quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Resenha - Construções identitárias na obra de João Ubaldo Ribeiro



Memória, história e ficção

Aleilton Fonseca

A configuração identitária dos povos nunca foi um processo claro e pacífico. A história tem mostrado como as diferenças provocam conflitos, levam à intolerância e à discriminação. Em face disso, a literatura muitas vezes se torna uma forma de representação crítica, mostrando a crueza e o absurdo de realidades que precisam ser compreendidas e superadas. A obra de João Ubaldo Ribeiro mostra-se atenta a essas questões, ao abordar diversos aspectos da formação social do povo brasileiro.

O livro de Olivieri-Godet debruça-se sobre as construções identitárias do autor de O albatroz azul, para examinar uma das facetas mais significativas de sua obra. A ensaísta, que leciona na Universidade de Rennes 2, na França, já publicou diversos artigos sobre as representações literárias das relações culturais contemporâneas. No novo ensaio, ela analisa Viva o povo brasileiro, Vila Real, o Feitiço da ilha do pavão, A casa dos budas ditosos, as crônicas do livro Um brasileiro em Berlim, além de contos do livro podeis da pátria filhos. Godet aborda os textos ficcionais a partir de uma conceituação teórica específica, citando autores brasileiros e franceses, como Antonio Candido, Silviano Santiago, Zilá Bernd, Francis Utéza, Georges Bataille, Gérard Genette, Gilles Deleuze, e os caribenhos Patrick Chamoiseau, Édouard Glissant, entre outros.

Nos quatro capítulos do livro, a autora estabelece conexões entre as obras de Ubaldo e as questões identitárias, demonstrando suas recorrências, seus significados e sua abrangência. Com isso, insere a literatura brasileira na problemática das identidades, como ponto de partida para situar o lugar ocupado por João Ubaldo nesse universo temático. Seu estudo aponta o percurso do ficcionista, desde a tendência carnavalizante de Vencecavalo e o outro povo (1974), passando pelo neo-realismo de Vila Real (1979), até chegar a uma ficção que “faz coexistir uma visão épica e dramática com a perspectiva carnavalesca, que, cada vez mais, terá tendência a se impor em sua obra” (p. 28).

Em suas análises, Godet anuncia que, em João Ubaldo Ribeiro, “a problemática da identidade nacional afasta-se da homogeneização dos traços culturais, privilegiando uma representação plural da identidade brasileira” (p. 28). Para demonstrar seu ponto de vista, ela coteja os textos ficcionais com o aparato teórico, privilegiando a articulação entre as estratégias narrativas e as figurações identitárias operadas pelo escritor.

O ensaio correlaciona memória, história e ficção, e aproxima identidade, território e utopia, mostrando marcas da voz autoral, intertextualidades, técnica e estratégias narrativas. Segundo a autora, Ubaldo implode estereótipos, instaura a pluralidade de vozes, revelando a face obscura e conflituosa da formação identitária brasileira.

Godet mostra como os textos de João Ubaldo refletem sobre os dilemas de nossa época, ainda marcada por reações de intolerância diante de certas manifestações da diversidade cultural e identitária. Dessa forma, considera que sua ficção contribui para que entendamos melhor a sociedade em que vivemos, identificando seus conflitos e suas possíveis soluções.

Resenha do escritor Aleilton Fonseca, publicada no Jornal do Brasil.
Ideias & Livros, em 5/12/2009, p. 6.

Construções identitárias na obra de João Ubaldo Ribeiro
Rita Oliveri-Godet (São Paulo: HUCITEC; Rio de Janeiro: ABL; Feira de Santana: Editora da UEFS, 2009).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Próximos eventos...

Projeto Travessia das Palavras

Local: Biblioteca Central de Jequié - BA

Data: 28/11/09

Horário: 19h e 30mim

Realização: Academia de Letras de Jequié

Não deixem de estar nessa Travessia encantada pela prosa e poesia do Professor e escritor ALEILTON FONSECA!




Seminário Euclides da Cunha: Cem anos Sem

Local: Juiz de Fora - MG

Data: 25, 26 e 27/11/09

Realização: Museu de Arte Murilo Mendes da UFJF e o Cenrtro de Ensino Superior de Juiz de Fora

Aleilton Fonseca se faz presente com a palestra: CANUDOS E O PÊNDULO DE EUCLIDES: Novas vozes, outras viagens, no dia 27 às 17 h.

Não deixe de adentrar a história, a literatura e o sertão ao lado das vozes que não deixam calar a voz de Euclides, a voz do sertão!

Clique na imagem para mais detalhes.

sábado, 14 de novembro de 2009

Entrevista com ALEILTON FONSECA , Revista Muito

Foto: Irachema Chequer | Ag A TARDE

Saiu na revista MUITO, do jornal A Tarde, do domingo dia 08/11/09, no "Entre Aspas" uma entrevista com Aleilton Fonseca, a qual segue um trecho.


Por: Kátia Borges

Leia trechos inéditos da entrevista com o escritor Aleilton Fonseca, autor de Nhô Guimarães e O Pêndulo de Euclides.

Embora professor, mestre e doutor, você parece manter-se longe do “encastelamento”, da “torre de marfim”. Que análise faz da cena literária baiana, com o qual interage e que conhece bem?
A torre de marfim é uma prisão. A ação literária precisa ter uma dinâmica coletiva, pois a literatura é um acervo de saberes para ser compartilhado. A cena literária baiana é muito produtiva. Mas falta ainda na Bahia uma política eficiente de formação de leitor e de distribuição do livro, de modo a elevar os índices de leitura e de formação de acervos. Os autores baianos encontram muita dificuldade para obter reconhecimento em sua própria terra. O reconhecimento tem de vir primeiro do centro-sul, o que os obriga a lutar por editoras do Rio e de São Paulo para existirem nas livrarias. Isso é uma luta árdua e nem sempre chega para todos, nem é suficiente para projetar seus nomes. O trabalho do escritor é árduo e os resultados não são garantidos. Creio que deveríamos nos unir, em busca de uma solução coletiva. Afinal, o brilho do céu não se faz com uma ou duas estrelas, mas com a luz das diversas constelações.

Eu o conheci primeiro pelos contos e pela poesia. Qual o espaço que ocupam hoje em sua vida?
A poesia e a ficção são importantes no meu dia a dia de escritor, professor e pesquisador de literatura. Publiquei livros de poesia, ensaios, contos e romances. Participo de várias antologias nacionais e algumas internacionais de contos e de poesia. É claro que a ficção me trouxe um reconhecimento maior e me firmou como escritor, tornando-se a vertente mais forte de minha produção literária. Mas uma coisa é certa: prefiro ser romancista.

Você se considera um autor sertanejo, em contrapartida a ter a literatura urbana como objeto de pesquisa?
Sou um escritor, no sentido substantivo do termo. Na poesia e na prosa, escrevo sobre cidade e sertão, com forte inclinação para os temas interioranos, mas em consonância com as questões urbanas. Estou em trânsito, numa viagem que a cultura faz cotidianamente, entre universos em diálogo constante, tenso, rico e indispensável. O que interessa são as questões, os valores e as soluções que precisam ser discutidos, compartilhados e resolvidos. O campo tem muito a ensinar à cidade e vice-versa.

Como se sente ao chegar aos 50 anos de idade e 30 de vida literária?
Sinto-me muito bem, pessoal e profissionalmente. Tenho 12 livros publicados, além de participar de vários outros. Já surgiram vários artigos, ensaios e resenhas sobre meus livros. O Instituto de Letras da UFBA fez um seminário comemorativo de meus 50 anos, através do projeto O escritor e seus múltiplos. O evento foi organizado pela Profª Antonia Herrera e pela bolsista Lisiane de Oliveira Souza, em reconhecimento ao meu trabalho. Como escritor, sinto-me reconhecido e gratificado.

Quais projetos mobilizam agora a sua atenção?
De agosto até novembro, estou cumprindo uma agenda de 16 viagens, para participar de eventos literários, fazendo palestras, dando minicursos e lançando o romance O pêndulo de Euclides. Ao final, terei ido a 6 estados, a várias cidades. Ao lado disso, dou minhas aulas de literatura na UEFS e participo das atividades da ALB. Tenho alguns projetos de livros em andamento, em crônica, conto, romance, poesia e ensaio. Eu trabalho com literatura todo dia, o dia todo. Assim, sinto-me útil e me realizo como pessoa. No mais, é tocar a vida, tendo a literatura como alimento, realidade e sonho.


Disponível em: http://revistamuito.atarde.com.br/?p=3532. em 14/11/09

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A última partida



Aleilton Fonseca

Num mais que de repente, Linco ia se levantar dali de um pulo, com sua risada de mangação. A certeza nos aliviava, por hora, de uma dor mais funda. Pois se ele era tão fingido, nos metendo cada susto! Era só um esperar, os adultos se preparassem, que nem precisava lotar a sala de tanta gente para o maior efeito. Ele estava debaixo do lençol, bem quietinho, sobre o banco de madeira rústica. A gente queria ver de perto, era difícil.

Linco era assim mesmo, imprevisível, sempre que presepando coisas. Na maré, que corria ao fundo de nossas casas, ele inventava ondas. De uma vez das tantas, tomávamos um banho num fim de tarde. De mergulho em mergulho, ele sorveteu-se nas águas; nós esperamos que voltasse à superfície... e nada! Caímos em desespero:

– Linco sumiu, gente!

– Ele se afogou!

Os companheiros e eu tremíamos de assustados, quase nem tomando o ar correto, a gente escarafunchava as águas, nos mergulhos de busca. Abríamos os olhos, que ardiam, mais do que salinados, já com as lágrimas brotando.

– E agora?

Um silêncio nos assaltou, a maré nos pareceu monstruosa, doida para nos engolir também. Mergulhar desse jeito afoito dava logo um cansaço. A gente precisava boiar juntos, de mãos dadas, desfadigar. Então, ouvimos o desgramado, que saboreava a maior gargalhada, se enganchando nos galhos do manguezal. Ele prendera o fôlego, nadara por debaixo, voltando à tona escondido nas ramagens. Tudo isto um apronte só, o tinhoso, para colher de nós uns risos sem graça entre a raiva e o alívio.

Agora, ali na sala, cadê que não se denunciava logo em nova traquinagem? Acontecera de supetão, corremos à casa de Linco, depois de um certo rebuliço havido por lá. De logo a gente não dava passagem ao real, ele deixasse de manha! Isto já estava para lá de um despropósito. Era um demais, pois olhem o estado da mãe, coitada!

Estávamos atordoados, acotovelando-nos entre os adultos. Encostados à parede, a gente se firmava na ponta dos pés. O manhoso se levantaria dali – é claro! – dando o maior susto no povo. Era o caso para umas boas risadas. Linco estava para além das margens, nos seu exagero. Depois, depois...

Mas, que manchas eram aquelas, de um modo avermelhado, ensopando uns quantos pontos do lençol? A gente espichava-se em mais um apuro de prestar atenção. Linco, ali debaixo, encoberto, a mãe dele se desconsolava num canto, amparada no abraço da irmã. Dona Aurora se revelava em desespero, uma noite imensa invadia seu rosto e já clareava o nosso entendimento. Houvesse mais coração para tanto pulo, a gente se via à beira de um choque. Mas como podia ser isso com ele? E com cada um de nós também podia, pois lençol, banco e sala todos tínhamos em casa.

Era um sábado. E amanhã haveria o jogo de bola, nosso time todo montado nos acertos de Linco. Era a final do campeonato de bairros, que a gente mesmo organizava para distrair aos domingos. Ponta da Pedra, nosso esquadrão azul e branco, trajando as camisas que a Prefeitura nos dera, por pedido escrito e insistências de Linco. E o adversário não era mole! Enfrentar as feras do Malhado, uns até mais velhos que nós, e bons de bola, era fogo. Mas Linco bem que traçara uma tática nova. Como líder e goleador, garantia que íamos ganhar o troféu. E até fizera aposta de honra contra o dono do time inimigo. Quem perdesse teria de tomar banho no rio, todo nu, calado, sem poder revidar a gracejos nem gozações.

Agora, porém, eis que Linco... Mas como foi? Por quê? De déu em deu, a história se desatava nos sussurros, mas, para a gente, não assentava por certo haver o amigo em tal estado. Linco fora cedo para a praia desafiar as ondas, como gostava de fazer. Na volta, acabara recolhido naquela situação.

Este fato era difícil aceitá-lo, aquilo é que não podia! Linco desistisse do mau gosto, fosse dormir mais cedo que amanhã haveria um jogo duro. O time do Malhado não alisava, com suas jogadas e tramóias, dava de seis a zero na gente com facilidade. Mas, isto, só se Linco não jogava. Era quando ele ia cumprir as ordens da mãe, fazer lição de casa, estudar para as provas, sem outro jeito de escapar.

– Primeiro a obrigação, depois a distração, – era o lema de casa.

Sem Linco nosso time era pato. Com ele sobravam as diferenças. Sob o seu comando a gente não se intimidava. Ele arranjava sempre uma das suas mais novas artimanhas. De cochicho em cochicho nos dava todas as dicas, nos colocava na função certa em cada parte do campo. A gente perdia por placar apertado, sem fazer feio. Outras vezes íamos vencendo, com sorte e com jeito. Foi assim, de gol em gol, chegamos à decisão do torneio, para surpresa de todos.

De uma outra vez, estávamos abatidos no aperto de cinco a zero, numa partida de seis. Era justo contra o temível Malhado. Perder de seis a zero, uma lavada para dúzia e meia de gozações! Nosso craque esmoreceu, comentava alto para todos:

– O jogo está perdido, não adianta! – e atirava a bola para o lado, atrasava-a para o goleiro.

Linco era o único jogador de nosso time que inventava medo aos adversários. Mas, naquela altura do jogo, parecia preso por um cansaço. Perambulava em campo, quieto, sem dar parte na disputa. Os caras do Malhado relaxaram, deram por ganho o combate. Era só questão de a qualquer momento marcar o gol de misericórdia e ir mergulhar no rio, zombando de nosso “timinho”. Eles começaram a fazer firulas, com toques desconcertantes e às gargalhadas, dando um banho de olé na gente. A platéia de fora se deliciava. Os demais meninos de nossa rua, entre aflitos e conformados, se contorciam. De repente, apertamos a marcação, a bola deu rebote e foi quicando de flerte com Linco. Ele a tocou como quem não quer nada e, sem mais nem menos, inventou um chute torto e certeiro. No ângulo. Este gol nem o comemoramos dada a indiferença do próprio artilheiro.

– É o gol de honra – ele murmurou, cabisbaixo.

Os meninos de Malhado nem sequer se assutaram. Continuaram desperdiçando as chances de vencer, mais interessados em nos dar aqueles dribles, colocando a gente na roda de bobo. Lá vai, de novo, a bola lhes escapava. Linco apanhou a sobra e lá se foi nas fintas; deu um chute, agora chocho e enviesado, deixando o goleiro com cara de besta.

– Este é para a goleada não ficar muito feia – ele comentou, sem alarde.

A coisa ficou por conta. O pessoal do Malhado se ressabiou, atirando-se todo ao ataque, seis a dois ainda renderia uma boa pilhéria. Já o nosso goleiro, mais animado, se pôs a subtrair os graus dos piores ângulos. E a bola passava raspando, mas não entrava. Eu, reles zagueiro, com as canelas ardendo, me afogava no suor. Chutava para qualquer lado, procurando acertar as moitas de capim bravo, que dava tempo de respirar um alívio. E Linco, rente ao meio de campo, estava só que olhava o jogo acirrado sobre nossa defesa, num desinteresse de irritar. Lá um lance, a bola rebateu em minha cabeça e se foi aos caprichos de Linco, num contra-ataque fulminante. Ele rompeu nas costas de um zaqueiro que perseguia as suas pernas serelepes. Não houve senões, o goleiro avançou firme, mal-encarado. Linco ziguezagueou-lhe um drible e o plantou na lama, com a bola na rede.

Cinco a três era já um acinte, os caras do Malhado endureceram de vez, dando-nos rasteiras e pontapés explícitos. E já se desentendiam em campo, trocando entre si uns feios xingamentos. Linco, sempre em surdina, de cócoras, em campo, colhia uns matinhos e os mastigava, todo matreiro. Num avanço da defesa, o Malhado quase lavrava a fatura, mas nosso goleiro operou a mágica com as pontas dos dedos. A bola sobrou na minha frente, eu a chutei a esmo, sem querer encontrei Linco e já fui vibrando contrito, o gol era questão de segundos... pronto! O jogo em quase que empate. Cinco a quatro feria a honra do Malhado. Eles deram a nova saída, com as caras entufadas. O jogo passava dos limites. Nesta demora, as cigarras já nos recomendavam recolher a bola, a tarde já se ia turvando.

Já entendíamos o plano de Linco: ele se fazia de morto para ser visitado. Os malhadenses discutiam forte, erravam passes, os afobados, numa ânsia de nos liquidar de vez com o sexto gol. Armaram um abafa sobre nós, chutaram um petardo venenoso, nosso goleiro espalmou para escanteio. Linco intuiu o lance e recuou para nos ajudar. A bola alçada à nossa área, ele a matou no peito e a pôs no chão em desabalado rompante. Os caras, desesperados, gritavam para os da defesa:

– Pega! Agarra! Não deixa!

Qual o quê?! Linco rodopiava, deixando os zagueiros para trás, pulava para escapar de uma rasteira, se retorcia todo mole para fugir dos agarrões. E pimba! Entrou com bola e tudo, deixando o goleiro órfão e humilhado, prestes ao choro. Eis aí, mestre Antonio: o jogo estava empatado! Os “craques” do Malhado caíram de suas torres, fulminavam-se uns aos outros com raiva e nos assassinavam com o olhar. Culpavam a defesa e o goleiro, que maldiziam os atacantes. A gente nem tico nem taco! Era só tocar a bola, de olho nas treitas de Linco.

– Quem fizer um gol ganha! - o maioral deles vociferou o óbvio.

A gente conspirava em silêncio. O Malhado se perdia de vez em campo. Mas insistia, desordenado, em busca do último gol. Nossas pernas se multiplicavam, na resistência. Mais tarde, um menino vinha decretado com um aviso. A mãe de Linco o estava chamando, era a ordem de ir para casa. A gente queria aproveitar a chance de vencer, mas sem ele no ataque não dava.

