRDEB em novembro de 2008 e foi um dos vencedores do Programa BNB de Cultura/2009, com o projeto Nhô Guimarães Pelo Sertão.




Aleilton Fonseca


O autor de Nhô Guimarães é natural de Firmino Alves e ilheense de coração, tendo vivido em Ilhéus de 1964 a 1979, quando se mudou para Salvador, para estudar na UFBA. Estudou no Grupo Escolar Dom Eduardo, da Ponta da Pedra, de 1966 a 1970. De 1971 a 1976 estudou no Colégio Estadual de Ilhéus, no Malhado. Entre 1977 e 1978 estudou na EMARC, em Uruçuca, onde fez o curso de Técnico de Agrimensura. De 1975 a 1978 fez parte da extinta Filarmônica Santa Cecília, em Ilhéus, na qual tocava clarineta. Em 1978, passou no vestibular de Letras da UESC (FESPI, na época) e na UFBA, e resolveu mudar-se para Salvador.  Desde antão, todos os anos volta a Ilhéus para rever a cidade, amigos e parentes. Ainda em Ilhéus começou a escrever e tomou gosto pela literatura de Jorge Amado, Adonias Filho e Hélio Pólvora. Publicou seus primeiros textos no antigo Jornal da Manhã, de Ilhéus, entre 1977 e 1979. É professor da UEFS e membro da Academia de Letras da Bahia.

domingo, 20 de novembro de 2011

BRIGITTE BARDOT


EM BÚZIOS, COM BRIGITTE BARDOT -  10/07/2011 


Eu fui a Búzios e conheci Brigitte
sentada na mala, à prova do tempo
que cava marcas em tudo que existe
tornando passado a flor do momento.

A noite avançava, perto das onze,
e Brigitte me recebia na praça
o rosto belo, talhado no bronze,
abraços e beijos cheios de graça.

Doce aos passantes, amando-os calada,
posa pra fotos de recordação,
e sob o olhar da lua,  iluminada

recebe abraços dos que vêm agora
tocar seu corpo, de antiga paixão,
enquanto ela só do mar se enamora.

-Aleilton Fonseca-

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O PÊNDULO DE EUCLIDES (2009): AINDA HÁ O QUE REVELAR SOBRE CANUDOS (1897)

 
Artigo apresentado no XX Seminário do CELLIP
 
XX CELLIP 

                                                                                                 
Adenilson de Barros de ALBUQUERQUE (PG – UNIOESTE)[1]
                                                                                      Gilmei Francisco FLECK (UNIOESTE)[2]

RESUMO: Mais de um século após os eventos ocorridos em Canudos (1897), o escritor baiano Aleilton Fonseca publica O pêndulo de Euclides (2009). Nesse romance, entre outras curiosidades, são esclarecidos aspectos da estada do autor d'Os Sertões (1902), como correspondente de guerra, no estado da Bahia. O responsável por tais esclarecimentos é um sertanejo que decide contar um velho segredo ao narrador/personagem. O tempo narrativo da obra, salvo algumas incursões ao final do século XIX, restringe-se a alguns dias referentes ao ano de 2003. Diferentemente de romances como Os jagunços (1898), João Abade (1958), La guerra del fin del mundo (1981), por exemplo, em que todo o enredo se desenvolve concomitante à guerra. Assim, recorrendo-se a postulações que atribuíram a romances históricos, principalmente os surgidos da segunda metade do século XX em diante, características de metaficção historiográfica (HUTCHEON, 1991), novo romance histórico (AÍNSA, 1991; MENTON, 1993) ou romance histórico contemporâneo de mediação (FLECK, 2008), o presente trabalho pretende verificar a contribuição de O pêndulo de Euclides para o estudo de tema tão debatido e ainda não resolvido como é o caso da Guerra de Canudos. 

PALAVRAS-CHAVE: O pêndulo de Euclides. Romance histórico. Revelação. 