– Vamos ganhar logo, que eu estou de partida.. – ele disse, bem animado.

Linco correu até a defesa, pediu a bola ao nosso goleiro, levantou a cabeça com ímpeto e irrompeu contra o time do Malhado. Ele sorria e avançava. Eu o segui de perto, vibrando. Na minha frente desenhava-se um ziguezague: driblou um adversário, dois, três quatro... Arremeteu contra o goleiro deles, que saía do gol fechando o ângulo. Linco parou, como só ele parava, deu um toque sutil e saiu de lado. O gol estava diante dele, entregue e escancarado. Houve ali uma expectativa, o jogo já terminava. E ele me ofertou a bola: Terto, faça o seu gol!”. Eu, simples zagueiro, jamais provara aquele sabor. Então eu mesmo rolei, bem de levinho: e a bola foi sorrir no fundo da rede.

Todos corremos para ele e gritávamos gol e nos abraçávamos, era a virada de seis a cinco. O invicto Malhado enfim derrotado, diante da platéia surpresa ao redor do gramado. Contra a nossa festa, o líder deles jurou vingança, de cara amarrada:

– Na próxima vocês vão ver!

Saíam de campo sem graça, mais que inconformados. A gente degustava a justa vez de zombar:

– Oh, timinho de patos

E agora? Amanhã era a final, contra o ferido time do Malhado, cheio de brios pela revanche, com um ressentimento bairrista demais. Prometiam nos bater de seis a zero. Eis que era chegada a hora, e Linco naquele pior estado. A par de tanta tristeza, as nossas lágrimas prosperavam, renovando-se nas lembranças daquelas glórias repassadas. De nossa parte, era a vez primeira de enfrentar esse tipo de jogo, totalmente vencidos. E cada um de nós compreendia, a seu modo e tanto, o quanto gostávamos daquele menino. No entra-e-sai da sala, ninguém podia efetuar o total que sofríamos. Sem o nosso amigo, sentíamos o vazio de uma enorme parte de nós mesmos. Tínhamos muita pena de Linco não jogar aquela última partida. Ele, com tanta espera e vontade, planejara a grande vitória. Um ou outro de nós se arriscava, em meia voz, para o maior silêncio dos pares:

– E o jogo de amanhã?

Primeiro concordamos com a idéia de que não haveria o jogo. Os caras do Malhado tinham de compreender o respeito devido a Linco, o motivo de força maior. Aliás, que jogo teria graça para nós, naquelas circunstâncias? Estava, então, acertado. Passava da meia-noite, de qual a qual íamos tombando de sono. Cada um procurou seu caminho de casa.

No domingo, pela manhã, nos reuníamos em frente à casa de Linco. Vinha então a embaixada do Malhado em nossa petição, naquele uniforme grená desbotado de sempre. Cadê nosso time? Era hora do jogo. Logo explicamos o fato, eles se concentraram no silêncio, com algumas perguntas esparsas. Depois entraram para ver o nosso amigo, já composto entre flores, perfilaram-se com respeito e tristeza. Não havia ânimo para a partida, com tal desfalque em nosso coração.

Todos de volta ao terreiro, daí batíamos uma bola solidária, numa roda de pé em pé, comungávamos a dor daquela tragédia. Num momento em que a bola resvalou da roda, fugindo de controle, veio dos amigos do Malhado uma proposta:

– Vamos jogar a partida – um deles se aventurou, meio que experimentando.

– Não dá – cada um de nós respondia, em consequência perfeita.

Eles insistiam que jogássemos em homenagem a Linco. Haveria um minuto de silêncio. Eles queriam o jogo, mas não lhes víamos nenhum sinal de revanche. Era razoável, de olhar em olhar nos entendemos: a gente jogava. Mas, com uma condição: seria a partida de um só gol. Quem marcasse primeiro ganhava o torneio, com respeito, sem festa nem gozação. Este jogo de futebol não podia demorar, pois sabíamos que, logo mais, Linco seria levado para outro campo. E todos o acompanharíamos em sua última partida.

– É o nosso último jogo. Sem Linco, o nosso time acaba – alguém murmurou e todos acenaram que sim.

Vestimos o uniforme do time, em azul e branco, para o jogo final. A camisa de Linco ficou estendida no chão, próxima ao campo, invocando a sua presença. O juiz, que vinha do bairro Pontal, depositou o troféu sobre a camisa dele. E nos convocou ao meio do gramado. Depois do minuto de silêncio, que varou mais que sessenta segundos, demos a saída de bola e nos pusemos em disputa.

Era um jogo estranho, sem o mínimo ânimo de ambas as partes. O pessoal do Malhado nos dominava, mas chutava sem força, parecia que sem querer marcar o gol. Dava vontade de parar a partida, lagar aquilo de mão, ir velar os últimos momentos de Linco. Após longos minutos madorrentos,os nossos oponentes inprovisavam de novo:

– Vamos disputar pra valer, gente!

Outro de lá lançou um ajuste: o troféu ganhasse o nome de Taça Linco. E o tento da vitória seria o “Gol Linco de Ouro”. De pronto concordamos, isto trazia um novo significado, valia a homenagem de nosso esforço. Abraçados em campo, reafirmamos a senha da vitória que o próprio ausente nos ensinara. Em seu nome, nos renovávamos com a vontade de vencer.

A partida reiniciou-se com outro espírito. O Malhado mostrava-se bem melhor, correto e persistente, em busca do gol. Para nós, restava resistir e lutar por honra, pois agora sentíamos Linco entre nós, suas palavras de incentivo e ensino nos alcançavam, minando de nossa memória.

Mas o empate persistia em zero a zero, quase à hora de Linco partir. Eu me senti tocado pelo desejo de oferecer aquela taça ao amigo, antes que a luz do mundo lhe fosse apagada para sempre. Então, deixei minha posição de defesa, me postei no lugar em que ele ficava, no todo que arisco, ao largo dos lances do jogo. A bola haveria de me procurar ali, com saudades do seu preferido. E enquanto aguardava o momento, eu imaginava um lance, um jeito dos que Linco sabia.

Os companheiros pareciam entender a tática, pois embarcaram num modo manhoso de chutar a bola, sempre que conseguiam, com muito esforço, tomá-la dos craques do Malhado. Do meio de campo, eu via o terreiro da casa, o povo já ia se aglomerando para o enterro. Os outros meninos, tão entretidos, não perceberam logo. Eu, sim, pois alheava-me da disputa e fiscalizava o movimento das pessoas minuto a minuto. Era urgente encerrar o jogo, que Linco estava de partida. Baixou em mim uma agonia, era uma tristeza, deu-me um aperto no peito, as lágrimas suadas me queimavam os olhos. Gritei, dentro de mim mesmo:

– Linco, não pode ser! Levante daí, venha jogar com a gente!

Corri até a defesa, pedi a bola ao nosso goleiro. Levantei a cabeça com ímpeto e irrompi contra o time do Malhado. Eu sorria e chorava. Na minha mente desenhava-se um ziquezague: driblei um adversário, dois, três quatro... Arremeti contra o goleiro deles, que saía do gol fechando o ângulo. Parei, como só Linco parava, dei um toque sutil e saí de lado. O gol estava diante de mim, solidário e desamparado. Houve ali uma expectativa, o jogo já terminava. E eu lhe ofertei a bola: “Linco, faça o seu gol!” Então eu mesmo rolei, bem de levinho: e a bola foi chorar no fundo da rede.

Disponivel em: http://www.panoramadapalavra.com.br/conto49.html acessado em: 10/11/09

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lançamento de O pêndulo de Euclides em Feira de Santana-BA




Não deixem de ir e avisar aos amigos de Feira de Santana para duas noites de de encantos e "causos", além de uma conversa saborosa com o escritor Aleilton Fonseca sobre seu novo romance: O pêndulo de Euclides...

Depois passem aqui para me dizer como foi...pois estou a léguas de distância de Feira de Santana...bjs

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ALEILTON FONSECA - ENTREVISTA NO LEITURAS, TV SENADO


O poeta, contista e professor universitário Aleilton Fonseca é o entrevistado do programa Leituras.
Ele apresenta no programa o romance O Pêndulo de Euclides, no qual propõe uma reflexão sobre a mudança de valores motivada pela guerra.
O autor vale-se da experiência de Euclides da Cunha, na Guerra de Canudos, onde passou a ter uma visão mais realista da vida.
A entrevista com o escritor Aleilton Fonseca foi ao ar no domingo, dia 25/10, às 8h e às 20h30.

Link da entrevista de
Aleilton Fonseca ao Leituras


http://www.youtube.com/watch?v=b5TlyqEndlg (parte 1)

http://www.youtube.com/watch?v=2EpUefpUMZI (parte 2)

http://www.youtube.com/watch?v=0upq2hVwBXw (parte final)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Convite para o lançamento de O pêndulo de Euclides

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dueto de realidade e ficção

setembro de 2009

Por Gerana Damulakis

A verdade verdadeira é sempre inverossímil, você sabia? Para tornar a verdade mais verossímil, precisamos necessariamente adicionar-lhe a mentira.

Stiepan Trofímovitch, em Os demônios, de Dostoiévski

Sample Image

O romance O pêndulo de Euclides (Bertrand Brasil, 2009), de Aleilton Fonseca, é, antes de tudo que há para dizer, emocionante. Três intelectuais, após a última palestra sobre a Guerra de Canudos, viajam rumo ao sertão. Um deles é o narrador principal, é aquele que segue viagem, não apenas para ver in loco o rincão da guerra, mas em busca da solução para uma cisma, que traz dentro de si.

As páginas de Aleilton Fonseca estão impregnadas de uma admiração pela matéria histórica, que exala da alma de escritor, como a aura dos iluminados — Um iluminado ali congregou toda uma população (E. da Cunha) —, e, assim, a eleição da matéria é o próprio humo, a terra vegetal fértil, do qual brotou o romance.

O título sugere que, se há um pêndulo, forçosamente haverá um movimento determinado: o movimento pendular traça uma trajetória, que parte de um extremo e alcança seu oposto. Usando a nossa intuição, presumimos que algo mudará no decorrer do romance. Como? Fazendo os leitores palmilharem, — metaforicamente, percorrendo a pé, como se no sertão estivessem —, os confins entre a realidade do sertão e a verdade ficcional com seus mitos.

Se não esquecermos que a fantasia de todo escritor é sua visão do mundo, ou seja, o motor que o desperta e o norteia, então, os emblemas que para ele oferecem os entes e os agentes, sem dúvida, são o que Aleilton cria e alça como uma voz que resgata, num plano que é sede da atenção, tanto na história, quanto na literatura.

Impressiona o vigor do empenho e do comprometimento pessoal da voz narradora — claramente, a do próprio autor —, manifestando entendimentos que não são decorrentes de investigações e análises desordenadas e estouvadas, ou mesmo, apenas ocasionais, mas, sim, de toda uma existência, somando, aos conhecimentos lembrados e anotados, minúcias que engrandecem a ficção, assimiladas pelo autor ao longo de sua vida e de sua cisma. Tal desconfiança, ou suspeita, faz a trama ser uma trama muito bem amarrada. Vale atentar o quanto ela é bem urdida.

Aleilton mostra-se como grande articulador dessa trama tão elaborada a partir de facetas lapidadas por sua visão de escritor, visão temperada com as especiarias da observação crítica e, de novo, advindas da experiência de vida, sem deixar de lado alguma dosagem poética. Essa visão conduz o panorama descritivo e analítico do que ocorreu em Belo Monte. Articulação, que entremeia aos relatos mais esclarecidos, as visões e assombrações do sertão, para traduzir a “fragilidade” do homem forte sertanejo. Aqui, uma lembrança de leitura: o empregado do velho Ozébio e seu enorme medo numa noite escura à procura de um bode perdido — por sinal, uma ótima cena!

O texto é capaz de agitar com suas cenas, incluindo o apelo, o clamor a um Euclides, que chega a Canudos com um juízo e uma presunção, observa, conjetura, e muda de conceito. Tocante a maneira como Aleilton Fonseca fez Euclides envolver-se com um canundense e voltar para a capital, saltar de um trem, que um dia levou-o ao sertão, trazendo uma mudança dentro de si — o pêndulo alcançou o outro extremo: eis a patente a ser registrada. A linguagem clara, mesclada de tons jornalísticos e ensaísticos, também sabe ser descritiva, espartana e rigorosa em relação ao teor indutivo e opinativo, como condiz ao jornalista, pois que há certo ajuste quando o narrador sonha entrevistando Euclides da Cunha, levantando questões mais importantes. Um sonho perfeito se comparado a outro momento, quando houve questões caladas, aquelas sequer articuladas ao término da palestra do início do romance.

A carga de regionalismo no contexto narrativo não afugenta leitores e, algum ou alguns registros da norma popular regional estão, no texto, por conta da ratificação que lhe dá sua condição de escritor. Repetindo, a linguagem é clara, escorreita, afeita tão somente aos regionalismos característicos, sempre como indicativos dos costumes típicos da região do sertão. Daí, o duo de realidade e ficção, o misto de jornalista e ficcionista. A notação sobre a linguagem que não se afasta das sendas da norma culta, a não ser quando termos regionais são necessários, vale uma reflexão. Sim, vale atentar para colocações como as da crítica Moema Olival, por serem muito pertinentes aqui: trata-se da utilização da linguagem autóctone. Se, no romance de Aleilton, não há “a transição da fala regional a serviço de uma proposta literária de fundamentação social, fala como índice de cultura de um povo, como fez um Bernardo Élis, mas também não é a fala regional a serviço da reconstrução literária do universo sertanejo, como em Guimarães Rosa”, a conclusão diz que Aleilton utiliza-se da fala que é sua, “de direito e de saber, sem mediá-la ou estilizá-la”, porque ela é a sua linguagem. Isto porque, e mais uma vez, “não se agita uma causa social, como na obra de Bernardo Élis, nem se busca uma filosofia do sertão, como na obra de Guimarães Rosa”.

É preciso dizer ainda sobre “Os fogos da guerra”, parte V do romance, que conta os quatro fogos, sofridos por Canudos, utilizando a voz de um canudense que, assim como seus companheiros, perdeu a vida: “Caí de bruços, ferido de morte. O resto foi silêncio. Aí tudo acabou”. Ponto alto da ficção. Na parte do romance que apresenta um “Auto do Belo Monte”, parte VII, há um julgamento no fórum: há as vozes criadas, todas dentro de suas conformações aos personagens, desde o Dr. Euclides da Cunha, ao jurista, Dr. Rui Barbosa, ao testemunho do Sr. Antônio Conselheiro, ao acusador Senhor Tempo, a República, até a Senhora Circunstância. A realidade da Guerra está exposta com o intuito de promover um desvendamento total, permitindo avaliar de modo correto o que pode se perder com a possível destruição da memória.

Já foi dito sobre um sonho, ou delírio, que foi a entrevista feita pelo narrador ao escritor Euclides da Cunha. Já foi dito sobre um Auto elaborado no corpo do romance, mas há o melhor: o segredo revelado por Ozébio, personagem mais interessante e muito importante ao longo da narrativa. O segredo? Só é revelado aos leitores do livro.

Em suma: a trama esteticamente elaborada, construída na medida em que vai cingindo vários aspectos do sertão e da guerra ocorrida, abraçando o movimento do homem que escreveu sobre o episódio, do ser que se descobriu na periodicidade diligente do pêndulo, recebe o arremate. Em tal ponto da leitura, os leitores envolvidos na cadência pendular e perante a emoção trazida pela revelação, sentem a vibração do pêndulo, ou melhor, do livro. O romance segue crescendo até a frase final; de saída, não poderia ser outra: “O sertão vai virar cidade e a cidade vai virar sertão”.

É realmente uma obra a ser devidamente considerada: é preciso reputar, apreciar e prezar O pêndulo de Euclides. A exclamação ao fechar o livro é: memorável!


Disponível em: http://www.verbo21.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=544&Itemid=174 acessado em 13/10/09

O pêndulo de Euclides

O pêndulo de Euclides




de Aleilton Fonseca


Páginas: 210

O pêndulo dos sertões


"Se eu estivesse no seminário referido pelo narrador logo na abertura deste livro, teria concordado com o último palestrante. Depois de Euclides da Cunha, Mário Vargas Llosa, Walnice Nogueira Galvão, Edmundo Moniz, Ataliba Nogueira, José Calazans, Roberto Ventura, autores, livros, ensaios e artigos da imprensa, Canudos era um tema exaurido.

Mas Aleilton Fonseca traz uma indagação instigante, colocada na mente inquieta do professor-narrador deste O pêndulo de Euclides. Para discordar de que o conhecimento e a literatura sobre a Guerra de Canudos e seus personagens estejam completos e concluídos, ele se pergunta: “E as vozes do sertão? O que elas têm a dizer?”

Três homens que mal se conhecem, unidos no interesse intelectual e sentimental pela tragédia canudense e na admiração incontida por Euclides da Cunha, partem descontraídos e curiosos para uma curta viagem ao sertão do rio Vaza-Barris, em busca de aventura, divertimento e aprendizado. Um deles encontra a si mesmo.

Creio que Aleilton Fonseca também se encontrou como escritor — com as anotações descritivas, que revelam sua arguta percepção do universo sertanejo; com seus diálogos ensaísticos, que atestam a segurança dissertativa de conceitos e argumentos; e com uma narrativa engenhosa, que encontra vazão no prumo da arte ficcional.

Acima de tudo, Aleilton Fonseca acerta em cheio. Na dicção literária, pelo domínio da linguagem: ritmo, expressão e composição; do erudito ao popular; do reflexivo ao emotivo; do discursivo ao lírico. E no campo retórico, pela clareza de ideias, pela congruência entre valores e conteúdos, pela pertinência dos sentidos e motivações.

Este livro vem preencher uma lacuna. A Guerra de Canudos continua. A luta do sertão ainda sangra. O sertanejo ainda é um forte. Nada está encerrado e pacificado. A escritura da guerra não está completa. Não sem antes ouvirmos o que tem a dizer Aleilton Fonseca. Não sem pararmos para escutar a voz que vem dos sertões."

-Luís Antonio Cajazeira Ramos, poeta-


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Na celebração do centenário de morte de Euclides da Cunha, Aleilton Fonseca homenageia o grande autor de Os sertões. Com a região nordestina da Guerra de Canudos como cenário, O pêndulo de Euclides apresenta um debate inteligente e instigante sobre um dos mais sangrentos conflitos brasileiros. Tudo retratado, de maneira leve e encadeada, pela visão de um professor baiano, um viajante francês e um poeta.

Mas o que há em comum entre esses personagens? Aparentemente nada. Entretanto, a cada página do romance, a relação entre eles fica mais nítida para o leitor: há todo um clima de encanto e curiosidade pela Guerra de Canudos e tudo que a cerca.

No ano de 2003, um professor baiano apaixonado pelo livro Os sertões, de Euclides da Cunha, decide conhecer a famosa região de Canudos (Belo Monte, segundo os conselheiristas) a fim de escrever seu próprio livro. Em sua jornada, ele terá a companhia do francês Dominique e do poeta Alex. Juntos, 106 anos após a quarta batalha entre sertanejos e soldados republicanos, e o extermínio dos seguidores de Antonio Conselheiro, eles partem para uma viagem no tempo.

Ao chegar à cidade atual de Canudos, o primeiro sentimento é de espanto cultural. O comércio é informal, as pessoas são extremamente simples e amistosas, e tudo gira em torno do mito de Antonio Conselheiro. Com o passar dos dias, o doutor começa a encantar-se com as informações que recebe dos sertanejos, principalmente as conseguidas nos bate-papos com seu Ozébio, de 80 anos, um conhecedor misterioso e profundo de todos os detalhes do conflito.

Com uma narrativa surpreendente, ao reproduzir passagens de Os sertões em seus diálogos, O pêndulo de Euclides provoca uma reflexão sobre o que realmente aconteceu no sertão nordestino no fim do século 19. Uma aula sobre as pessoas que lutaram e o cotidiano de suas vidas sob a tutela de Antônio Conselheiro.

O pêndulo de Euclides será lançado também no Seminário Internacional 100 anos sem Euclides, em Cantagalo, no dia 27 de setembro, às 9h30min, no auditório principal do Hotel Pesqueiro da Aldeia. O evento é aberto ao público.

Disponível em: http://www.projetoeuclides.iltc.br/index.php?page=conteudo&conteudo=impre_noticias&id=139 acessado em 13/10/09


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O Pêndulo de Euclides

No centenário de sua morte, Euclides da Cunha ganha os olhares atentos de muitos. Na Bahia, o professor e escritor Aleilton Fonseca lançará o romance O Pêndulo de Euclides, editado pela Bertrand, do Rio de Janeiro. O romance centra-se sobre a Guerra de Canudos e o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. O livro será lançado na Academia de Letras da Bahia neste mês de setembro.

Dois fragmentos de O Pêndulo de Euclides

Do romance, destaco dois trechos em protagonistas discutem o valor dos cordéis encontrados dentre os espólios da guerra pelos soldados:

1 - “O mais pobre dos saques que registra a história”

“ – Euclides afirma que após a guerra os soldados fizeram uma devassa nas casas em ruínas, curiosos, em busca dos despojos. Fizeram o que ele chamou de “o mais pobre dos saques que registra a história”. Encontraram imagens mutiladas, rosários de cocos e os “desgraçados versos”. São mesmo “pobres versos muito malfeitos”, que nem de longe representam a qualidade poética de cordel do sertão.”

2 – “A luta necessária ...” e o “erro histórico”

A propósito de uma visão negativa de Euclides da Cunha do ideário sertanejo, como as idéias contrárias à República, “resultantes do atraso cultural, da ignorância da população sertaneja”, o protagonista Alex dá uma nova interpretação:

“- Paradoxalmente, a visão negativa de Euclides sobre os sertanejos joga a favor de Canudos. Eles não tinham formação e informação para entender as ideias republicanas. Portanto, não eram inimigos da República, mas sim seus credores em termos de ensino e assistência. Por isso, Euclides conclui que os sertanejos requeriam outra reação do governo. Ou seja, a luta necessária não seria aquela da forma militar e dos canhões, mas sim através da educação, das letras, das luzes, do progresso e da cidadania. A partir disso, Euclides interpreta a intervenção militar como um erro histórico, como um crime da nacionalidade contra patrícios, de que seu livro se torna uma grande e ruidosa denúncia.”

“A luta necessária ...” e outros “erros históricos” ?

A narrativa bíblica começa com um Paraíso, um Jardim do Édem, e termina numa mega tragédia, num Apocalipse. Há quem diga que a imagem do paraíso terrestre e seu Jardim do Édem se situaria na babilônia. Concretamente, lá é que foram construídos os Jardins Suspensos da Babilônia, uma das maravilhas do Mundo Antigo. E em toda intervenção militar, ainda para ficarmos na Babilônia de hoje, para muitos o apocalipse é real.

Curiosamente, essa passagem sobre Canudos insiste em trazer à lembrança à Guerra do Iraque, apenas para fazer referência, não ao apocalipse de muitos milhares de iraquianos e suas famílias, mas para fazer referência ao Jardim do Édem que poderia ser aquela rica região, berço das mais antigas civilizações humanas. No caso do Iraque, é possível pensar que a intervenção militar também foi um erro histórico e que a intervenção poderia ser de outra natureza?


Escrito por Agenor Gasparetto


Disponível em: http://agenorgasparetto.zip.net/arch2009-08-30_2009-09-05.html acessado em 13/10/09

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O sabor das nuvens - Aleilton Fonseca


Era aquele cheiro cálido de biscoitos no formo. Invadir o portão era sempre o sonho, a vontade de ver como se faziam biscoitos, quantas mãos os amassavam, enfornavam, acomodavam nas embalagens coloridas. Mas não podia, que lá sempre havia o homem a vigiar, sozinho, quieto na guarita. Ele se ocupava em ouvir um rádio de pilha, enquanto os nossos olhos escalavam o ar para colher a fumacinha, um sorriso sorrateiro da chaminé multiplicando-se em nuvens baixas. Elas levavam aos arredores de nossas casas as cores silenciosas daquele gosto morninho. Dava-nos vontade de saborear a fábrica inteira.

Era uma enorme casa. O ruído dos geradores era o aviso, o coração da fábrica pulsava: distraía-nos como um motor de nave em vôo, zumbindo nos ouvidos curiosos. Mas, o portão! Sempre fechado aos estranhos – estranho, eu?! –, a guarita e seu morador solitário, escutando aquelas notícias. Seu mundo saía do rádio e ali mesmo se esvaía. E as letras vermelhas, iradas, gritavam: ENTRADA PROIBIDA
Agora, não: eu ia vencendo portão adentro, de repente escancarado; nem portão que era, mas a entrada que me chamava sem impor condições:
– Ei, o senhor está procurando alguma coisa? - um menino me atalhou.
– Biscoitos! – respondi, sem deixar escapar-me o fio de meu próprio tempo.
– No meio do mato? - ele insistiu.
– Não, no meio da fábrica.
– ?!
– Huummm. Esse cheiro! - murmurei, sentindo-me orvalhar nos lábios.
– Cheiro de mato e insetos - ele pontuou-se no real.
– Não, biscoitos quentinhos.
– ?!
– Veja a fumaça da chaminé.
O menino olhou para as nuvens, que se iam altas e ensolaradas, me encarou e, distanciando-se um pouco, me observava de um certo soslaio, bem que desconfiava de mim. Eu estava um doido? Ambos fizemos pausas, entrecortadas de olhares esconsos. E, nesse diálogo, já de somente olhar, nos tangenciávamos, nos recortes do tempo. Cada qual seus quais, com suas estampas, em que a vida pode ser revisitada.
Era um menino e sua bicicleta, nas rodas de seu presente. Eu, então... Ele encostou o brinquedo numa estaca sobrevivente, entrou na fábrica saltando por sobre um resto de parede. E me disse que seu avô trabalhara ali antigamente. Ao se aproximar, ele afastou as ramagens tenras, por entre as touceiras de mato. Colheu um melão-de-são-caetano e o apertou entre os dedos, as partes se abrindo em estrela, expondo as carnes vivas e sementes do fruto silvestre. Era bonito, desde menino eu achava: pena que não se prestava a melhor degustação, só servia para alimentar o sonho. Aquele fruto viera do passado, entrando portão adentro para tomar conta de tudo. Eram as ramagens da mão do tempo.
– Olhe isso!
O menino tocou o pé na parede e me disse que estava tudo podre. O telhado viera abaixo, os cupins devoraram as madeiras. Eu ouvia o relato, mas não acompanhava seus olhos. Ouvia mesmo era a engrenagem trabalhando. As máquinas que nunca vi, apenas as imaginara, pelo som do trabalho que os cobogós me avisavam. Dois tijolos saltaram, quebrando-se sobre o capim rasteiro que assoalhava o lugar. Eram dois tijolos que se esmigalhavam, mas eu os revia intactos, na parede firme, na cor do óxido de terra, sempre novos.
O menino montou de um salto, saiu cavalgando a bicicleta, ia-se equilibrado. Segui atrás, sem saber ao certo por que o acompanhava. Lá adiante, vi quando ele entrou num terreiro, a casa simples mais ao fundo. Continuei caminhando, até me acercar da grade baixa do portão. Na frente da casa compunham-se pequenos canteiros de flores, acenavam-me ali nessa busca as rosas e seus espinhos. Havia uma aroeira jovem, sob a qual um banco de madeira convidava à sombra:
– Ô de casa! – me arrisquei a novo rumo.
Um homem de boa idade assomou à porta, logo me averiguava as feições, certamente para ver se me conhecia de outro tempo ou lugar. Ele veio ao meu encontro. Senti o seu esforço a esmo: não, ele não me conhecia. Eu desatei a cena:
– Boa-tarde. O senhor é seu...?
– Ivo, eu mesmo. Boa tarde. É alguma coisa? – ele respondeu e perguntou, reticente.
– Nada. Ia passando, seu neto me disse que o senhor trabalhou na antiga fábrica, então...
– Ah, sim, trabalhei, né? Mas isso faz muitos anos, pra lá de uns trinta! – ele informou, enquanto apontava o banco de madeira, num convite.
– É, faz tempo! - comentei, enquanto nos sentávamos à sombra.
– O senhor veja: o tempo passa, leva tudo. Leva a gente também - ele filosofou, buscando apoio nas nuvens.
– O senhor se importaria de me falar um pouco daquele tempo, da fábrica, como era antigamente?
A primeira frase de sua resposta foi um gesto silencioso, de quase em quase, desde seus olhos para os meus. Depois seu olhar fugiu para os galhos da aroeira que nos assistia. Esse seu Ivo, avô do menino, estava já encabulado. Eu lhe trazia aquele assunto morto, num repente voltando à luz da tarde. Ele estava surpreso. Depois de se cultivar absorto, num quase sorriso, ele murmurou, com jeito de certa tristeza:
– Ah, não sei lhe contar, não. Não sei de lá, nada.
– Mas, e o serviço, lá dentro? – eu quis insistir.
– Lá dentro, não lembro.
– Mas se o senhor trabalhou lá?!
– Mas eu só trabalhava fora.
– Ah – murmurei, desapontado.
– Quem é o senhor? – ele reverteu a entrevista, mas já eu desanimara.
Fiquei de pé, olhei a aroeira tranqüila, ele também se levantou. O menino vinha de volta, os olhos acesos em nossa direção.
– Contou a ele, vô? – disse, com o ar orgulhoso.
– O quê?
– Que o senhor era vigia da fábrica?
Para mim, esta revelação do menino, diante da fala vazia do seu avô. Meio a contragosto, o velho esfregou as mãos, com os dedos entrelaçados, e confirmou:
– Eu era só mesmo vigia.
Os três ficamos calados. Eu reconhecia naquele homem a função que nos impedia de alimentar a curiosidade, de nos arriscar à prova de alguns biscoitos. Ele ficava de guarda na guarita para que os meninos vadios não entrassem. No seu sem jeito, ele confessava isso, meio que pesaroso, até mesmo descontente. Restava-nos aquele silêncio em branco.
Então eu cumprimentei o velho com um gesto e disse “até logo”. Aquilo era mesmo um adeus. Ele, cabisbaixo, nem respondeu. Segui pelo caminho de barro, sem ânimo sequer de olhar para trás. De repente, ouvi que o menino me seguia, em meu rumo direto de volta à fábrica. Meus olhos ainda iam cheios das imagens que aquele avô não pudera me contar. Toda a fábrica para ele resumia-se à mínima guarita, o tamanho exato de sua história. Eu me senti pleno, tinha a fábrica inteira dentro de meus olhos. E agora ia seguindo, o menino guiando, sem palavras quais que fossem.
– Essa fábrica foi importante aqui, o senhor sabe? – ele se esforçava para preencher a página que o seu avô rasgara sem querer.
Eu fui seguindo pelo acostamento da pista recém-asfaltada, enquanto o menino me acompanhava, pedalando devagar. Aproximei-me do velho prédio e agora eu via de fato as ramagens que invadiam os restos das paredes, entrando e saindo pelos cobogós sobreviventes.
De novo, entrei pelo vão aberto das ruínas da guarita onde ficava o vigia: era a boca do tempo que tudo engolira. E percorri aquele mapa da fábrica, um debucho antigo perdido nas memórias envelhecidas de uns e sepultadas de outros. Eu rabiscava as imagens, preenchendo-me de todos os talvezes. Riscava por onde fosse que ficava cada máquina, onde era o forno, onde se empacotava, tudo agora um ex-existir das coisas e dos gestos. Os operários de novo a postos, suas vozes e passos abafados pela vibração das máquinas. Quantas vezes eu sonhara ser um deles! Dentro de mim a massa ia engrossando, os biscoitos tomando forma e daí ao forno, saindo de lá quentinhos para os pacotes e para as latas.
Eu não podia me perder daquele cheiro. Eu precisava me repor no saber experiente que a vida desbota e destrata, nas rimas certas do texto, a súmula do sim e do nada, as respostas que a gente colhe como frutos de safra no pomar. Estou aqui, mas cheguei tarde, contudo em data aprazada: em vez de massa, preparo um outro tipo de fermento.
O relógio sumiu de minha rota, eu me vi num ponto suspenso, as reticências entre duas vírgulas absortas, antes de assinar aquela sentença. Eu tinha de reconhecer: três gerações, o avô, eu e o menino vivíamos cada um sua própria alegoria, cada qual a mais plausível e incerta. Em cada um de nós havia uma fábrica diferente brotando de dentro do mato, que invadia os nossos olhos e os nossos dias. Dos três sobreviventes do sonho, apenas eu tinha pena e papel; e sabia sentir as cores, o gosto e o sabor das nuvens.
Tudo sobrevive nos sulcos que as letras escavam sobre o mudo pergaminho. Debaixo dos riscos, sobrevivem as demais escritas.
Eis a fábrica. Entrei de novo, sem licença. Eu andava a esmo, pelo meio do salão de trabalho, tropeçando nos matos rasteiros. Eu só queria repor as peças em seus lugares, ligar as máquinas, aquecer o forno e despertar a chaminé. O menino de novo me observava, talvez curioso ante minha empreitada. Eu perscrutava-lhe uma pergunta que ele não alcançou formular. Eu, também funcionário, em certo depois, minha função era a última de todas. Enfim, eu agora a exercia. Ouvi que a fábrica apitava e me senti arrepiar inteiro. Estava findo esse turno de trabalho. Então eu fui saindo.
– Esta fábrica está morta.
O menino disse isto e retomou sua bicicleta. Deu uma última olhada, foi-se a guiar para longe, fazendo girar o tempo presente. Era já o cair da tarde; e dentro de mim o apito da fábrica chorava. Eu via de novo a fumaça formando nuvens e provava o cheiro morno dos biscoitos. Continuei caminhando, sem olhar para trás, os matos já não me incomodavam. Era hora, e eu ia saindo pelo mesmo portão aberto, por onde as minhas lágrimas passavam.

(Do livro O Desterro dos Mortos (Relume Dumará), 2001)


Disponivel em: http://contosbrasileiros.blogspot.com/ acessado em 06/10/09

sábado, 26 de setembro de 2009

Um novo Sertão na Literatura

Por Rinaldo de Fernandes


A figura quase lendária de Nhô Guimarães [em Nhô Guimarães: romance-homenagem a Guimarães Rosa, do escritor baiano Aleilton Fonseca], permanentemente associada à imagem do marido Manu ("sabiam ser bons amigos"), de quem a narradora sente muita saudade, é sempre recordada com reverência, como se presente estivesse: "Eu vi, vivi, convivi. Para mim está muito bem vivo".
O personagem Nhô Guimarães, repita-se, é alter ego de Guimarães Rosa, sendo que alguns dados da biografia deste último são sempre postos em cena pela narradora (Aleilton Fonseca, na entrevista, citada três colunas atrás, a Lima Trindade, afirma: "Procurei inserir os dados históricos no ficcional, como se também fossem - e agora são! - uma ficção"; afirma ainda: "A realidade é apenas um marco de referência que garante a verossimilhança"). Dois desses dados, pela sua importância, chamam muito a atenção: o primeiro é aquele que alude à famosa viagem pelo sertão, em 1952, na qual Guimarães Rosa, acompanhado do vaqueiro Manuel Narde, o Manuelzão, anotou muito sobre a fauna, a flora, a fala e as fabulações sertanejas, material que será aproveitado na composição do Grande sertão: veredas. A viagem é assim referida no romance: "Ele fez uma travessia longa, de muita importância para seus escritos. Se aventurou nas poeiras, passagens das mais supimpas, com os demais. [...] No terreiro todo aí fora se arrancharam para o descanso e o de-comer, os animais espalhados convivendo amigos. [...] Nhô Guimarães por tudo a saber e anotar, no sempre, os seus riscos e debuxos no papel. Os aconteceres do mais sertão, lhe dissessem de tudo. [...] Nhô Manuelzão era quem mais sabia ensinar, sempre bom de prosa e de aventura. Os demais, estes cismavam: onde já se viu boiadeiro assim fanfando, todo lorde, bem do seu, de finos óculos? Essa viagem era para retratos e anotações [...], para estampar a travessia em papel, para outra gente saber de tudo e conhecer as aventuras de Nhô Guimarães pelos Gerais."