Introdução

Mais de um século após os confrontos armados ocorridos no sertão da Bahia, os quais receberam o nome de Guerra de Canudos, Aleilton Fonseca publica, em 2009, o romance histórico O pêndulo de Euclides. Numa proposta de leitura da história pela ficção, o texto de Fonseca, até o momento, parece ser a mais recente revisita ao evento sangrento cessado a 5 de outubro de 1897. Mesmo estando precedido por mais de uma quinzena de publicações daquela natureza – romances históricos voltados de uma ou outra maneira à Guerra de Canudos –, consegue apresentar novos vieses, indagações, explicações e demonstra, assim, unindo história e ficção, que nunca secam as possibilidades para se “forjar o leito do rio para onde navegará o futuro, para situar o futuro no lugar dos desejos (MARTÍNEZ, 1996, p. 10).
Desejando encontrar-se a si mesmo, o narrador/personagem de O pêndulo de Euclides volta ao cenário dos conflitos em pleno século XXI. Ele quer saber das gentes e da situação atual de Canudos. Descobrir facetas das histórias que chegaram até ele, quando menino nos anos de 1960 e 70, por distintas formas: pelo verbete “Canudos” num dicionário de História do Brasil; pelas narrativas de sua avó Laudilina e, especialmente, pela leitura d’Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, livro emblemático que conseguiu adquirir ainda quando era adolescente. Essa busca de compreensão do presente, recorrendo-se a situações históricas passadas, está de acordo com as obras da novelística dos últimos decênios que, “después de las obras complejas, experimentales y abiertas, [...] necesitaran profundizar en su propia historia, incorporando el imaginario individual y colectivo del pasado a la ficción” (AÍNSA, 1991, p. 82). Ainda conforme Aínsa (1991, p. 82), essa corrente da nova narrativa histórica se inscreve “en una más vasta preocupación de la novela latinoamericana: el movimiento centrípeto de repliegue y arraigo, de búsqueda de identidad a través de la integración antropológica y cultural de lo que se considera más raigal y profundo”. (grifos do autor).
A decisão de viajar a Canudos para conhecer as pessoas, a paisagem e as histórias, e, posteriormente escrever um livro – antigo desejo que o protagonista revela – surgiu a partir da palestra final em um seminário realizado na Universidade da cidade de Feira de Santana, no ano de 2003. O narrador não concordou com as palavras finais do conferencista o qual sentenciou “que, mais de cem anos depois, a guerra era um tema exaurido. Nada de novo havia a dizer ou a acrescentar. Tudo estava dito, registrado, lido e analisado” (FONSECA, 2009, p. 13)[3]. Após uma cerveja no quarto da pensão onde estava hospedado, o narrador até admite que a história de Canudos encontra-se devidamente assentada

[...] nos livros, nos ensaios, nos romances, na poesia, no cordel, nas fotos e nos jornais da época. Um acervo que dá conta dos fatos e de suas conseqüências históricas e sociais. Mas tudo isso esgota mesmo a história da guerra? Nada mais há além do silêncio? Nada mais ecoa nos campos calcinados da memória que subjazem nas águas? Só nos resta interpretar as marcas do passado? De certa forma, sim. De alguma maneira, não. (OPDE, p. 14).

Essa procura de se encontrar ecos nas profundezas da memória, para além da pura e simples interpretação, parece evidenciar aquilo que Tomás Eloy Martínez entende como uma das operações mais originais da ficção histórica: “sua tentativa de recuperar os mitos de uma comunidade, sem invalidá-los ou idealizá-los, mas reconhecendo-os como tradição, como força que foi deixando seu sedimento sobre o imaginário” (1996, p. 14). Assim, na manhã seguinte, com o pensamento de passar alguns dias no local da guerra, o narrador viaja ao sertão na companhia de dois novos amigos que conhecera durante o café da manhã: o francês Dominique, professor de língua portuguesa em Paris e o poeta e ensaísta brasileiro Alex. Em Canudos, o narrador, notadamente alter ego de Aleilton Fonseca, terá a oportunidade de aprender e, finalmente, revelar os segredos d’O pêndulo de Euclides. 