Disponível em :http://www.auniao.pb.gov.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=9132&Itemid=74 Acessado em: 29/07/09

Não percam!!!

Ultimos dias de apresentação da peça Nhô Guimarães! Apenas hoje dia 26 e amanhã 27 de setembro em salvador do Teatro SESI Rio Vermelho

O pêndulo de Euclides: outras notícias

>O texto abaixo foi retirado do Diário de Taubaté online

21/08/2009

Uma viagem ao centro da Terra de Canudos

Na celebração do centenário de morte de Euclides da Cunha, Aleilton Fonseca homenageia o grande autor de Os sertões. Com a região nordestina da Guerra de Canudos como cenário, O pêndulo de Euclides, novo romance do escritor baiano, será lançado dia 24, segunda-feira, pela Editora Bertrand Brasil. A obra apresenta um debate inteligente e instigante sobre um dos mais sangrentos conflitos brasileiros. Tudo retratado, de maneira leve e encadeada, pela visão de um professor baiano, um professor francês e um poeta.

Mas o que há em comum entre esses personagens? Aparentemente nada. Mas, a cada página do romance, a relação entre eles fica mais nítida para o leitor: há todo um clima de encanto e curiosidade pela Guerra de Canudos e tudo que a cerca.

No ano de 2003, um professor baiano apaixonado pelo livro Os sertões, de Euclides da Cunha, decide conhecer a famosa região de Monte Castelo a fim de escrever seu próprio livro. Em sua jornada, ele terá a companhia do francês Dominique e do poeta Alex. Juntos, 106 anos após a quarta batalha entre sertanejos e soldados republicanos, e o extermínio dos seguidores de Antonio Conselheiro, eles partem para uma viagem no tempo.

Ao chegar a Monte Castelo, o primeiro sentimento é de espanto cultural. O comércio é informal, as pessoas são extremamente simples e amistosas, e tudo gira em torno do mito de Antonio Conselheiro.

Com uma narrativa surpreendente, ao reproduzir passagens de Os sertões em seus diálogos, O pêndulo de Euclides provoca uma reflexão sobre o que realmente aconteceu no sertão nordestino no fim do século 19. Uma aula sobre as pessoas que lutaram e o cotidiano de suas vidas sob a tutela de Conselheiro.

Aleilton Fonseca nasceu na cidade de Firmino Alves, Bahia, em 1959, e reside em Salvador. É graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia, com mestrado pela Universidade Federal da Paraíba e doutorado pela Universidade Estadual de São Paulo. Foi professor na Université d’Artois, na França, em 2003. Leciona Literatura na graduação e na pós-graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana, com pesquisa sobre literatura e imagens urbanas. Escreve ficção, poesia e ensaio, tendo 12 livros publicados, dentre eles, Nhô Guimarães (Bertrand Brasil, 2006).

Título: O pêndulo de Euclides

Autor: Aleilton Fonseca

Editora Bertrand Brasil

Número de Páginas: 210

Preço: R$ 34,00

Disponível em: http://www.diariotaubate.com.br/display.php?id=14606




Na capital baiana, a programação em homenagem a Euclides da Cunha será marcada ainda pelo lançamento de dois livros: O pêndulo de Euclides (Bertrand Brasil), romance de Aleilton Fonseca, e o ensaio bibliográfico Euclides da Cunha e a Bahia (Ponto e Vírgula), de Oleone Coelho Fontes.


O romance de Aleilton, que é professor do departamento de Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana, fixa sua narrativa no universo da Guerra de Canudos e da obra-prima de Euclides da Cunha, Os sertões. O lançamento em Salvador será durante um seminário sobre a obra euclidiana, na Academia de Letras da Bahia, dias 30 e 31 de outubro, mas antes o livro será lançado em dois eventos, em São Paulo (no fim deste mês) e no rio de Janeiro (início de setembro).

Disponível em: http://atarde.com.br/cultura/noticia.jsf%3Bjsessionid=500C6FC965EECE3E0C8329C68C4FE32E.jbossdube1?id=1208937



outras notícias :


http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/artigos/cem-anos-da-morte-de-euclides-da-cunha/

http://www.atarde.com.br/cultura/noticia.jsf%3Bjsessionid=1E87BAF825458F3DE983FDDB7CB5DA56.jbossdube1?id=1208937

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

CURSO CASTRO ALVES 2009
IV COLÓQUIO DE LITERATURA BAIANA
16 a 18 de setembro - das 14h30 às 19h00 - Carga horária: 12 h
Academia de Letras da Bahia
PONTO DE CULTURA ESPAÇO DAS LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA E DIVERSIDADE CULTURAL- DLA/UEFS
Local: ALB - Av Joana Angélica, 198 Nazaré- Salvador- BA - tel (71) 3321-4308

PROGRAMA

16/09 - Quarta-feira

14h30 - Sessões 1, 2 e 3 - Comunicações de Literatura Baiana

17h00 - Leituras de Castro Alves: depoimento e comentários de poemas

Aleilton Fonseca (UEFS/ALB) e Myriam Fraga (FCJA/ALB)

17/09 - Quinta-feira

14h30 - Sessões 4, 5 e 6 - Comunicações de Literatura Baiana

17h00 - Leituras de Castro Alves: depoimento e comentários de poemas

João Eurico Matta (ALB)

18/09 - Sexta-feira

14h30 - Sessões 7, 8 e 9 - Comunicações de Literatura Baiana

17h00 - Palestra: Em torno do poema "A Maciel Pinheiro", de Castro Alves

Waldir Freitas Oliveira (ALB)

18h00 - Encerramento



Presidente: Edivaldo M. Boaventura (ALB)
Coordenador: Aleilton Fonseca (UEFS/ALB)


sábado, 5 de setembro de 2009

Nova obra de Aleilton Fonseca homenageia Euclides da Cunha

Na celebração do centenário de morte de Euclides da Cunha, Aleilton Fonseca, professor doutor do Departamento de Letras e Artes Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), homenageia o grande autor de Os Sertões. Com a região nordestina da Guerra de Canudos como cenário, O Pêndulo de Euclides, novo romance do escritor baiano, apresenta um debate inteligente e instigante sobre um dos mais sangrentos conflitos brasileiros.

Tudo retratado, de maneira leve e encadeada, pela visão de um professor baiano, um viajante francês e um poeta. Mas o que há em comum entre esses personagens? Aparentemente nada. Entretanto, a cada página do romance, a relação entre eles fica mais nítida para o leitor: há todo um clima de encanto e curiosidade pela Guerra de Canudos e tudo que a cerca.

O lançamento será quarta-feira (3/9), às 19h30, na Livraria da Vila, em São Paulo, localizada na rua Fradique Coutinho. O público de Feira de Santana e de Salvador também será prestigiado com o lançamento, em data ainda a ser confirmada.

A construção da obra começa em 2003, ano em que Aleílton Fonseca, professor baiano apaixonado pelo livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, decide conhecer a famosa região de Canudos (Belo Monte, segundo os conselheiristas) a fim de escrever seu próprio livro. Na jornada, ele terá a companhia do francês Dominique e do poeta Alex. Juntos, 106 anos após a quarta batalha entre sertanejos e soldados republicanos, e o extermínio dos seguidores de Antonio Conselheiro, eles partem para uma viagem no tempo.

Ao chegar à cidade atual de Canudos, o primeiro sentimento é de espanto cultural. O comércio é informal, as pessoas são extremamente simples e amistosas, e tudo gira em torno do mito de Antonio Conselheiro. Com o passar dos dias, o doutor começa a encantar-se com as informações que recebe dos sertanejos, principalmente as conseguidas nos bate-papos com seu Ozébio, de 80 anos, um conhecedor misterioso e profundo de todos os detalhes do conflito.

Com uma narrativa surpreendente, ao reproduzir passagens de Os Sertões em seus diálogos, O Pêndulo de Euclides provoca uma reflexão sobre o que realmente aconteceu no sertão nordestino no fim do século 19. Uma aula sobre as pessoas que lutaram e o cotidiano de suas vidas sob a tutela de Antônio Conselheiro.

Aleilton Fonseca nasceu na cidade de Firmino Alves, Bahia, em 1959, e reside em Salvador. É graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia, com mestrado pela Universidade Federal da Paraíba e doutorado pela Universidade deo Paulo. Foi professor na Université d’Artois, na França, em 2003. Leciona Literatura na graduação e na pós-graduação da Uefs, com pesquisa sobre literatura e imagens urbanas. Escreve ficção, poesia e ensaio, tendo 12 livros publicados, dentre eles, Nhô Guimarães (Bertrand Brasil, 2006). Recentemente participou do livro de contos Todas as guerras (Bertrand Brasil, 2009).

Trecho do livro:

“Euclides vivera e observara muitas situações em poucos dias, como aríetes em seu antigo aprendizado. Em sua mente alternavam-se teorias e vivências, livros e fatos, discursos e falas, sábios e homens. Seu espírito movia-se como a haste crucial de um pêndulo. E, se não parava de oscilar totalmente, buscava agora um ponto de equilíbrio. Seus saberes, erigidos em conceitos, davam passagem aos ensinos da experiência e da compreensão. Ele sentia, de maneira difusa, rápida e irrevogável, uma mudança em marcha em sua consciência. Indagava-se intimamente, travando um debate consigo mesmo. Chegava a novas conclusões.

O pêndulo de Euclides encontrava, enfim, em sua base o ponto

exato do verdadeiro saber. E ele descobria-se outro, diante de si

mesmo: (...)

— Agora eu sou outro homem.”

(p.151)

Texto: André Sequeira / Conteúdo e Comunicação

Disponível em: http://www.uefs.br/portal/noticias/2009/nova-obra-de-aleilton-fonseca-homenageia-euclides acessado em:05/09/09

O pêndulo dos sertões


Se eu estivesse no seminário referido pelo narrador logo na abertura deste livro, teria concordado com o último palestrante. Depois de Euclides da Cunha, Mário Vargas Llosa, Walnice Nogueira Galvão, Edmundo Moniz, Ataliba Nogueira, José Calazans, Roberto Ventura, autores, livros, ensaios e artigos da imprensa, Canudos era um tema exaurido.
Mas Aleilton Fonseca traz uma indagação instigante, colocada na mente inquieta do professor-narrador deste O pêndulo de Euclides. Para discordar de que o conhecimento e a literatura sobre a Guerra de Canudos e seus personagens estejam completos e concluídos, ele se pergunta: “E as vozes do sertão? O que elas têm a dizer?”
Três homens que mal se conhecem, unidos no interesse intelectual e sentimental pela tragédia canudense e na admiração incontida por Euclides da Cunha, partem descontraídos e curiosos para uma curta viagem ao sertão do rio Vaza-Barris, em busca de aventura, divertimento e aprendizado. Um deles encontra a si mesmo.
Creio que Aleilton Fonseca também se encontrou como escritor — com as anotações descritivas, que revelam sua arguta percepção do universo sertanejo; com seus diálogos ensaísticos, que atestam a segurança dissertativa de conceitos e argumentos; e com uma narrativa engenhosa, que encontra vazão no prumo da arte ficcional.
Acima de tudo, Aleilton Fonseca acerta em cheio. Na dicção literária, pelo domínio da linguagem: ritmo, expressão e composição; do erudito ao popular; do reflexivo ao emotivo; do discursivo ao lírico. E no campo retórico, pela clareza de ideias, pela congruência entre valores e conteúdos, pela pertinência dos sentidos e motivações.
Este livro vem preencher uma lacuna. A Guerra de Canudos continua. A luta do sertão ainda sangra. O sertanejo ainda é um forte. Nada está encerrado e pacificado. A escritura da guerra não está completa. Não sem antes ouvirmos o que tem a dizer Aleilton Fonseca. Não sem pararmos para escutar a voz que vem dos sertões.


Luís Antonio Cajazeira Ramos, poeta

Disponível em: http://www.edicoesbestbolso.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=24231 em:05/09/09

Outros sites que comentaram a publicação de O pêndulo de Euclides:

http://www.diariotaubate.com.br/printable_version.php?id=14606

http://www.atarde.com.br/cultura/noticia.jsf?id=1208937

http://opiniaoenoticia.com.br/opiniao/artigos/cem-anos-da-morte-de-euclides-da-cunha/

http://www.projetoeuclides.iltc.br/index.php?page=conteudo&conteudo=impre_noticias&id=118

domingo, 30 de agosto de 2009

Encontros Literários na ALB



Venha participar do Encontros Literários na ALB!!!

Tenha tardes agradáveis de bate-papo com escritores, com leituras e discussão de textos.

Academia de Letras da Bahia, aproximação de leitores com autores baianos!

Local: ALB
Av. Joana Angélica, 198 - Nazaré
Tel.:71-3321-4308

Programação

04/09/2009 às 17 h

02/10/2009 às 17 h

06/11/2009 às 17 h

04/12/2009 às 17 h

Seminário trajetória criativa: 50 anos de Aleilton Fonseca



Seminário trajetória criativa: 50 anos de Aleilton Fonseca


Local: Instituto de letras da UFBA
Data: 10 de setembro de 2009
Horário: 13 a 17 h

Professor Aleilton Fonseca da Uefs recebe homenagem na Ufba


O escritor e professor da Uefs (Universidade Estadual de Feira de Santana), Aleilton Fonseca, será homenageado nesta quinta-feira,10 de setembro, pela Ufba (Universidade Federal da Bahia), com a realização do seminário "Trajetória Criativa: 50 anos de Aleilton Fonseca". O evento será realizado no Instituto de Letras da Ufba, no Labimagem, das 13 às 17 horas.

A atividade faz parte do projeto de pesquisa "Migrações: o Escritor e Seus Múltiplos", do qual Fonseca é um dos escritores estudados. Os professores Adeítalo Pinho (Uefs), Benedito Veiga (Uefs) e Carlos Ribeiro (ALB/ UFRB) vão falar sobre aspectos da produção literária do autor, sua poesia, seu conto e seus romances. Outros depoimentos serão dados por Rosana Patrício (Uefs), Antônia Herrera (Ufba) e Edinilson Mota (Irdeb).

Disponível em: http://www.universia.com.br/noticia/materia_dentrodocampus.jsp?not=50166

sábado, 29 de agosto de 2009

Quem puder, compareça!




Nhô Guimarães


Teatro SESI RIO VERMELHO

DE 08 de agosto a 27 de setembro

Em Salvador


Divulguem ... e não deixem de comparecer!


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Euclides e Canudos por Aleilton Fonseca

Entrevista retirada do PROSA E VERSO ON LINE - Jornal O Globo, do Rio de Janeiro

ENTREVISTA COM ALEILTON FONSECA

Por: Mànya Millen 17/08/09

O baiano Aleilton Fonseca, de 50 anos, já havia transformado um grande nome das letras brasileiras em personagem de romance com "Nhô Guimarães", em 2006. Depois de Guimarães Rosa, chegou a vez de Euclides da Cunha, homenageado com "O pêndulo de Euclides" (Bertrand Brasil) em seu centenário de morte. Ao construir um romance em torno de um escritor e uma obra ("Os Sertões) tão monumentais, o professor de literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, e autor de mais de dez livros, sabe que corre riscos, como contou nesta entrevista ao blog. Porém, lembra que "o discurso romanesco registra certos fatos reais, mas os submete ao interesse da ficção". Aleilton estará participando nesta segunda-feira, às 19h30m, do projeto Prosa nas Livrarias na Travessa do Shopping Leblon, onde conversará com o público sobre sua obra, ao lado do professor Leopoldo M. Bernucci e da pesquisadora Nísia Trindade Lima.

Você já tem um outro romance-homenagem, “Nhô Guimarães”, inspirado em Guimarães Rosa. Fale um pouco sobre a primeira experiência e sobre a opção por esse tipo de narrativa.

Em 1979, aos 19 anos, cursando Letras na UFBA, em Salvador, conheci, li e comentei alguns contos de Guimarães Rosa e me impressionei muito com as histórias. Por ser de origem rural, eu me identificava com a linguagem, os enredos, as situações, as personagens e o imaginário presentes em suas narrativas. Mais tarde, como professor, passei a ser leitor e divulgador de sua ficção junto aos meus alunos. Como escritor, no ano 2000 tive a ideia de escrever uma história em que uma personagem sertaneja, de 80 anos, narrasse as viagens de Guimarães pelos sertões dos Gerais. Eu sabia que o escritor, nascido na pequena e encantadora cidade mineira de Cordisburgo, ainda muito jovem fora para a capital fazer seus estudos. Ao retornar ao interior, como médico, passou a se interessar pela cultura local: a linguagem, as histórias e diversos aspectos do imaginário popular sertanejo. Recolhia tudo e anotava em seus cadernos de campo. Conhecia pessoas que transformava em personagens de seus contos, como Manuelzão, por exemplo. Resolvi escrever uma ficção sobre isso. Assim surgiu o conto "Nhô Guimarães", publicado em 2001, no livro "O desterro dos mortos (Ed. Relume Dumará). Em seguida, expandi a narrativa e a transformei em romance, alargando os horizontes do discurso da narradora. O romance saiu em 2006, pela Ed. Bertrand Brasil. Nele, a narradora sertaneja fala de sua vida, de seu falecido marido, de seu filho, que se foi embora para a cidade grande. E ela fala, sobretudo, das visitas de Rosa à sua casa, quando proseava com o seu marido Manu, ouvindo, contando e inventando histórias. O romance foi adaptado como peça teatral e acaba de estrear no Teatro do Sesi Rio Vermelho, em Salvador, com direção de Edinilson Motta Pará e interpretação de Deusi Magalhães. E Guimarães Rosa fica muito bem como personagem de ficção. Foi uma experiência gratificante e, ao que parece, satisfatória. Optei por esse tipo de narrativa porque ela permite um instigante diálogo textual, em que realidade e imaginação amalgamam-se, dando origem a uma narrativa híbrida. É um desafio difícil e tentador.

Como criar uma voz própria a partir de personagens e obras (“Os Sertões”, no caso de “O pêndulo de Euclides”) tão conhecidos e celebrados? Qual o caminho para escapar da mera repetição de ideias e histórias que estão no original?

Neste tipo de narrativa, o risco da imitação é insidioso, como uma ameaça sempre presente. Resta ler o livro e verificar se o autor conseguiu se sair bem do desafio. O caminho para escapar da mera repetição é utilizar as referências como um ponto de partida e adensar o própria criação, dando bastante fôlego à parte ficcional. No caso de Guimarães, alguns de seus traços biográficos são diluídos e reelaborados na lógica da ficção, uma vez que ele passa a ser uma personagem construída segundo a perspectiva da narradora. Já Euclides da Cunha é uma referência constante do debate central do enredo, quando suas ideias são discutidas pelas personagens letradas e pelo narrador sertanejo. Os narradores transformam-no em personagem de ficção, revelando atos e pensamentos que não estão registrados na história oficial. Assim, a ficção assume uma função suplementar, ao criar situações que extrapolam os registros oficiais e explicitam facetas apenas presumíveis dos escritores em questão.

Para escrever “O pêndulo de Euclides” você disse ter visitado alguns dos lugares pelos quais o escritor passou. Essa “pesquisa de campo” ajuda a fundamentar a obra ou corre-se o risco de tanta realidade embaçar a criatividade, o espaço reservado aos voos da imaginação?

O risco existe, mas deve ser contornado. A solução é estabelecer os limites dos fatos reais e expandir os voos da imaginação. Os dados oficiais constituem marcos de verossimilhança, ajudando a fundamentar a obra. Mas não devem limitá-la, pois seu compromisso não é documental, mas estético. A partir dos dados reais, a ficção deve se desenrolar de forma autônoma, extrapolando as informações já conhecidas, de forma a instigar o leitor e desafiar as versões oficiais. Para concluir o romance "Nhô Guimarães", visitei a cidade de Cordisburgo; fui à casa de Guimarães Rosa. Para concluir "O pêndulo de Euclides", fui a Canudos e visitei detidamente o local onde se travou a guerra, hoje um Parque Estadual aberto à visitação pública. Vi e fotografei alguns lugares, vi objetos da guerra de Canudos e destaquei vários fatos da história. Mas só entraram na trama aqueles dados que convergem para a lógica do enredo, diluindo-se como parte integrante do discurso ficcional. No romance, Euclides torna-se personagem de ficção e age como tal, para além dos seus registros biográficos. Assim, o discurso romanesco registra certos fatos reais, mas os submete ao interesse da ficção, que discute, extrapola e até refuta determinados aspectos das versões oficiais. Nesse caso, a ficção está acima dos fatos.

O romance se apresenta como uma nova reflexão sobre a Guerra de Canudos. Como entra a figura de Euclides nesse contexto?

De fato, o romance retoma algumas questões da guerra que ainda não estão resolvidas. Tal como nas fontes oficiais, Euclides aparece inicialmente como um intelectual integrado à cultura litorânea, a favor da República e defensor da ação militar contra Canudos. Antes de ir para a região do conflito, ele escrevera dois artigos intitulados "A nossa Vendeia", nos quais deixa clara a sua posição, exaltando a marcha do Exército contra o Arraial do Belo Monte, ou Canudos, reduto dos adeptos de Antônio Conselheiro. No entanto, ao chegar ao local da guerra e presenciar os terríveis combates, nos quais as forças republicanas, treinadas e bem armadas, atacam e dizimam uma população de camponeses sertanejos, ele começa a duvidar de suas convicções, passando a ver a guerra como um crime contra um povo destemido que lutava por terra, fé e honra. O romance procura revelar ficcionalmente aquilo que é presumido mas não registrado na história, ou seja, as reflexões que levam Euclides da Cunha a reavaliar o conflito e, assim, mudar de opinião sobre a guerra. Essa mudança resulta de sua experiência e de sua compreensão profunda dos fatos. Assim, a ficção procura, à sua maneira, preencher os vazios da história, dramatizando o processo de tomada de consciência do autor, que resolve escrever o livro "Os sertões" como denúncia do crime cometido contra o povo sertanejo.


Você já tem em mente algum outro romance-homenagem? Qual seria o escritor que você gostaria de transformar em livro, independentemente de datas?

Tenho diversos projetos de livros, entre contos e romances, que vou desenvolvendo aos poucos. Alguns são pura ficção, outros pretendem retomar fatos reais como ambiência para enredos de ficção. Gosto desse tipo de escrita. Isso faz meu estilo. Um dos meus projetos é escrever sobre o poeta francês Charles Baudelaire, que teve uma trajetória pessoal e artística muito intensa e intrigante. A vida dele dá um romance. Enfim, na justa medida, realidade e ficção podem compor uma boa história. O mais importante é que o livro tenha qualidade como narrativa, com equilíbrio entre os dados da realidade e os aportes da imaginação. Narrar é preciso. E o leitor é o juiz.


Disponível em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/08/17/euclides-canudos-por-aleilton-fonseca-214637.asp Acessado em: 18/08/09

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O pêndulo de Euclides



Ideias antecipa trecho do lançamento 'O pêndulo de Euclides'

Jornal do Brasil

RIO - Além de Os sertões – que nasceu de um relato jornalístico – a Guerra de Canudos gerou também algumas obras de ficção, entre elas o caudaloso romance Guerra do fim do mundo, considerado pelo autor Mario Vargas Llosa um dos mais bem realizados que já cometeu. Menos conhecida, mas nem por isso indigna de interesse, é a novela A casca da serpente, de José J, Veiga, publicada em 1989 – e que merece reedição por estar há muito tempo desaparecida das livrarias.

Agora é a vez de o escritor baiano Aleilton Fonseca mergulhar no tema, com o romance O pêndulo de Euclides, que a editora Bertrand Brasil manda para as livrarias na próxima semana.

O Ideias apresenta abaixo, com exclusividade, os dois primeiros capítulos da obra. Trata-se do relato de uma viagem de três amigos (um professor baiano, um poeta carioca e um brasilianista francês) à cidade de Canudos atual para uma visita ao campo da guerra onde existiu o Arraial de Belo Monte, fundado e liderado por Antônio Conselheiro. Durante a viagem, eles debatem temas e razões do conflito, e algumas das ideias de Euclides da Cunha. A foto que ilustra o texto, de Evandro Teixeira, mostra a cidade de Rosário, cenário das batalhas. A igrejinha branca ao fundo foi construída pelo próprio Conselheiro.

Trecho do livro:

A Guerra de Canudos foi o conflito mais trágico e sangrento do Brasil. Era o que mais se repetia nas palestras do seminário, que reunia professores, estudantes e pesquisadores. A universidade parecia estar em festa, com gente se acotovelando nos corredores e auditórios. A última conferência concluía o evento com chave de ouro. Eu, atento, nem sempre estava de acordo com o que ouvia.

O conferencista encerrou suas palavras dizendo em tom de máxima que, mais de 100 anos depois, a guerra era um tema exaurido. Nada de novo havia a dizer ou acrescentar. Tudo estava dito, registrado, lido e analisado.

Ergui o braço para questionar, porém meu gesto não foi atendido. Era a conferência final do seminário e não haveria debates. A plateia já se levantava apressada. Continuei no meu lugar, enquanto as pessoas deixavam o auditório. Lá fora começava o alarido do coquetel de encerramento. Fiquei só e pensativo.

Veio-me à tona uma ideia que desde alguns anos me martelava a cabeça. Há tempos eu planejava ir até a região de Canudos para conhecer o local da guerra. Queria conversar com as pessoas, anotar suas impressões, elaborar um texto. Pretendia recolher resquícios da memória do conflito a partir de depoimentos dos descendentes dos sertanejos.

Meu sonho era escrever um livro. Eu queria fazer um ensaio, uma entrevista, ou mesmo um romance, em que uma voz sertaneja narrasse os eventos da guerra. Seria um narrador canudense que relatasse – de dentro – as quatro batalhas, ou seja, os quatro fogos da guerra, conforme denominava Antônio Conselheiro.

Ao final do evento, saí da universidade pensando seriamente no assunto, a caminho da pousada onde estava hospedado no centro da cidade.

Ao chegar fui direto para o apartamento. Fazia muito calor. Depois de um banho, tomei uma cerveja para refrescar a garganta, saboreando cada gole. Fiquei matutando. Certamente o conferencista quis dizer que a história de Canudos está devidamente assentada nos livros, nos ensaios, nos romances, na poesia, no cordel, nas fotos e nos jornais da época. Um acervo que dá conta dos fatos e de suas consequências históricas e sociais.

Mas tudo isso esgota mesmo a história da guerra? Nada mais há além do silêncio? Nada mais ecoa nos campos calcinados da memória que subjazem nas águas? Só nos resta interpretar as marcas do passado? De certa forma, sim. De alguma maneira, não.

É certo que textos, objetos e documentos falam por si. E as vozes do sertão? O que elas têm a dizer? Lembrei de uma célebre frase do escritor francês André Gide, que nos ensina: “Tudo já está dito; mas, como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar”.

O conferencista fora enfático ao afirmar: “Canudos é um tema exaurido”. Discordei na hora. Não, não é, pensei comigo mesmo. E de novo me animei.

Tudo isso açulou o meu antigo desejo de percorrer o sertão de Antônio Conselheiro. Eu podia visitar o local da guerra e depois escrever o livro. Peguei o mapa da região, anotei as informações gerais na agenda e preparei a mala de viagem. Eu precisava conhecer Canudos.

DESCOBERTA – 2º CAPÍTULO

As imagens de Canudos e de Antônio Conselheiro entraram cedo em minha vida. E não foi através da escola. Nas aulas de história, só os velhos temas. Ensinavam-me a repetir datas e fatos e a admirar as personagens oficiais. Pior: aos oito anos de idade fui obrigado a me perfilar junto com os colegas no pátio da escola, no longínquo dia 31 de março de 1968, para cantar o Hino Nacional em louvor à ditadura militar de então. Obrigada a cumprir ordens, a escola traía com isso a inocência de minha idade.

Nunca me contaram nada sobre Canudos.

Mas eu descobri.

Aos 12 anos ganhei de presente de meus pais uma coleção de dicionários da antiga Editora Globo, em seis volumes de capa grossa e cor azul. Cada um era dedicado a uma área do saber. Passei a ler a esmo os verbetes do Dicionário de História do Brasil, fixando-me naqueles que me pareciam mais interessantes.

Canudos. Esse verbete despertou minha atenção.

Eu ia lendo, e os fatos narrados me fascinavam e excitavam a minha imaginação. Ali eu aprendia a história de Antônio Conselheiro e do Arraial do Belo Monte.

Ademais, a minha avó Laudilina nasceu em Bom Conselho, nas redondezas de Canudos, há cerca de 90 anos. Certamente ela descende de alguma família sertaneja que sobrou viva nos arredores da cidadela arruinada. Eu imaginava um dia investigar o fato, quem sabe desencavar um parente perdido. Como afluente de um Vaza-Barris vermelho, decerto em meu corpo também corre algum sangue conselheirista.

Certa vez perguntei à minha avó o que ela sabia sobre a guerra dos sertanejos. E ela, com paciência e boa vontade, puxou pela memória e tentou me explicar:

– Ah, meu neto... De pequena, eu me lembro que falavam sobre o Conselheiro. Diziam que era um homem santo que havia lutado muito pelo povo do sertão. Mas contavam isso à boca pequena, com medo da polícia. Quem falasse a favor do beato podia até ser preso. As pessoas tinham muita cautela de tocar no assunto. Escondiam e até negavam o parentesco com os infelizes fiéis de Canudos.

– E por que elas faziam isso, vó?

– Ora, porque tinham medo da polícia! Muitas diziam que os soldados iam retornar um dia pra atirar em todos, tocar fogo nas casas e degolar o povo que havia restado no sertão. Com isso, muita gente se amofinava, ficava tudo quieta, acuada, nas brenhas dos lugares ermos. É só dessa cisma que eu me lembro um pouco.

E resumiu, baixando a voz, num tom de compaixão:

– Aquela guerra foi uma grande injustiça.

Depois de ouvir as palavras da avó Laudilina, eu corria de volta ao dicionário. E ficava surpreso e impressionado com os personagens que realmente viveram, lutaram e morreram nos tempos passados.

Ali se narravam fatos que me pareciam semelhantes às antigas histórias que eu tanto ouvira contar na infância. No entanto, eu sabia a diferença: aquele livro trazia eventos reais, vividos e registrados.

Canudos entrava, assim, em meu universo de saberes; e já fazia parte de minha vida.

18:17 - 14/08/2009

Disponível em: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/08/14/e140821317.asp Acessado em: 18/08/09

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O sorriso da estrela

FONSECA, Aleilton. O Sorriso da estrela in: O desterro dos mortos. Rio de janeiro: Relume Dumará, 2001, p. 23 - 28.


Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.

Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de "sua doida". Pois agora eu começava a compreender sua linguagem, logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma. Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:
— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse. A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.


— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.
O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo, — talvez para conter o sorriso? — Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:


— Vamos brincar, Dindinho.


— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.
Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.
— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.

Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome. Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse. Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:


— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?
Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.


Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:


— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.


— Ora, quem pode ter uma estrela, "sua doida"? — desdenhei.
— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez... só uma... você quer?


Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! — você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela... tudo podia ser tão diferente!
A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não com um olhar terno, tão raro aquele olhar... Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.


Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um vôo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse vôo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.
A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.
As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.
Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.
Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.



O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de "meu segundo amor". Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.
Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!
O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.



Disponível em: http://www.tboa.com.br/forum/index.php?showtopic=3841&pid=123908&mode=threaded&start

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Prosa nas livrarias Euclides da Cunha




O baiano Aleilton Fonseca apresentará ao público os bastidores da criação de “O pêndulo de Euclides”, construído em torno da paixão de dois professores e um poeta pela história de “Os Sertões”.

Vamos divulgar o Evento!

domingo, 9 de agosto de 2009

Presente de grego / e / Carta a um jovem poeta



Aleilton Fonseca


Um amigo quis me convencer de que somos iluministas tardios em plena selva do mercado pós-moderno. Nós quem? "Vocês, defensores da grande literatura". Fiz pose de novela: "Ma é vero, cáspita"? Segundo ele, temos mania de recomendar autores difíceis e obras volumosas, no vão intuito de ilustrar o massificado público de hoje. Eu titubeei diante da acusação, quase convencido do despautério.

Ilustremos a questão. Na metrópole, geralmente os vizinhos não se conhecem, não há tempo, somos todos suspeitos. Mas acontece. Fazia alguns meses, eu e minha mulher estávamos morando ali pelo Butantã, num sobrado geminado. Quando dei por mim, trocava bons-dias, boas-tardes com a vizinha, uma moça sisuda e de olhar desconfiado. Bastou um curto papo e descobrimos: éramos conterrâneos de outro estado, o que acelerou a nossa aproximação. Dia vai, dia vem, soubemos que ela faria aniversário. Eis o teste: qual o melhor presente para uma recém-conhecida, de uns 28 anos? Se o leitor respondeu: "um livro", pronto: é um iluminista tardio.

Tem gente que detesta receber esses presentes de grego, sobretudo se for a Odisséia de Homero. Minha mulher sugeriu A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector. Pelo papo se avalia o freguês: a vizinha não parecia ser uma leitora esclarecida. G.H. é um texto complexo... tem até barata! Escolhemos algo mais leve: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres da mesma Clarice, uma agradável leitura. Lóri e Ulisses aprendendo a hora certa do amor. Pois bem: demos o livro.

Um mês depois perguntamos se havia gostado. A vizinha disse que ainda não lera. No outro mês havia começado, mas parara. Depois foi uma desculpa atrás da outra. Ela acabou declinando os títulos de sua preferência, best sellers de um conhecido e mui lido autor de narrativas de auto-ajuda espiritual. Tudo bem. Isto é uma democracia e eu mesmo já passei por Lou Carrigan e M.L. Estefânia. Li Gisele, a espiã nua que abalou Paris duas vezes. Um leitor evolui, gente! Mas, e o livro de Clarice? A vizinha me confessou que não dava para ler, não era bom como os seus prediletos. E lascou pedra em meus ouvidos: "Essa autora devia se chamar Chatice Lispector". Ai! fui atingido em cheio, as luzes me faltavam, mas resisti: Leia A Hora da Estrela. "Dessa autora? Não, obrigada." Tirou da bolsa um best-seller de seu autor de cabeceira. "Quer ler?" Eu até leria, mas agradeci, alegando falta de tempo. A moça se despediu e cá comigo pensei: Não fosse local tão fedido, eu sentava às margens do rio Pinheiros e chorava.

Aleilton Fonseca é crítico,
professor e escritor, autor de Jaú dos Bois
e outros contos.



Matéria publicada em 01/03/2000 - Edição Número 7

Disponível em: http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=43&rv=Literatura acessado em: 09/08/09



Carta a um jovem poeta

Aleilton Fonseca


Releio sempre a carta que o poeta Carlos Drummond de Andrade me enviou em 1981. Naquele tempo eu tinha 22 anos e havia publicado o primeiro livro de poemas. A idade ardia numa vontade doida de traduzir a vida em versos. Hoje, aos 40 janeiros, as musas me cutucam e esbravejam, mas já sei que é difícil comover o vasto mundo, este vale de lágrimas, desamor e enormes cifras.

O poeta gostou do livro e me mandou, em sua letra e estilo inconfundíveis, um voto de confiança, um estímulo, um sopro de vida numa chama que mal balbuciava. Com o envelope inesperado na mão, fiquei atônito entre a alegria trêmula e uma súbita responsabilidade.

Se o carteiro não já estivesse longe, eu o abraçaria, convidaria a entrar, falaria sobre o autor da carta e recitaria A Rosa do Povo.

Planejei responder ao poeta, mas a surpresa me deixou encabulado. E agora, José? Eu lia e relia a mensagem, lembrava-me de minhas primeiras leituras de sua poesia ainda no ginásio. De repente aquele nome tão inatingível me parecia estranhamente próximo. Não consegui inventar palavras para expressar o meu estado de espírito. A missiva, hoje amorosamente amarelada, ficou sem resposta para sempre.