Um parêntesis

Aleilton Fonseca, em entrevista à radio Unesp[4], afirma que “há certos vazios que a história não registra e que só a ficção pode dar conta”. Mais adiante, perguntado sobre a lacuna histórica que o mobilizou mais para a escrita do romance, explica ter sido “o enigma de Euclides da Cunha. Quando exatamente, em que momento de sua vida, ele tomou aquele choque de significados e começou a mudar de posição”. Euclides da Cunha na nota preliminar d’Os Sertões, escreve que a guerra de Canudos “foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. Esta atribuição criminal ao extermínio de milhares de sertanejos em 1897 seria aceitável, se quem a formula não fosse um adepto convicto dos pressupostos da República. No artigo “A nossa Vendeia”[5], há referência às “hostes fanáticas do Conselheiro” e aos soldados da República talvez não percebidos “através das matas impenetráveis, coleando pelos fundos dos vales, derivando pelas escarpas íngremes das serras, os trilhos, as veredas tristes por onde passam, nesta hora, admiráveis de bravura e abnegação”. Dessa forma, tendo-se em conta dois posicionamentos díspares, separados claramente pela visita de Euclides ao campo de batalha pouco antes do término dos conflitos, uma certeza e um questionamento se evidenciam. A primeira constata-se na leitura d’Os Sertões, em que Euclides da Cunha apresenta um discurso muito diferente do exposto em “A nossa Vendeia”. A grande questão, entretanto – aí vem à tona a lacuna histórica referida e desvendada por Aleilton Fonseca em O pêndulo de Euclides –, está no motivo que o levou a uma reviravolta conceitual a ponto de transformar a bravura e a abnegação dos soldados da República em uma ação criminosa.
Mesmo ao acreditar que “o sertão não tem saída por conta da irreversibilidade do progresso anunciado com pompa pela República e apoia-se na ciência da época para demonstrar isso” (REGO, 2008, p. 14), Euclides dedica apenas duas páginas d’Os Sertões para apresentação sistemática das teorias raciais que o levaram a caracterizar os sertanejos como uma subcategoria. Aberto e fechado esse parêntese considerado por ele um divagar pouco atraente, propõe em seguida analisar a figura original daqueles a quem chamou “nossos patrícios retardatários”. Quis evitar a pompa de neologismos etnológicos e somente reproduzir, “intactas, todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão – abandonados – há três séculos” (CUNHA, 1987, p. 79-80). A hoste de fanáticos, então, passa a ser delineada como fortes: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” (CUNHA, 1987, p. 81) e Antônio Conselheiro, “um caso notável de degenerescência intelectual” (1987, p. 103) influenciado pelo meio em que estava inserido, já na página seguinte, é favorecido por uma justificativa reparadora: ele tinha “uma função exclusiva: apontar aos pecadores o caminho da salvação. Satisfez-se sempre com este papel de delegado dos céus. Não foi além” (1987, p. 104).
Deste modo, indo além da dicotomia litoral versus sertão, Cunha busca compreender a apresentar um contexto ainda completamente desconhecido ao Brasil oficial. Viu em Antônio Conselheiro um místico doente que reunia todos os erros e as superstições da nossa nacionalidade. Arrastava o povo sertanejo, mas não o dominava. Pelo contrário, era dominado. Assim, favorecido pelo meio, o Conselheiro realizava “o absurdo de ser útil. Obedecia a finalidade irresistível de velhos impulsos ancestrais; e julgando por ela espalhava em todos os atos a placabilidade de um evangelista incomparável” (CUNHA, 1987, p. 119). Agora o narrador d’Os Sertões indica uma hesitação “ora em prol, ora contra as partes da luta” (REGO, 2008, p. 14). Devido, talvez, à oportunidade de conhecer in loco o cenário da guerra e as peculiaridades de uma terra e de homens adaptados àquela maneira singular de vida, se comparada às relações cotidianas do litoral, Euclides conclui que “eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados... Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto, enviamo-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador – a bala” (CUNHA, 1987, p. 140). Uma mudança de postura de Euclides da Cunha em relação aos sertanejos está evidenciada. Todavia, o momento e as causas de tal reviravolta permaneceriam totalmente desconhecidos se não fosse a possibilidade de reler a história pela ficção. Assim, O pêndulo de Euclides revele-se uma narrativa híbrida entre as constantes e inacabadas facetas de romances históricos “à disposição dos romancistas interessados em reler o passado, sob perspectivas que ora se irmanam e ora se enfrentam com o discurso histórico já registrado” (FLECK, 2008, p. 88).
Algumas dessas faces do romance histórico na contemporaneidade podem ser apreendidas, por exemplo, após os estudos e as propostas conceituais apresentados por Aínsa (1991), Menton (1993), Hutcheon (1991) e Fleck (2008; 2011). Para Aínsa (1991, p. 83-5), principalmente a partir dos anos de 1970, configura-se uma nueva novela histórica latinoamericana diferenciada por dez características em relação ao romance histórico tradicional. De forma sintética, elas podem ser entendidas como: releitura da história pela ficção objetivando dar um sentido e uma coerência à atualidade desde uma visão crítica do passado; impugnação ao discurso legitimador instaurado pelas versões oficiais da história; multiplicidade de perspectivas a qual impossibilita o acesso a uma só verdade histórica; abolição do distanciamento épico; ironia e paródia, às vezes irreverência, ao reescrever histórias conhecidas, sempre com pitadas hiperbólicas e grotescas jogando com a criação linguística do anacronismo e do pastiche, dinamitando crenças e valores estabelecidos; superposição de tempos históricos diferentes; uso de documentação como respaldo à historicidade textual; variedade de modalidades expressivas; releitura distanciada, “pesadillesca” ou acrônica da história, refletida numa escrita paródica; manejo da linguagem como ferramenta fundamental. Menton (1993. P. 42-5) reduz as características do novo romance histórico a seis. Resumidamente: distorção consciente da história mediante omissões, exagerações e anacronismos; ficcionalização de personagens históricos diferentemente do modelo de Walter Scott; metaficção e os comentários do narrador sobre o processo de criação; intertextualidade; dialogismo, carnavalização, paródia e polifonia (conceitos bakhtinianos).
A categoria romanesca a qual Hutcheon (1991) denominou metaficção historiográfica tem como principal característica problematizar a representatividade escrita dos eventos, evidenciando os aspectos convencionais e arbitrários dos postulados históricos. Dessa forma, “a metaficção historiográfica procura desmarginalizar o literário por meio do confronto com o histórico, e o faz tanto em termos temáticos como formais” (HUTCHEON, 1991, p. 145). Já no romance histórico contemporâneo de medição, “percebe-se um intento de conciliação” entre os romances históricos ditos tradicionais e a modalidade dos romances históricos metaficcionais. Nesta última, segundo Fleck (2010, p. 45), “estão os romances classificados por Aínsa (1991) e por Menton (1993) como modelos do ‘novo romance histórico’, assim como as metaficções historiográficas plenas, conceito criado por Linda Hutcheon”.
Portanto, ao encontro dessas bases teóricas voltadas às peculiaridades do romance histórico contemporâneo – é necessário lembrar que nem sempre é possível vislumbrar todas as características das três vertentes apresentadas aqui num único romance, ou mesmo romances que se enquadram total e exclusivamente a uma delas –, buscar-se-á, a seguir, demonstrar os caminhos utilizados por Aleilton Fonseca para revelar aos seus leitores, além do pêndulo de Euclides, uma posição crítica sobre a situação atual dos canudenses. Estes, em certa medida, representantes de todos aqueles sobreviventes à margem dos interesses políticos, históricos e sociais no Brasil.         
                             