No fim daquele ano fui ao Rio e planejei fazer uma visita de surpresa ao poeta. Um dia, saí com o endereço anotado, decidido a ir bater à sua porta. Mas enquanto eu avançava pelas ruas a coragem se perdia pelas esquinas. Acabei perambulando o dia todo, sem encarar o caminho definitivo de um encontro com o admirado autor. E se ele não me atendesse? E se não passasse de um "Como vai?" ou um "Prazer em conhecê-lo" formal? Seria uma situação constrangedora – o poeta diante de um jovem desconhecido que vinha de certa forma importuná-lo, logo ele, tão discreto e avesso ao culto à personalidade. Não, eu devia deixar o poeta em paz. Não fui.

Até hoje oscilo quanto ao acerto daquela decisão: ora me arrependo de haver desistido, ora acho que fiz a coisa certa. O encontro poderia ter sido a quebra de todo o encanto. Guardei na distância a admiração e a gratidão pelo gesto de incentivo, embora sentisse também um enorme vazio.

Em 1987, quando recebi a notícia de que o poeta havia falecido, senti um choque, uma sensação pontiaguda de perda irreparável, um abismo me engolia e as lágrimas inundavam o meu olhar. O poeta se foi e eu fiquei cativo de minha não-resposta, órfão de sua presença e de sua voz. Mas, por outro lado, ganhei algo valioso: captei o sentido poético dessa falta, que se conforma e se alimenta na leitura da velha carta, na lembrança de uma resposta não escrita, de uma visita não realizada, de um poema-homenagem que se escreve para sempre em minha memória.

Sobre o autor:

Aleilton Fonseca produz crítica, poesia e contos e é co-editor da revista ‘Iararana’.


Artigo publicado no JORNAL DA TARDE, SÃO PAULO, 22/3/00.


Dispnível em: http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=154&rv=Literatura acessado em:09/08/09

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

teoria particular (mas nem tanto) do poema

teoria particular (mas nem tanto) do poema
Autor: Aleilton Fonseca

1
ovídio: escrever 200 versos
para, dentre, recolher 20 linhas
que contivessem a poesia
de todo o processo:
mas o caudal imenso
não se investe só dos vestidos
da forma nem se conforma

2
mas, há o tempo: é preciso,
por humana deficiência,
o instante grafado:
embora o fluxo da essência,
contínuo, jamais se desfaça
na mão: o poema acabado,
tal como lemos,
é somente convenção

3
pois
o que acaba de se compor,
já desmorona,
se desdiz, se rediz, mildiz,
novas palavras no invento,
novo inventário
em dez dobras vezes n
desdobra-se
no princípio
e agora e sempre

4
a ilíada são muitas ilíadas,
quão homeros a escrevê-la
e talvez por concluí-la ainda:
as estrofes que agora lemos
à falta da mão de homero
damos então por findas

5
mas no poema: cada verso,
é reverso do verso, diverso
no próximo segundo;
cada palavra cede
seu lugar, chama
a outra, que logo apaga,
outra chama, reacende sílabas,
rimas, sentidos,
rios incontidos

6
os lusíadas de camões,
o que lhe sobrou de naufrágios,
para sempre incompletos
daquilo que virou água,
ou que ficou disperso,
dos versos tornados mares,
onde camões? (oh, finitude!)
para prosseguir o que não deu tempo:
com engenho e virtude
e arte

7
o poema muda
de cor e de nome a cada piscar
de olhos,
se alonga, se encurta,
cada rima some
no som que emite
e transmite a centelha
à outra rima, parelha:
corrida de som infinda
poemando-se

8
baudelaire reescreveu as flores
até o fim de sua vida
e as flores ali contidas
não estão terminadas,
a não ser por convenção
e favor à comodidade:
baudelaire houvesse vivo,
as flores contínuas, mudadas

9
cada versão, tal rima a esmo,
reinscritos versos,
os ex-certos, nem mais
nem menos certos,
o mesmo intérmino texto,
em eterno palimpsesto

10
os calligrammes de apollinaire
necessitam de revisão:
pena que o poeta
não esteja aqui a fazê-la
e que assim seja
"para o bem da convenção"

11
pois o poeta e o poema,
entre si adotados, convivem
diários, instantâneos, côngruos,
mesmo se esquecidos um do outro
cada um é outro e o mesmo;
que a cada golpe de ar
novos sensos se acumulam
nos joelhos das palavras

12
quantas pe(r)sso(n)as e vozes
no baú de inéditos do pessoa
à espera de nome e signo
e profissão e biografia:
e não fosse a vã cirrose
quantas mensagens ele a refaria?

13
o poema é o fazer incompleto,
o refazer nunca pronto

14
pois o poema,
já no instante que pronto,
já recomeça,
em processo difuso,
inconcluso,
intransitivo, de re-flexões:

15
que não há o poema particípio,
mas sempre o poema gerúndio
em constante fervura:
é novo e outro, na leitura,
nos reciclos dos segundos

16
o poema que se lê
é tábua de aproximação

17
o poema publicado: trato caduco,
que junto ao poeta já está mudado:
mesmo que não o mude a letra,
mesmo que não o mude a rima,
que não mais o toque,
por respeito ao senhor editor,
por respeito ao senhor leitor,
ao senhor pesquisador
ao senhor louvor:
mesmo que o poeta
assine a convenção do texto
pronto (para o mercado?)
ou mesmo abandone o texto,
a pretexto de acabado,
o poema disporá da hora
de ser outra vez revelado
se outra voz o adota

18
e o poeta, com seu texto pronto,
se já se embebe de elogios eunucos
já saliva manifestações de apreço,
e a poesia paga o preço

19
o poema publicado:
mera marca provisória,
impresso para as provas
de que se faz a história:
é o rastro de um vôo veloz
que poesia é rio que recomeça na foz;
quando se digita o ponto
final, já é hora de apagá-lo
que a corrente segue em frente,
os seus elos sem intervalo

20
contudo, pobres humanos,
só sabemos existir
imprecisos
entre pausas: comer, beber
ir ao banheiro,
ganhar e gastar dinheiro,
dormir, sonhar, sorrir;
as causas para o viver
a pausa para morrer:
a poesia perde por esperar

21
somente em alguns momentos
somos o poeta, em vigília e fé:
em que a poesia, nosso invento,
nos inventa
e nos dá a concessão do poema,
mero quadro, em interrupção,
que ela é onda contínua em nós
mesmo se nos deixa sós

22
então, poetas,
que já me ensinam o sem início
nem fim:
o ponto final, abolido!
o ponto inicial, abolido!
o começo, simples acerto de pares,
o fim o sem-fim inumérico,
infinita água de mares,
o poema dito no instante
que a poesia o dita

23
pois a poesia, estado de ser,
não se captura no humano molde
de letras; ela resiste e insiste
diante dos olhos invisíveis
do poeta que se sabe seu
que a sabe sua,
e sabe: a poesia nua,
companheira e algoz,
toma-lhe o fôlego e a voz,
suspende suas noites,
retira-o da vida, e, num átimo,
se entrega por um instante
entremostra-se, falso-domada
em registro parcial
da luta jamais vã,
mal rompe a manhã

24
a poesia: o rosto na água;
o poema, sua inconstante
aparência, forma mutante,
em recorrência, minúsculas
mudanças em contínua
ação

25
poetas, retomem os seus poemas
despregando-os do papel impresso,
raspando-os da tinta áfona,
em renovada contradança
de metáforas em processo:
o poema, colado no branco da página,
clama por fluir e refluir
em novas sintaxes,
em novas vírgulas,
em novos sentidos;
desdobrar-se em leques vários,
entremostrar, desde as entrelinhas,
seus novos significandos
em poessência

26
que se o poema se esgota,
da poesia abandonado,
torna-se somente corpus,
de pesquisa e enunciados,
em autópsia textual
que lhe decreta o sentido,
em seu mais "último grau",
de seus versos dissecados

27
oh, amém, poema finado

28
mas não há a poesia finita,
mas corrente, em espiral, sem termo
o poema é o instante,
dessa corrente em passagem
re-fulminante,
diante dos olhos atônitos
do poeta, às vezes surpreso,
em agônico gesto

29
o poema re-preso no papel,
em tinta enformado,
sob tratos cosméticos, convencionados,
esconde sua verdade;
o poema é mais que o brilho de letras
para olhos desavisados,
e, como não há parto asséptico,
assim nasce, corpo de palavras,
entre suor e risos e gases e lágrimas

30
sempre o poema-sendo-ando-indo,
em gerundivo estando, em contínuo...

aleilton fonseca, sp, ago 94

Disponível em: http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Aleilton+Fonseca acessado em 28/07/2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Entrevista com ALEILTON FONSECA

ALEILTON FONSECA


POR: Eduardo Cruz Filho


Aleilton Fonseca é autor de obras como: "O Espelho da Consciência", "O canto de alvorada", "Nhô Guimarães", dentre outras. O poeta, ensaísta e professor universitário conversou conosco sobre educação, literatura e Guimarães Rosa.


CL - Quando se trata de ensino de literatura, uma questão sempre surge. Deve-se, ou não fazer uso de adaptações ao abordar os cânones? Qual é a sua opinião? As adaptações podem ajudar a despertar o interesse pelos clássicos?

Os clássicos devem ser preservados em sua integridade textual. A adaptação pode ser feita no momento da abordagem da obra, quando se pode ressaltar determinadas passagens, deixando outras de lado. Com isso, pode-se dar um direcionamento à leitura e à interpretação, de modo a fazer com que o leitor tenha uma maior interação com a obra, apreciando-a naqueles pontos que lhe são mais atraentes e estimulantes. De fato, cteio que nõa se deve mutilar uma obra literária, expurgando passagens, comente para torná-la supostamente "mais fácil". O interesse pelos clássicos deve ser despertado exatamente por aquilo que essas obras representam, tanto como resgistro cultural de uma época, como exemplo de estilo, técnica e linguagem.

CL - Para você (e para mim) “literatura é uma sentença de vida; uma forma eficaz de conhecer profundamente o ser humano”. Como escritor e professor, você acredita que é possível “plantar” o gosto pela leitura numa sociedade tão desequilibrada econômica e culturalmente, sobretudo quando há uma concorrência desigual com a mídia moderna (em especial a televisão) ?

Desenvolver o gosto pela leitura não é e nunca foi fácil. Ler é uma vocação e uma necessidade, portanto é uma habilidade intelectual que deve ser despertada e estimulada constantemente. Os desequilíbrios de nossa sociedade, marcada pela exclusão e por desníveis tão graves, a leitura deve ser ensinada, inclusive, como uma forma de superação de diferenças. devemos aliar o lazer da leitura à formação pela leitura. As mídias modernas são poderosas e ocupam o tempo que seria da leitura. Não tem jeito. É preciso concorrer com as mídias, dando um sentido mais amplo à leitura; ou seja, deve-se estimular a leitura de formação do indivíduo como um cidadão pensante, crítico, capaz de discernir as questões da vida real a partir da leitura de situações ficcionais. A experiência de leitura torna o indivíduo mais capaz de discutir, entender e formular questionamentos em torno da vida, do mundo, da sociedade e de si mesmo. A leitura é indispensável.

CL - Em sua crônica “Presente de grego” há uma questão que sempre surge quando a conversa é sobre literatura: o gosto estético. Num país cujo número de leitores é extremamente baixo (pelo menos é o que dizem as estatísticas divulgadas), ler um best-seller, ainda que de qualidade literária duvidosa, não é um bom começo ?

De fato, pior do que ler best-seller é não ler livro nenhum. O que se espera é que a experiência e a maturidade do leitor levem-no às obras de maior complexidade semântica e estética. No entanto, há diversos níveis de interação com o mundo e, portanto, com as obras disponíveis. Não devemo ser impositivos quanto à leitura dos outros no dia-a-dia. Agora, se somos professores em aula, aí então devemos fazer escolhas significativas para a formação dos alunos. O professor é um interlocutor e, como tal, deve criar meios e promover o diálogo entre a obra e o leitor em formação. É muito difícil alguém começar a carreira d eleitor através de Alencar, Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. São autores que exigem uma certa bagagem. Os textos mais atuais, que falam de questões mais palpáveis da vida contemporênea, podem servir de bons pontos de partida para a formação de um leitor.

CL - Como você analisa o cenário educacional e/ou cultural do Brasil, após sua experiência como professor na França ?

No Brasil, geralmente o sistema educacional é mais frouxo. Há muitos professores que ensinam pouco e os alunos gostam disso, pois se acostumam com a lei do menor esforço. Se o professor não cobra muito, os alunos estudam menos. Eles não têm medo de perder o ano, pois acabam passando mesmo aprendendo pouco. Isso torna a educação algo pobre, medíocre, um certo faz-de-conta. Na França, por exemplo, percebe-se que há uma seriedade de fundo no sistema educacional. Os programas são discutidos, há controle efetivo do trabalho e há, sobretudo, um compromisso social muito claro quanto à necessidade de formar bem o cidadão, exigindo de professores e alunos um desempenho satisfatório. Há mais cobrança, há mais rigidez na relação professor- aluno, há mais presença institucional do Estado.

CL - O que as instituições de ensino, sobretudo as universidades, deveriam ensinar sobre literatura e não o fazem ?

Deveriam ensinar a literatura como arte da palavra que atua duplamente, formando o lado cognitivo e o lado afetivo do indivíduo. É preciso aproximar a literatura do dia-a-dia do aluno, fazê-lo perceber e acompanhar a existência da literatura e dos escritores na vida cotidiana, interessando-se pela atualidade dos livros, dos lançamentos, das novidades editoriais. Literatura deveria ser um assunto normal do dia-a-dia, como parte da vida de todos os cidadãos.

CL - Gostaria de fazer a mesma pergunta que, há algum tempo, você fez à poetisa Yêda Schmaltz: Ser professor e escritor no Brasil é problema ou solução?

Um ofício complementa o outro; não ajuda nem atrapalha necessariamente. Por outro lado, um professor que escreve é um testemunho vivo da existência do escritor como cidadão comum, ao alcance das pessoas. O escritor que leciona tem a oportunidade de conviver mais de perto com leitores, com pessoas que podem ajudá-lo a ver certas coisas no texto literário, pela ótica do leitor.

CL - Que peso a crítica literária exerce em seu processo de criação?

Normalmente, o escritor acompanha a crítica, naturalmente, como forma de ter um retorno de leitura. Mas, no fundo, ao fazer sua obra, ele não vai simplesmente se direcionar pela crítica. O escritor dever estar convicto de um projeto literário que deseja desenvolver. A crítica nem sempre acerta, seja nos elogios, seja nas restrições a um autor.

CL - Há em seus contos, os presentes em Jaú dos bois são um bom exemplo, um casamento bem sucedido entre conteúdo e forma. Esse resultado é algo natural, ou você trabalha essa técnica?

Em criação literária nada acontece de graça. Para tudo é preciso muito trabalho, muita dedicação e muito cuidado. Literatura é trabalho, é busca, é aprendizagem constante. No meu trabalho, eu traço um objetivo em torno dos efeitos de leitura que tornarão o texto mais expressivo, mais tocante e comunicativo. Em torno disso, estabeleço a forma como o enredo vai fluir, como as revelações serão feitas, como as informações serão dosadas. Tudo isso é feito por respeito ao leitor e à literatura. Em literatura, a espontaneidade é inimiga da perfeição. O autor deve estar consciente de cada passo que dá em seu texto, na busca de um diálogo mais expressivo com os leitores.

CL - Sua obra mais recente, Nhô Guimarães, é uma homenagem ao grande escritor Guimarães Rosa. Fale um pouco sobre a importância de Guimarães e Grande Sertão: Veredas para o cenário literário brasileiro.

O escritor mineiro Guimarães Rosa está entre os autores mais importantes da língua portuguesa. Sua proposta de narrativa é inovadora, pois ele toma a tradição da oralidade e elabora uma linguagem complexa, tão rica de sentidos quanto bela na sua forma exuberante. Grande sertão: veredas é, talvez, o romance mais importante da moderna literatura brasileira. Sua concepção, sua linguagem, seus temas, sua profundidade, tudo isso nos enriquece culturalmente.

CL - O escritor brasileiro conta com algum tipo de apoio do poder público no momento de publicar e divulgar sua obra? Como funciona esse processo?

Há algumas iniciativas oficiais, através de coleções, concursos, mas é tudo muito tímido e insatisfatório. No Brasil, o escritor, em geral, fica jogado ao léu da sorte, tendo de brigar por um lugar ao sol, num mercado altamente restritivo. Como a massa de leitores é ainda muito pequena para sustentar a produção editorial, muitas vocacionados para a escrita desistem ou não desenvolvem plenamente seu potencial, pois têm de se dedicar a outras atividades para sobreviver. Prova disso é que ainda é raro encontrar escritores que vivem profissionalmente de sua produção literária. Em geral, a criação literária é coisa das horas vagas, das noites insones, da teima mesmo dos que se sentem compelidos a escrever por uma necessidade íntima muito forte. Mas, geral, ainda paira no ar uma idéia difusa de que escrever literatura é uma "perda de tempo", tempo que o indivíduo poderia empregar em algo mais "rentável".

CL - Quais as suas expectativas em relação ao panorama literário brasileiro?

Quem escreve deve ter esperança de que o panorama melhore, que os leitores aumentem, que a cultura do livro se desenvolva, que as pessoas não tenham pena de gastar algum dinheiro comprando livro. Há sinais de melhora, mas isso demanda tempo; toda mudança de hábito cultural é lento e precisa ser estimulado. Cabe á escola dizer ao aluno que ler faz parte de sua condição de ser pensante e de cidadão.

CL - Para quem quer se tornar escritor, que dicas você poderia dar?

Primeiro ler muito, ler poesia, ficção, ensaio, ensaios de divulgaação científica, sobretudo no campo das ciências humanas. E viver, buscar a experiência da vida. E, ainda, refletir se escrever é mesmo uma necessidade. Após isso, verificar se tem algo realmente significativo a dizer, e se sabe escrever bem, com consciência do que está fazendo. Não há curso que forme um escritor, mas, ao mesmo tempo, nenhum escritor nasce feito. Eis a questão.


Disponível em : http://www.caminhosdalingua.com.br/entrevista_Aleilton.php acessado em :29/07/09

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Aleilton entra na Aacademia de letras da Bahia

UEFS => Notícias

Professor da UEFS toma posse na Academia de Letras da BahiaASCOM - Assessoria de Comunicação

O escritor Aleilton Santana da Fonseca é o mais novo integrante da Academia de Letras da Bahia. Ele será empossado no dia 15 de abril, em sessão solene a ser realizada às 21 horas, no Palacete Góes Calmon, em Salvador. Saudará o novo acadêmico o escritor Rui Espinheira Filho. Professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Aleilton Fonseca assumirá a cadeira nº 20, cujo último ocupante foi o jornalista Joaquim Alves da Cruz Rios. A vaga nº 20 da cadeira da Academia de Letras da Bahia será preenchida pela primeira vez por um escritor. Até então foi sempre ocupada por juristas e jornalistas, tendo como fundador Carlos Ribeiro, sucedido por Epaminondas Berbert de Castro, Lafayete Spínola, Ivan Americano e Cruz Rios.
Com dez livros publicados, entre os quais Movimento de sondagem, poesia, (Salvador: Funceb 1981) O desterro dos mortos (Rio de Janeiro: Relume Dumará 2001), O canto de alvorada (Rio de Janeiro: José Olympio 2003, com 2º edição em 2004), o escritor, baiano da cidade de Firmino Alves, é co-editor da revista Iararana publicação de arte, crítica e literatura, editada em Salvador desde 1998. Também é co-editor de Légua & Meia, revista de Literatura e Diversidade Cultural, do Programa de Pós-graduação em Literatura e Diversidade Cultural - PPGLDC/ UEFS.Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Aleilton Fonseca, 45 anos, recebe com muito entusiasmo a sua eleição para a academia, sobretudo por ver tão cedo o seu trabalho reconhecido. “A minha entrada para a academia não é um ponto de chegada, mas a continuação de um trabalho pela literatura, no campo do ensino, da criação e da divulgação. Tenho consciência de que há muito por fazer. Entro na academia para ajudar nesta missão cultural, que é levar a literatura a um número cada vez maior de leitores”.
Na UEFS desde 1998, Aleilton Fonseca integra o corpo docente fundador do Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural da Universidade, no qual orienta dissertações e projetos de Iniciação Científica no tema Literatura e Imagens Urbanas. A sua atuação como professor se estende à Université d’Artois (França), onde esteve como convidado em 2003. Fez palestras e comunicações sobre literatura baiana e brasileira em universidades estrangeiras, como Nanterre, Sorbonne, Artois, Tours (França) e ELTE (Hungria).
Aleilton Fonseca recebeu alguns prêmios, entre os quais o Prêmio Nacional Herberto Sales Contos, da Academia de Letras da Bahia, em 2001. Ele também faz parte de algumas antologias, é colaborador de revistas e suplementos literários e correspondente, no Brasil, da revista Latitudes: cahiers lusophones, editada em Paris França.

Feira de Santana, 07 de abril de 2005.


Disponível em: http://www.uefs.br/home/noticias/abr2005/abr11.html acessado em: 28/07/09


23/10/2008

Lançamento

ALEILTON FONSECA LANÇA LIVRO EM BRUXELAS


Por:Rinaldo de Fernandes

“Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia (As marcas do fogo e outros contos da Bahia), 12º livro do escritor Aleilton Fonseca, será lançado esta noite na Livraria Orpheu, em Bruxelas. Reunindo cinco estórias escolhidas com enredos ambientados em cenários baianos, a edição bilíngüe (em português-francês com tradução de Dominique Stoenesco) da publicação chega aos mercados da França e da Bélgica e ainda será distribuído na Suíça e no Canadá. Este é o projeto da Editions Lanore que está publicando o escritor baiano em países de língua francesa.
Membro da Academia de Letras da Bahia desde 2004, Aleilton, 49 anos, conta que há oito anos o tradutor francês Dominique Stoenesco vinha mostrando interesse em seu trabalho literário. ‘Esse projeto tomou fôlego a partir de 2006, quando ele escolheu os contos e os traduziu. Foi um processo intenso de diálogo em busca do melhor resultado’, resumiu o escritor que, até o próximo dia 29, cumpre agenda da editora em diferentes cidades francesas e belgas.
A maratona iniciada dia 9, em Paris, teve seu ponto alto ontem, na Sorbonne. Na famosa universidade, Aleilton, que é doutor em letras pela Universidade de São Paulo e ensina literatura brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), se encontrou com alunos e professores de literatura brasileira. Antes de finalizar o programa com uma sessão de leitura e um bate-papo com o público, em Toulouse, ele ainda passa por Rennes, na próxima quinta-feira.”



Disponível em:

http://rinaldofernandes.blog.uol.com.br/arch2008-10-19_2008-10-25.html acessado em: 29/7/09

domingo, 2 de agosto de 2009

Poesia...

Autor: Aleilton Fonseca

motivo

calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça

o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto

por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor

sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo

sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo


nova meditação sobre o tietê

"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)

águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes

tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani

aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?

te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso

segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos

por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris

tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata

águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...

exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!

pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos

em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas

eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas

há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula

mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas

águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...

te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...

aleilton fonseca, sp, 95


o(fí)cio

há bigornas
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas

oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir

portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia

Disponível em: http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Aleilton+Fonseca acessado em 28/07/2009

sábado, 1 de agosto de 2009

UM NOVO SERTÃO NA LITERATURA?

Críticas e Resenhas


Nhô Guimarães
Aleilton Fonseca
Bertrand Brasil
176 págs.


Nhô Guimarães, de Aleilton Fonseca, adentra o universo de Guimarães Rosa, em homenagem ao grande escritor mineiro


Por: Rinaldo de Fernandes • João Pessoa – PB



Da quarta capa de Nhô Guimarães: romance-homenagem a Guimarães Rosa consta este meu comentário: “Aleilton Fonseca [...] cria uma narradora sertaneja que integra inteiramente o universo rosiano. A linguagem é bem trabalhada, com momentos de muita poesia, com vários achados. O texto vai se tecendo com um acúmulo de saborosos causos”. Paródia reverencial, o romance do baiano Aleilton Fonseca reedita, com muitos recursos, o regionalismo do autor do Grande sertão: veredas. Nos relatos do livro, com efeito, como bem observou Antônio Torres, “paira a figura” de Guimarães Rosa. E ela paira notadamente no ângulo (agudo) adotado ao registrar cenas e certos temas típicos — e tudo numa linguagem bem tecida, exata, que, como indica ainda o autor de Essa terra, evita “cacoetes e excessos”.

Em entrevista ao escritor Lima Trindade, após a publicação do romance, Aleilton Fonseca esclarece: “Um certo dia tive um estalo: ‘Guimarães Rosa andava pelos gerais, de caderno em punho, conversando com o povo e anotando tudo. Ele dialogou com muita gente que acabou inspirando personagens de sua ficção. E se, de repente, uma personagem rosiana narrasse suas passagens pelo sertão?’. Daí, peguei a imaginar como seria essa prosa. Surgiu-me a idéia de criar uma narradora de feição bem rosiana, uma sertaneja experiente e vivida, que assumisse a palavra”. Instigante intertexto, a razão de ser do romance parece ser mesmo, como revelou o próprio Aleilton em outro instante, o trânsito ou “travessia” de significados e linguagem.

Três aspectos chamam a atenção no romance do autor baiano: a narradora (e, por extensão, o seu interlocutor), o personagem Nhô Guimarães e as referências metalingüísticas.

Nhô Guimarães é narrado por uma octogenária viúva, que vive sozinha num pé de serra. O marido, o baiano Manuel Adeodato, o Manu, foi muito amigo e confidente de Nhô Guimarães (alter ego de Guimarães Rosa). A viúva narra, como no Grande sertão: veredas e no conto Meu tio o Iauaretê, para um interlocutor silenciado, sumido. Trata-se de uma sertaneja de fala incisiva, incessante, que conta seus causos e crenças, cultiva a memória do marido (“Guardei sua imagem: um homem vivo, trabalhador e companheiro”), carrega a dor pelo filho desaparecido e, reiteradamente, comenta a grande amizade de Nhô Guimarães. A força dessa narradora, elaborada à maneira do camponês sedentário benjaminiano, reside no registro e/ou transmissão de sua experiência. Sua energia e determinação (“Hoje eu mando em tudo, estou sobre mim, no meu direito”) lembram às de algumas das figuras femininas que aparecem em seus relatos, como Chica Homem (mulher valente, destemida, domadora de animais: “Aos muito brabos domava o rompante dos gestos bruscos, pondo os bichos nas rédeas certas de obedecer e servir”) e Tiana (que descobriu em si “dons curativos”; seu método de curar — homens, sempre eles — terá supostamente aprendido estudando os exercícios do Kama Sutra: “Tiana, com suas mãos de fada, passava ao corpo dos homens os seus calores, os bons remédios das carícias fêmeas. Nesses modos de tratar os desejos, o corpo e a alma dos pacientes se elevavam”). A narradora, uma “velha aprumada”, que ainda planta, colhe e cria e que “vive em paz”, em seu “sossego”, tem certa instrução: “Todo dia, bem cedinho, eu caminhava até a escola da vila. Estudava com dona Arlinda, professora sem diploma, mas muito excelente para os daqui”. É aposentada: “O valor [da aposentadoria] é uma sem-vergonhice de tão pouco...”. E de fé: “Sou católica, e, mais que isso, tenho também outras crenças, como o povo todo do sertão”.

Sertão globalizado

Vale registrar a visão de sertão que o romance de Aleilton apresenta, revelada na própria fala da narradora. Com efeito, em certo momento pelo menos, a fala da velha viúva remete a algumas representações que se fazem contemporaneamente do sertão, ou seja, um sertão modificado, mais aberto ao mundo, onde se projetam, cada vez mais, elementos da cultura urbana globalizada; um sertão tecnologizado, antenado (parabolicamente) com vários problemas e/ou situações do país e do mundo. A narradora diferencia claramente o sertão do passado (“o tempo de homens brabos, esse já passou, agora é tempo de acertos, pelo melhor considerar de todos. Porque antes havia chefe de mando, com seus capangas, suas brabezas”) do sertão do presente (“...o mundo já deu muitas voltas. O sertão vai junto, demudando os seus velhos tratos. [...] Essa terra precisa de olhos novos, de gente sabida, sem medo de mudar as coisas, alargar os horizontes. [...] Ninguém vive mal por gosto [...]. É preciso abrir os caminhos, deixar o povo seguir as trilhas, derrubar as cercas, abrir as porteiras, repartir a terra”). Enfim, para a velha narradora, admiradora de Antônio Conselheiro, o sertão deve ser “de todos”.

E aquele que, paciente, ouve a fala ininterrupta, às vezes nervosa, da narradora? Para a velha viúva, o seu interlocutor, além de algumas qualidades, passa calor humano: “O senhor fica assim calado, mas seus olhos conversam muito. [...] Gostei de seus modos calmos, sua paciência de me ouvir, esses agrados que vêm de seus olhos. O senhor é fino, quieto, atencioso”. O calor humano, ao final, cria mesmo uma suspeita — a de que o moço diante dela pode ser o sonhado neto, filho do filho desaparecido (ela tem sonhos com um menino, cuja figura não sabe distinguir direito): “...o senhor tem o sinal de minha gente. Agora junto os demais: seu olhar, seus gestos, seu modo de sorrir, seu sentimento”.

Por outro lado, a figura quase lendária de Nhô Guimarães, permanentemente associada à imagem do marido Manu (“sabiam ser bons amigos”), de quem a narradora sente muita saudade, é sempre recordada com reverência, como se presente estivesse: “Eu vi, vivi, convivi. Para mim está muito bem vivo”. O personagem Nhô Guimarães, repita-se, é alter ego de Guimarães Rosa, sendo que alguns dados da biografia deste último são sempre postos em cena pela narradora (Aleilton Fonseca, na citada entrevista a Lima Trindade, afirma: “Procurei inserir os dados históricos no ficcional, como se também fossem — e agora são! — uma ficção”; afirma ainda: “A realidade é apenas um marco de referência que garante a verossimilhança”). Dois desses dados, pela sua importância, chamam muito a atenção: o primeiro é aquele que alude à famosa viagem pelo sertão, em 1952, na qual Guimarães Rosa, acompanhado do vaqueiro Manuel Narde, o Manuelzão, anotou muito sobre a fauna, a flora, a fala e as fabulações sertanejas, material que será aproveitado na composição do Grande sertão: veredas. A viagem é assim referida no romance:

Ele fez uma travessia longa, de muita importância para seus escritos. Se aventurou nas poeiras, passagens das mais supimpas, com os demais. [...] No terreiro todo aí fora se arrancharam para o descanso e o de-comer, os animais espalhados convivendo amigos. [...] Nhô Guimarães por tudo a saber e anotar, no sempre, os seus riscos e debuxos no papel. Os aconteceres do mais sertão, lhe dissessem de tudo. [...] Nhô Manuelzão era quem mais sabia ensinar, sempre bom de prosa e de aventura. Os demais, estes cismavam: onde já se viu boiadeiro assim fanfando, todo lorde, bem do seu, de finos óculos? Essa viagem era para retratos e anotações [...], para estampar a travessia em papel, para outra gente saber de tudo e conhecer as aventuras de Nhô Guimarães pelos Gerais.

O outro dado biográfico de Rosa no romance (o autor de Sagarana, sabemos, entrou em 16 de novembro de 1967 para a Academia Brasileira de Letras e, três dias após a sua posse, faleceu de enfarte) está na cena em que Nhô Guimarães informa a Manu acerca de um convite que recebera (“Era sobre sua entrada nas honras de uma famosa casa, lá pras bandas da cidade grande...”). Vale a pena reproduzir o diálogo em que aparece um Rosa titubeante, supersticioso, e um interlocutor desencorajador:

— Nhô não devia de entrar, acho, sei não...

— Mas por quê? — Nhô indagava.

— Conforme Nhô mesmo disse, já tentou uma vez, não foi servido.

— Todos da casa agora desejam que eu entre — ele explicava.

Então, Manu cismou um pouco, e prosseguiu:

— Isto é, o senhor, homem daqui, é pessoa verdadeira.

— O que me apalavra a respeito, em dizeres seguros?

— Nhô, nada não. Isso de o senhor narrar mais certo o que a gente convive, com seu modo de apalavrar, isso é um dom.

— Se entro, perco o dom? Ou será que morro?

— Não sei. Aliás, medite uns anos bastantemente. Às vezes, é depois de uma festa que sobrevém o luto. Todos têm sua hora e vez.

A famosa frase de Rosa (“As pessoas não morrem, ficam encantadas.”) em seu discurso da ABL é reeditada por Manu:

— Então, será que morro?

— Nhô Guimarães, um homem de seu quilate não morre...

Ele reagiu suspirando fundo, enquanto Manu inteirava os termos:

— Fica encantado!

Ricas ainda no romance de Aleilton são algumas referências metalingüísticas — aqueles instantes, não raro iniciando os capítulos, em que a narradora tece comentários acerca do narrar. A velha viúva, que costumava escutar a prosa do marido com Nhô Guimarães (“Nhô Guimarães era esperto e jeitoso em tramar histórias.”), efetivamente, refinou-se na arte de contar — e, no seu caso, repita-se, de contar incessantemente. Vejam-se alguns de seus (preciosos) aforismos acerca de viver e narrar: “É certo contar bons exemplos: nina os mais novos, amansa os mais velhos [...]”; “Uma coisa acontece, mesmo a gente vendo na hora, os olhos já enganam”; “Quem proseia precisa imaginar, palavrear, distrair o parceiro”; “O melhor mesmo da história é o capricho da prosa”; “Prosa de homem às vezes é perto de muitas risadas, não sisuda, para destratar uns aos outros por agravo, maldade ou mau divertimento”; “Eu sei o certo como medir o que falo, com quem proso, onde me declaro”; “Quando o senhor tiver um filho, conte a ele suas histórias, invente, acrescente, dê a ele as boas lições do passado e do futuro”; “Tantas histórias repassadas, nos certos modos de rodear as palavras”; “Entre o acontecido e o imaginado, a gente faz piruetas para agradar o ouvinte”, etc.

Um dos capítulos de Nhô Guimarães (O vingador e o inocente) foi publicado na coletânea Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea, que organizei e lançada no primeiro semestre de 2006 pela Geração Editorial. Outros capítulos do livro, com alguns ajustes (como Dona Sancha, A sorte nas mãos, Juvenal Setesprito, Um trato trágico e, em especial, Simeão, homem do cão!), poderiam perfeitamente ser publicados como contos. Recentemente, ao apresentar a antologia (que também organizei e publicada pela Garamond) Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, da qual Aleilton participa com Ave, Maria Mutema!, eu chamava a atenção para a versatilidade dos contistas ao recriarem narrativas de um autor, em princípio, inimitável. Aleilton Fonseca, com muita inventividade, imita um inimitável. Em seu romance, opera um novo regionalismo. Novo regionalismo? Bom, a pergunta pode ser formulada: após os romancistas de 30 e Guimarães Rosa, tão grandes, resta ao regionalismo o quê? Ser, como no caso de Aleilton e de vários dos autores das Quartas histórias, inventivo, intertextual, paródico, pós-moderno.


Sobre o autor
Aleilton Fonseca nasceu em Firmino Alves (BA), em 1959. É doutor em literatura pela USP. Autor de Jaú dos bois e outros contos, O desterro dos mortos e O canto da alvorada.


Disponível em: http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=25&lista=0&subsecao=0&ordem=1117&semlimite=todos acessado em : 29/07/09.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Jaú dos Bois

Jaú dos Bois
Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997.

Aleilton, com sua prosa simples e emotiva, revela-se como um talento singular, em contos como O sorriso da estrela. (...) Nesse sentido, alguns textos surpreendem pela tensão que conseguem entre leveza e criatividade, combinadas com a habilidade de quem sabe equilibrar as palavras”. Kátia Borges (jornalista), em “Elegância Interior”, A Tarde, Salvador, 12-12-1997.