O pêndulo de Euclides

O francês Dominique, o poeta Alex e o narrador seguem, no carro deste último, em direção a Canudos naquele sábado, 6 de setembro de 2003, exatamente 106 anos após o início da faze final do ataque das tropas do governo. Mais adiante, apresenta-se comentários sobre a vegetação da caatinga e os pequenos sítios que lhes vão aparecendo. Nas proximidades da cidade de Tucano, “Alex comentou que ali por perto havia acontecido o primeiro choque da polícia com os conselheiristas. O fato ocorrera em 1893, num lugar chamado Masseté” (OPDE, p. 20). Todas essas informações de cunho geográfico, histórico e estatístico que vão sendo expostas no decorrer do romance, não destoam dos dados oferecidos pela historiografia especializada, nem da situação atual da região de Canudos. As partes construídas ficcionalmente são, especialmente, aquelas em que não há um parâmetro documental devidamente estabelecido e confiável. Desta forma, destacam-se como elementos fictícios a serviço da releitura da historia, de maneira mais relevante, a entrevista do narrador/personagem com o próprio Euclides da Cunha (OPDE, p. 70-5), a história e as reflexões surpreendentes de seu Ozébio (OPDE, p. 43-59; 138-159), e o julgamento pós-guerra em que participam a juíza História, os réus República e Antônio Conselheiro, o acusador Senhor Tempo, a defensora Senhora Circunstância, Euclides da Cunha e Rui Barbosa (OPDE, p. 165-186). As demais situações e personagens fictícias d’O pêndulo de Euclides parecem funcionar mais como expositores da cultura e da sociedade atual canudense, além de garantirem, naturalmente, a verossimilhança na urdidura do enredo.
Na estrada que os levaria até Canudos, por volta das duas da tarde, avistam os grandes “piquetes de cimento que demarcam e anunciam o Parque de Canudos, uma área protegida por lei [...]. Avistamos a cidade. E o famoso açude de Cocorobó, cobrindo o território onde surgiu e foi massacrado o arraial do Conselheiro” (OPDE, p. 22). O narrador lembra que o sertão continua sua história e a nova cidade de Canudos segue viva com 14 mil habitantes. No alarido típico de uma feira livre, os três amigos estacionam o automóvel e vão comprar água de coco na barraca de seu Estêvo de Madá, gentil vendedor que lhes indica e dá a direção da pensão da dona Elza, onde ficariam hospedados naquela rápida, porém recompensadora, estada em Canudos. Após a bela recepção oferecida aos visitantes, respondendo a algumas perguntas do narrador, dona Elza faz referência às várias festas anuais, todas ligadas á Igreja e à romaria de Canudos; às diversões do dia a dia que são às margens do lago na prainha de Canudos Velho; e, sobre os pratos da região, apresenta uma lista apetitosa. “Sem aguardar nova pergunta, ela arrematou: – Canudos tem tudo isso de bom, meu senhor” (OPDE, p. 31). Nos memoriais da cidade, os três amigos encontram o cruzeiro da igreja velha do Belo Monte, dois lotes de madeira – cujo carregamento não entregue acabou tornando-se o estopim da guerra –, vários exemplares da vegetação nativa e muitos outros objetos relacionados ao período dos conflitos. O poeta Alex e o responsável por um dos memoriais empreendem um debate acerca de gentes que mantêm em seus poderes lembranças materiais da guerra.
A visita ao campo de batalhas seria no dia seguinte. O narrador faz algumas perguntas que deixa o guia Domingos confuso. Este resolve levá-lo a casa de seu Ozébio o qual, se tivessem sorte, estaria de bom humor. Tiveram sorte. O velho os recebeu bem. Conversaria de bom grado desde que “se não for esse diacho de ‘pesquisa’. Vamos entrando. A casa é humilde, mas é dos amigos”. (OPDE, p. 41). Ao saber que o professor da capital queria obter informações sobre um tal Euclides da Cunha, engenheiro, jornalista e escritor, que estivera ali no tempo da guerra e que escrevera um livro famoso, seu Ozébio, que já havia falado muito, agora não falava mais. Numa advertência notadamente metaficcional, ou, conforme White (1995), meta-histórica, expõe o seguinte:

Entenda bem: o senhor me ouve, eu lhe digo, o senhor escreve, faz um livro. O senhor fica ainda mais o senhor. Daí fica importante, pega alta fama, até ganha um bom dinheiro. Possa ser. Não invejo. Até faço gosto. De hora em hora, suas melhoras. Mas, e se o senhor escreve sua ideia em cima de minhas falas? E eu, minhas prosas, meus versos, minhas palavras, tudo isso quase se apaga no seu livro. Ficam sendo só suas palavras, escritas e desenhadas em papel grã-fino, em folhas de livro caro. Se eu comprasse um livro desses, como ia fazer a feira? Então o senhor escreve, e o que conta no livro vem em seu nome. E o senhor, pessoa de bem, até me agradece no escrito. Eu vou ler, com minha pouca leitura, sem entender direito: o que o livro diz não é como eu tinha falado. Então, o senhor pesquisa nossas coisas e conta tudo com outras palavras, não as da gente, mas a do seu jeito dificultoso? E nosso povo continua como antes, sem direito de falar sua fala, nem rabiscar seu próprio livro. Eu vou lhe falar, pois conheço que se sente avisado. Eu vi, tirei uma mira, daí matutei: tenho certa confiança nos olhos do senhor... Mas uma coisa eu lhe peço: não falseie minha prosa com bonitezas de suas palavras lordes. O que eu falar, falei. O senhor anote o meu justo falado. (OPDE, p. 44).

Assim, obedecendo ao pedido de seu Ozébio, o narrador descreve fielmente as palavras do velho canudense que, sobre Euclides da Cunha, disse apenas que ouvira falar muito em seu nome. “Ele veio aqui pra anotar tudo que se passava e mandar pro jornal de longe, da cidade grande. Se já era grande naquele tempo, imagine hoje. A gente vê pela televisão: um lugar sem limite, cheio de bonitezas e desgraças” (OPDE, p. 45). Seu Ozébio, na página seguinte, ainda relata questões relativas à dicotomia sertão versus cidade, às histórias passadas de pai para filho e de avô para neto. Nesse ponto faz outra menção a Euclides que, segundo seu avô, “era meio de parte com os de farda, porém tinha lá umas diferenças com eles”. Para uma pesquisadora da Universidade que o visitou certa vez, “contei pouca coisa, que já naquele tempo eu me fazia de deslembrado. Mas ao senhor eu vou contar” (OPDE, p. 47). Desse modo, lembra-se dos motivos que levaram os seus avós a seguirem para Belo Monte; dos jagunços, coronéis e os governos de longe; das leis e dos escritos contrários aos sertanejos; das diferenças entre Canudos e Belo Monte; da construção da igreja de Santo Antônio, a vida e as leis em Belo Monte; do padre que vinha celebrar missa; dos negócios de couro de bode e lã de carneiro; da estada de frei Monte Marciano em Belo Monte; e do mandonismo do coronel Dantas. Finaliza desafiando o narrador a não escrever um livro que seja como os outros. Provocando-o, de certa forma, a estabelecer um pêndulo, ensina que o juízo só muda se a pessoa “aprender os saberes ocultos da vida. O senhor medite bastante, que disso tem muita precisão. Depois espie nos seus próprios olhos e pergunte ao espelho quem é o senhor... Se achar a resposta, encontra o caminho” (OPDE, p. 59).
De volta à pensão, em algumas horas de insônia, o narrador apanha seu exemplar d’Os Sertões, abre seu laptop e revisita “A nossa Vendeia” e as prédicas do Conselheiro. Deita-se e, anacronicamente, tem um sonho cujo cenário era a estação ferroviária do largo da Calçada em Salvador e o tempo histórico era o dia em que Euclides da Cunha embarcava rumo a Canudos. Ali se estabelece uma entrevista. Numa das respostas, Euclides afirma que “esses nossos patrícios do sertão, de tipo etnologicamente indefinido ainda, refletem naturalmente toda a inconstância e toda a rudeza do meio em que se agitam” (OPDE, p. 72). Noutra, comenta que “os sertanejos de Canudos representam para a República o mesmo que os camponeses da vendeia significaram para a Revolução Francesa” (OPDE, p. 73). Euclides ainda sentencia convictamente que “a vitória é certa e absoluta. A morosidade das operações é inevitável, pelos motivos rapidamente expostos. As tropas seguem lentamente, mas com segurança, para a vitória. Sem dúvida, a República triunfará” (OPDE, p. 75).
Essa personagem histórica de opiniões semelhantes, tanto no romance de Aleilton Fonseca como segundo se conhece dela nos registros oficiais da história, é a mesma que, anos depois, na significação integral da palavra, denuncia o crime republicano em relação ao massacre dos canudenses. Mudança de postura um tanto incompreendida por mais de um século, até ser esclarecida pelas verdades das mentiras de um romance histórico. Não se sabe se o relato de seu Ozébio exposto ao narrador deveras aconteceu. Afinal, os romances mentem. Contudo suas mentiras são “sólo una parte de la historia. La otra es que, mintiendo, expresan una curiosa verdad, que sólo puede expresarse encubierta, disfrazada de lo que no es” (VARGAS LLOSA, 2007, p. 16). Assim, após discorrer sobre vários aspectos relacionados aos canudenses e à guerra de Canudos como as prédicas do Conselheiro, as quatro expedições, denominadas primeiro, segundo, terceiro e quarto fogos – sob o ponto de vista de um conselheirista –, o narrador recebe um convite para comparecer à noite, sozinho, à casa de seu Ozébio. O sertanejo faria “uma revelação que me deixou pasmo, boquiaberto, sem palavras. Ouvi e respeitei como verdade. Nas dobras e nos arremates das vivencias e das palavras” (OPDE, p. 139).
Segundo seu Ozébio, um dos conselheiristas, à busca de água que minguava no arraial, ao fugir das balas dos soldados e se encontrando nas imediações do acampamento do exército, “teve receio de ser descoberto. Rastejou com cuidado até a barraca onde avistara a sombra de uma pessoa. Achou que poderia se arriscar” (OPDE, p. 141). A sombra era a de ninguém menos que Euclides da Cunha. Neste,

[...] entre a surpresa e o pavor, bateu-lhe o senso da oportunidade. Curioso, via ali um raro espécime de homem, em carne e osso, suor e pavor escorrendo nos olhos esbugalhados. Um canudense vivo! O coração pulsando, a veia saltada de medo e coragem. Então, o jornalista percebeu rápido o que tinha diante de si e de sua pena. Era uma dádiva do acaso, uma fala viva perante seus olhos e suas anotações. Precisava desse homem com vida – para estudar, inquirir, documentar. Tinha muito a ouvir e a analisar, para entender melhor a alma daquela gente. Precisava protegê-lo, pois o queria vivo e, se possível, longe dali, tranquilo e seguro, para responder perguntas e contar coisas que se passavam no coração do arraial, aonde jamais chegara um soldado ou um repórter (OPDE, p. 142).

Ocultado à inquirição de uma sentinela que foi averiguar um barulho que ouvira na barraca do jornalista, o sertanejo, advertido de que se saísse dali seria descoberto e morto, acaba por responder a pregunta já duas vezes repetidas: “– Zé Ozébio, seu criado, com as graças de Deus e do Conselheiro” (OPDE, p. 143). Driblando a segurança, na companhia daquele canudense e de uma criança, presente do comandante, “no dia 3 de outubro, dois dias antes do final da guerra, Euclides da Cunha partiu de Canudos” (OPDE, p. 145). Já em Salvador, onde permaneceu por alguns dias, Euclides é recebido por alguns integrantes do Comitê Patriótico. Entrega o menino de seis anos  à guarda de um casal e resolve “manter Zé Ozébio consigo” (OPDE, p. 147). Nos primeiros dias permanecem em silêncio e saúdam-se rapidamente. “Sentiam-se pouco à vontade, mas ao mesmo tempo queriam estar sempre juntos, compartilhando uma jornada breve no tempo e longa na vida” (OPDE, p. 148). À noite, Zé Ozébio rezava o terço pensado em seu povo enquanto Euclides, às vezes parando para observá-lo, escrevia inventando frases e explicações.

Eram a fé e o saber que se tocavam, tateando um ponto em que pudessem fluir e dialogar, reajustando os rumos de suas vidas. Zé Ozébio jamais ia deixar de ser um sertanejo de fé e de honra, marcado pela tragédia da vida e da guerra. Jamais compreenderia o motivo de tantos tiros, tantas mortes, tanta destruição.  E agora ele se deixava conduzir pelas mãos e pelos gestos daquele doutor, a quem entregava seu destino. Euclides jamais ia deixar de ser um homem de saber e de honra, marcado pela tragédia do sertão e da vida. Jamais aceitaria os motivos de tantos crimes, tantos assassinatos, tanta destruição. Desde a aparição inesperada daquele sertanejo em seu caminho, no meio do caos, fora fulminado por inúmeras dúvidas. E seu pensamento se revolvia célere. Algumas certezas se desmanchavam no ar. Outros conceitos se enraizavam, fazendo brotar convicções que pareciam novas e, no entanto, já existiam adormecidas em seu íntimo. Ele cumpria um rito de passagem. Isso abalava seus conhecimentos e dava à suas palavras outros olhares e novo rumo à sua pena. Entrava na posse de novos saberes, desentranhados não somente dos livros, mas também da terra, do corpo, da amizade e da experiência (OPDE, p. 149).

Entre a cientificidade de suas leituras e a experiência do Brasil real, adquirida na rápida convivência com Zé Ozébio, Euclides da Cunha já não era o mesmo determinista de “A nossa Vendeia” nem o entrevistado pelo narrador antes de seguir a Canudos. Agora, assim como os escritores latino-americanos conscientes de sua condição intermediária entre as influências estrangeiras elitizadas e o emaranhado cultural, social e religioso que nunca deixou de estar à margem dos interesses econômicos e políticos da oficialidade da América Latina, Euclides da Cunha redirecionaria o discurso d’Os Sertões para um entre-lugar. Um livro “entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão” (SANTIAGO, 2000, p. 26). Quebrado o gelo e construída uma amizade profunda entre aqueles dois homens aparentemente tão díspares, Euclides segue sua viagem e Zé Ozébio, que esperou a situação melhorar, volta ao sertão guardando um segredo: “– Você é a única pessoa que tem ciência de minha atitude de protegê-lo em Canudos. Isto será um segredo de honra. Só deve ser revelado depois de nossa morte, por um filho ou neto seu” (OPDE, p. 154). Seu Ozébio é esse neto que vê num professor da capital, apaixonado pela leitura d’Os Sertões e certo de que havia ainda muito a dizer além das histórias assentadas nos livros, o interlocutor ideal a comungar do segredo d’O péndulo de Euclides.                                                    

Considerações finais

Repleto de revelações e quadros sugestivos, possibilitados pelas liberdades ficcionais da escrita do romance, O pêndulo de Euclides apresenta a releitura de uma história que ainda ecoa sob diferentes matizes na realidade brasileira contemporânea. Sugere uma mediação entre as histórias da Guerra de Canudos, largamente difundidas nos mais variados formatos de expressão escrita e oral, e a visão reelaborada de uma inquietação obscura. Assim, utilizando-se de estratégias das ficções históricas estudadas e apresentadas por Aínsa, Menton ou Hutcheon, o romance de Aleilton Fonseca busca dar um sentido e uma coerência à atualidade desde uma visão crítica do passado. Apresenta um personagem histórico com relevância central à narrativa. Faz uso consciente de recursos como anacronismo e intertextualidade, além de problematizar a representatividade escrita dos eventos. Entretanto, por não sugerir uma desconstrução exageradamente paródica dos pressupostos teóricos tradicionais, nem pretender unicamente, ao modo das metaficções historiográficas plenas, desmarginalizar o discurso literário em relação à “veracidade” cientificista de algumas correntes históricas tradicionais, O pêndulo de Euclides se enquadra em grande medida às características do romance histórico contemporâneo de mediação (FLEKC, 2008; 2010; 2011).
Muitas informações recorrentes na historiografia referente à Guerra de Canudos, como já mencionado, são respeitadas e reproduzidas, e um aspecto que poderia ser entendido como reverência a Os Sertões, de Euclides da Cunha, também está evidente no romance. Contudo, não se pode encará-lo como uma simples reprodução daquilo que já está registrado e resolvido em mais de um século de histórias. Por meio das experiências obtidas com a visita daqueles três amigos aos sertões da Bahia, em pleno século XXI, dos vieses sugeridos pelo narrador e das revelações intrigantes de seu Ozébio, O pêndulo de Euclides apresenta-se muito bem urdido e repleto de imagens. Evoca ecos do passado e instiga reflexões críticas sobre o Brasil atual para além da literatura. Portanto trata-se de um texto mediador entre a História, suas lacunas, e as probabilidades de preenchê-las utilizando-se da ficção.             

Referências

AÍNSA, Fernando. La nueva novela histórica latinoamericana. In. Plural. 240. p. 82-85. México, 1991.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

FLECK, Gilmei F. O romance, leituras da história: a saga de Cristóvão Colombo em terras americanas. Tese. Assis: UNESP, 2008.

_____. Ficção, história e memória: a América em busca de sua identidade outrora subjugada. In. Ficção, história e memória na América Latina: leituras e práticas. (Org.) FLECK, G. F. & ALVES, L. K. Cascavel: EDUNIOESTE, 2010.

______. Gêneros híbridos da contemporaneidade: o romance histórico contemporâneo de mediação – leituras no âmbito da poética do descobrimento. In: RAPPUCCI, C. A; CARLOS, A. M. (Orgs.). Cultura e Representação – ensaios.  Assis: Triunfal, 2011.
                                                                 
FONSECA, Aleilton. O pêndulo de Euclides. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Ficção e História: apostas contra o futuro. In. O Estado de São Paulo. n. 839 – ano 17. Sábado, 5 de outubro de 1996. 

MENTON, Seymour. La nueva novela histórica de la América Latina, 1972-1992. México: Colección Popular, 1993.

REGO, Djair T. Polifonia, dialogismo e procedimentos transtextuais na leitura do romance La guerra del fin del mundo, de Mario Vargas Llosa: pródromos e epígonos. Tese. João Pessoa: UFPB, 2008.    

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

VARGAS LLOSA, Mario. La verdad de las mentiras. España: Punto de Lectura, 2007.

WHITE, Hayden. Meta-História: a imaginação histórica do século XIX. Trad. MELO, José Laurêncio de. São Paulo: Edusp, 1995.


[1] Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras, nível de Mestrado, área de concentração em Linguagem e Sociedade. Bolsista Fundação Araucária. Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Cascavel. Paraná. Brasil. E-mail: adenilsonbar@gmail.com
[2] Professor Adjunto da UNIOESTE/Cascavel na Graduação e Pós-graduação em Letras nas áreas de Literatura e Cultura Hispânicas. Doutor em Letras pela UNESP/Assis. Vice-líder do grupo de pesquisa “Confluências da Ficção, História e Memória na Literatura”. Coordenador do PELCA: Programa de Ensino de Literatura e Cultura. Coordenador do Projeto de Pesquisa Básica e Aplicada “Gêneros ficcionais híbridos da modernidade: outros olhares sobre o passado da América”, financiado pela Fundação Araucária. E-mail: chicofleck@yahoo.com.br

[3] Doravante, as citações referentes ao livro O pêndulo de Euclides serão indicadas pela sigla OPDE, seguida do número da página.
[4]  O áudio está disponível no blog do autor: aleilton.blogspot.com
[5] Texto publicado no jornal O Estado de São Paulo em duas partes: a primeira data de 14 de março e a segunda de 17 de julho de 1897. Disponível em euclidesdacunha.org.br



Meses atrás, recebi um e-mail animador de Adenilson B. de Albuquerque, no qual dizia que o blog estava sendo muito últil em sua pesquisa sobre a obra de Aleilton Fonseca. Em novo contato ele diz:
"Sou Adenilson, outro dia (já há algum tempo) lhe escrevi informando sobre a utilidade do blog de Aleilton Fonseca aos meus estudos referentes aos romances que abordam o tema da Guerra de Canudos. Escrevi um artigo apresentando e discutindo alguns aspectos d'O pêndulo de Euclides. (...) Deixei o texto guardado até semana passada, período em que o apresentei e publiquei num evento aqui do Paraná. O pessoal da sala ficou curioso ao saber do romance e do autor.   
Dessa forma, segue em anexo o artigo para que sirva pelo menos como elemento de arquivo entre os estudos da obra de Aleilton Fonseca a qual, estou seguro, será cada vez mais (re)visitada."
 
Agradeço a gentileza em disponibilizar seu artigo para os leitores do blog.