“O assunto de Aleilton Fonseca tende a ser o que se convencionou chamar de regionalismo em literatura brasileira, isto é, a vida rural no âmbito da modernização incompleta do Brasil. Mas olhando de mais perto a qualidade salta aos olhos; há ritmo na prosa que parece de fala mansa e pausada, o aproveitamento do vocabulário às vezes arcaizante não cai no pitoresco. E o assunto é, na verdade, matéria mais fina: os ritos de passagem para a maturidade.” Homero Vizeu Araujo (crítico e ensaísta), em “Existe vida inteligente na literatura”, Zero Hora, Porto Alegre, 7-3-1998.

“Aleilton Fonseca nos toma de surpresa neste conjunto de textos de ficção curta, associando à arte exemplar de um aficcionado de Letras o engenho que eleva seus contos à categoria de Literatura. Desde o primeiro parágrafo, nos deixamos invadir pela elegância da linguagem simples, justa, mas densos os significados. Mais do que contar uma história, Aleilton expõe um mundo.” Luís Antonio Cajazeira Ramos (poeta).

“O contista Aleilton Fonseca sabe juntar a profusão de sentimentos vivos do seu universo ficcional num espaço definido e preciso: o espaço da escrita, pondo as palavras a serviço do seu dizer. Nenhum gesto de personagem se perde dos olhos, nenhuma palavra se perde do ouvido, tudo conduz ao ponto indicado pela mão do escritor.” Cid Seixas (escritor e crítico), em “Um inventor de vidas e lugares”, A Tarde, Salvador, 27-7-1998.

“Aleilton Fonseca é um criador que vive plenamente as suas criações, quando as apresenta, sendo, a um só tempo, todas elas, e cada uma delas no singular da personalidade que lhe atribui. É um narrador espontâneo, cujas histórias são contadas como se vividas fossem, numa simplicidade de alto nível, como se quer a simplicidade literária. Um autor antológico, sem dúvida.” Gláucia Lemos (escritora e crítica de arte), em “Um livro completo”, Jornal O Escritor, São Paulo, União Brasileira de Escritores, jan./1999.


“O livro [Jaú dos Bois] compõe-se de cinco contos, que demonstram uma virtude poucas vezes encontrada na atual literatura brasileira: o domínio da técnica formal a serviço de uma sensibilidade aguçada. O autor, também poeta (dos bons) e professor universitário, consegue resgatar o lirismo das histórias comuns, sem em momento algum cair no simplismo nem na pieguice.” Luiz Ruffato (jornalista
e escritor), em "O lirismo das histórias comuns”, Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, São Paulo,

8-5-1999.

Disponivel em: http://www.klickescritores.com.br/pag_escrit/aleilton05.htm acessado em 28/07/09




quinta-feira, 30 de julho de 2009

ZARFEG ENTREVISTA ALEILTON FONSECA


Por: ZARFEG

Além de poeta, contista, romancista e membro da Academia Baiana de Letras, Aleilton Fonseca é professor-doutor na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Nessa condição, ele esteve no mês de outubro em Teixeira de Freitas (BA) para participar do 1º Colóquio de Literatura Baiana, evento realizado pelo Departamento de Letras do Campus X da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Antes de proferir a conferência “A literatura baiana em questão”, Aleilton Fonseca concedeu uma entrevista ao poeta e jornalista A. Zarfeg, que os leitores do Traquejo, desde já, estão convidados a partilhar.

Pergunta: O que representa este 1º Colóquio de Literatura Baiana aqui na Uneb de Teixeira de Freitas?

Resposta: Representa muito, inclusive para mim. Afinal, esta é a segunda vez que eu retorno a Teixeira de Freitas, atendendo ao convite da Uneb através das professoras Enelita e Ivana. E é com muita satisfação que eu estou aqui para falar de literatura. Porque literatura é a minha escolha de vida, eu me dedico à literatura todo dia como professor, ensinando e promovendo. Eu leciono literatura para que os alunos conheçam nossos autores e também escrevam. Eu escrevo e gosto muito de fazer isto: viajar para falar de literatura, principalmente na universidade. E principalmente quando reunimos os jovens, estudantes de letras, futuros professores e alguns dos quais autores no futuro. De modo que é muito bom conversar sobre literatura.

Pergunta: Professor, o sr. também está envolvido com a edição da revista literária Iararana, que vem publicando os textos dos novos autores baianos. Através da revista o sr. tem mantido contato com um sem-número de autores. Que análise faz da produção baiana atual?

Resposta: Iararana é uma revista de arte e crítica literária em Salvador. É uma revista que tem vários jovens escritores, além de escritores já experientes. Alguns desses escritores jovens que escrevem na revista têm se projetado e publicado livros. A revista tem sido muito comentada, muito bem aceita em vários lugares, até no estrangeiro. Fizemos lançamento dela na França e na Hungria. A revista é um panorama da produção literária baiana e brasileira atual. Então, o panorama é cada vez mais rico. Cada vez mais temos autores de poesia, de ficção, seja conto, crônica ou romance, que aparecem e que precisam ser lidos.

Pergunta: Pelo visto, a revista constitui um instrumento eficaz para fomentar a leitura, não é, professor?

Resposta: Exatamente. O que nós precisamos muito na Bahia é fomentar a leitura, porque, havendo leitores, certamente os autores se sentirão mais encorajados e irão publicar seus livros e escrever novos trabalhos. É preciso um trabalho incansável para divulgar a literatura, criar hábito de leitura, dizer às pessoas da importância da habilidade de ler. Com isso, promover a criação literária e os autores.

Pergunta: Um dos aspectos interessantes que eu observo em sua obra é que, à medida que o sr. vai criando e publicando, também se reserva o direito de mexer na criação, de refazer sua obra. Trata-se de uma obra em processo. Como se dá isso?

Resposta: Esse procedimento é bastante característico da modernidade. Desde Baudelaire, que escreveu As flores do mal. Para se ter uma idéia, ele reescreveu esse livro nas sucessivas edições. Outros autores, como Eliot, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, também fizeram uso do mesmo expediente. Ou seja, trata-se de um compromisso que cada autor tem com seu texto. Uma vez o texto feito, uma vez publicado, o autor não o abandona, está sempre voltando, reescrevendo, mexendo na estrutura, mexendo numa palavra. Isso é um procedimento normal da modernidade. E mostra que, de uma edição a outra, o autor tem realmente o direito de acrescentar, cortar, mudar uma palavra.

Pergunta: Jorge Amado seria uma exceção, pois ele não gostava de mexer na obra, uma vez publicada...

Resposta: Mesmo Jorge Amado, que dizia não mexer nos seus escritos. No entanto, nos seus manuscritos há anotações, vêem-se os traços de lápis das modificações que ele introduzia na obra até deixá-la pronta. O fato é que hoje só podemos dizer que uma obra está pronta quando o autor morre. Morreu o autor, ele não vai mais poder mexer na obra. Mas, enquanto vivo, o autor tem o direito e muitas vezes o empenho de modificar o seu trabalho.

Disponível em: http://www.traquejo.com.br/entrevistas.php?id=8 acessado em 28/07/2009

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Uma volta no sertão com Aleilton Fonseca: Nhô Guimarães

7 08 2008

Por: Ladyce West

Foi com imenso prazer que passei os dois últimos dias às voltas com o romance Nhô Guimarães, de Aleilton Fonseca, publicado em 2006, pela Editora Bertrand Brasil. O romance leva o subtítulo Romance: homenagem a Guimarães Rosa. Confesso que este foi o meu primeiro contato com o escritor. Uma amiga recomendou calorosamente o livro. E fiquei feliz de tê-lo feito porque quem saiu lucrando fui eu!

A primeira vista eu não teria por minha espontânea vontade selecionado este livro para ler. Simplesmente porque não acredito em homenagens do gênero. Em geral as obras feitas com esta intenção não passam de imitações de estilo que parecem bastante pedestres para até mesmo o leitor menos sofisticado. E quando feitas para homenagear um escritor cujo estilo foi único, responsável por uma marca indelével na literatura brasileira do século passado, o perigo, a tentação da pura imitação parecem ainda mais sedutores. Mas confesso que Aleilton Fonseca me surpreendeu. Seu romance Nhô Guimarães consegue se situar sozinho e ganhar um lugar de destaque na produção literária da virada do século, sem qualquer traço de imitação.

Acredito que deva ter sido difícil para o autor decidir se valeria à pena ou não colocar o subtítulo. Se não o colocasse, muitos teriam simplesmente ignorado o livro com a rápida leitura do estilo dizendo: Mas quem que ele pensa que é? Um Guimarães Rosa? Por outro lado, colocando o subtítulo há sempre a tentação, para quem lê o livro, de dizer: o autor recriou o grande autor Guimarães Rosa, como se de repente, por alguma clonagem pudéssemos esperar um texto de Guimarães Rosa. Esse romance não merece nenhuma das duas ponderações.

Aleilton Fonseca tem um estilo próprio. Possui uma maneira de narrar elegante e sedutora. Sua linguagem tem muito do espírito de Guimarães Rosa, mas não o imita. O que ambas têm em comum é a grande naturalidade, a sensação de que as palavras vem da alma brasileira. Só assim podemos explicar porque palavras não encontradas no nosso dia a dia parecem ter sempre existido, são imediatamente compreendidas como se refletissem um mundo que nós temos em comum; quase que uma meta-linguagem radicada no nosso inconsciente coletivo.

Este é quase um livro de contos. Aleilton Fonseca trabalha numa das tradições mais antigas da narrativa, que é a aparência de transcrição de uma narrativa oral interligando diversos causos. Não difere do que encontramos nas Mil e Uma Noites, no Decameron e em muitas outras obras clássicas.

Há dois personagens centrais: Nhô Guimarães e Manu que trocam histórias, causos do sertão, das gentes do interior, de suas maneiras, modos, vinganças e paixões. Tudo com muita aceitação da natureza humana. Estes são interlocutores convictos de que cada ser humano tem seu destino e sua maneira de ser. Não há julgamentos necessariamente, simplesmente uma constatação da inevitabilidade das voltas que o mundo dá. Manu é uma excelente contadora de histórias, sozinha, ela nos conta como o narrador precisa render com o assunto: quem proseia precisa imaginar, palavrear, distrair o parceiro. Isto é o certo, as novidades boas e compridas. A verdade é só um começo. O melhor mesmo da história é o capricho da prosa [p.40].

Aleiton Fonseca certamente regeu com mestria a prosa cantada do sertão. Com ele é um grande prazer nos enveredarmos nos caminhos do interior; nos detalhes das vidas contadas e cantadas e nos embrenharmos nas tramas ora trágicas, ora cômicas, mas acima de tudo humanas, que revelam a riqueza das experiências sertanejas. Nota dez para este livro! Vá, compre-o. Você não vai se arrepender.


Disponível em: http://peregrinacultural.wordpress.com/2008/08/07/uma-volta-no-sertao-com-aleilton-fonseca-nho-guimaraes/ acessado em 28/07/2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Nhô Guimarães

Nhô Guimarães - ALEILTON FONSECA (Editora BERTRAND BRASIL, 176 pág.)


“Um certo dia tive um estalo: ‘Guimarães Rosa andava pelos gerais, de caderno em punho, conversando com o povo e anotando tudo. Ele dialogou com muita gente que acabou inspirando personagens de sua ficção. E se, de repente, uma personagem rosiana narrasse suas passagens pelo sertão?’”.

Aleilton Fonseca é conhecido também por outros grandes estalos literários. Por exemplo, os temas de dois de seus romances em ainda construção. Um, sobre a Guerra do Iraque. O outro, uma homenagem a Euclides da Cunha, que em 2009 será lembrado pelo seu centenário de morte.

O Nhô Guimarães, teria sido coincidência?, foi lançado sob as comemorações dos 50 anos de lançamento de Grande Sertão: Veredas. Isso necessariamente não quer dizer nada, ou quer dizer muita coisa — tirem vocês as suas conclusões. Mas vamos adiante.

Estalos a parte, Nhô Guimarães — romance-homenagem a Guimarães Rosa é um livro simpático, e bom em certos momentos. O enredo é inteligentemente divido como em as Mil e Uma Noites: pequenos causos dão dinâmica à história principal que é o saudosismo (constantemente envocado) da narradora, uma Sherazade octogenária sertaneja, pelo marido falecido, pelo filho que saiu de casa muito cedo e pelo estimado amigo Nhô Guimarães proseador de primeira que não a visita há anos.

Esses causos e confissões são contados a um estranho (sua identidade se revelará apenas no final do livro) que chega de chofre a sua casa e que ela, a priori, o confunde com o amigo das Letras. “Nhô Guimarães por aqui? Há quanto tempo! Ah, não. Nsh, nsh. Não é ele, não. Mas, quem é o senhor? Apeie, chegue à frente, a casa é nossa”. Assim começa.

O Ponto principal: a linguagem de Guimarães revisitada.

Tendo em vista as reais limitações que qualquer outro estilista teria em recriar Guimarães, Aleilton não fez feio. Alguns críticos disseram que a linguagem alcançada por Aleilton transcendeu ao formato de homenagem e reverência que o livro se propõe. Não concordo. Pelo contrário: o autor parece muito criterioso, não quer ousar tanto, simplesmente usufrui do léxico já consagrado por Rosa e o faz com certa competência, devo dizer. Aleilton parece saber da sua limitação e da grandeza infindável de Guimarães Rosa. Isso, é claro, não chega a ser demérito.

Se Castro Alves se dizia pequenino e no entanto fitava os Andes, Aleilton é o pequenino que não chega nem a querer fitar os Andes, mas sabe admirá-los, mesmo distante.

O texto acima foi postado por Ederval Fernandes, no blog "Fundo do poço"

Disponível em : http://moedoteca.blogspot.com/2008/02/nh-guimares-aleilton-fonseca.html
acessado em 23/07/09


AS FORMAS DE BARRO

Por: Calos Machado


Caros,

O escritor e professor baiano Aleilton Fonseca (1959-) é mais da prosa que da poesia. Em prosa, dois de seus trabalhos mais recentes são O Canto de Alvorada (contos, 2003) e Nhô Guimarães (romance, 2006). Na poesia, estreou em 1981, com Movimento de Sondagem. Em seguida, publicou O Espelho da Consciência (1984) e Teoria Particular (Mas Nem Tanto) do Poema — ou Poética Feita em Casa (1994).

Em 2006, Aleilton organizou As Formas do Barro & Outros Poemas, uma reunião de seus escritos poéticos, revista e diminuída. A uma seleção de poemas dos três livros anteriores agregou textos inéditos ou publicados dispersamente em revistas. Dessa coletânea extraí os poemas mostrados ao lado.

Muito ativo na área literária, Aleilton é também diretor da revista Iararana, sediada em Salvador, que vem se firmando como uma das mais permantes publicações da atualidade.

Quande se lê As Formas do Barro atentando para a evolução de um livro para outro, nota-se claramente a evolução da poesia de Aleilton Fonseca. Ao longo do tempo, o poeta vai-se apetrechando de de novas técnicas e ardis. Os textos ganham compleição mais sofisticada até desaguar em peças como "Moças e Garças" ou "As Formas do Barro", o poema-título.

Em "Moças e Garças" se desenha o lirismo do homem que olha para trás e se vê numa paisagem do interior, com o rio, as garças e as moças inatingíveis dos sonhos infanto-juvenis. Garças e moças diluídas no tempo. No metapoema "As Formas do Barro", o poeta aproxima a criação poética ao ofício do oleiro, que transforma a argila em objetos artesanais.


Um abraço, e até a próxima.


Disponível em: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet208.htm acessado em 23/07/09

domingo, 19 de julho de 2009

Novo espetáculo do Núcleo Criaturas Cênicas: Nhô Guimarães





O universo do homem sertanejo é o tema de Nhô Guimarães

Em 2008, ano em que se comemorou o centenário do escritor mineiro, João Guimarães Rosa, o Núcleo Criaturas Cênicas de Salvador/BA, realizou a adaptação do romance Nhô Guimarães (2006) para a linguagem teatral, do escritor baiano Aleilton Fonseca, escrito para homenagear os 50 anos do livro Grande Sertão: Veredas (1956) de João Guimarães Rosa. A adaptação para o teatro foi realizada por Deusi Magalhães e Edinilson Motta Pará, atriz e diretor desta montagem que teve sua pré-estréia no teatro do IRDEB em 27 de novembro de 2008.
O projeto Nhô Guimarães Pelo Sertão do Núcleo Criaturas Cênicas foi um dos vencedores do Programa BNB de Cultura/2009. Esta é a 6ª montagem deste grupo premiado em encenações como “Escoria” de Michel de Ghelderode e “A Pedra do Meio Dia ou Artur e Isadora” de Bráulio Tavares.
Cumprindo a agenda deste projeto a peça Nhô Guimarães teve sua estréia no sertão baiano percorrendo com suas apresentações, em maio de 2009, nas cidades de Senhor do Bonfim, Uauá, Canudos e participando da abertura do I Colóquio em Estudos Literários e Lingüísticos – UNEB - Campus XXII, em Euclides da Cunha. A peça segue agora para temporada de dois meses no Teatro do SESI – Rio Vermelho.
O espetáculo, em forma de monólogo, transpõe para o palco a vida, as idéias e a mítica do nosso sertão, privilegiando a linguagem falada rica em neologismos, recheadas de palavras incomuns próprias dessas regiões e tão presente nas obras do autor mineiro. Esse tratamento é mantido na encenação como forma de valorização da diversidade lingüística, existente na língua portuguesa, especialmente a encontrada no sertão brasileiro.
Essa visão é apresentada através dos causos contados por uma senhora octogenária a um visitante. Entre uma estória e outra, a velha cita a presença de um amigo do falecido marido, Nhô Guimarães, senhor de jeitos elegantes, que sempre os visitava, com "seu ouvido bom de ouvir causos e seus óculos pretos de aros redondos". Uma referência direta ao escritor mineiro João Guimarães Rosa. Enquanto relata suas lembranças, a velha desenvolve ações cotidianas, como coar um café, apertar um fumo de rolo, fazer um pirão, dar comida às galinhas etc., busca-se criar uma transposição de quem assiste para o ambiente do cotidiano interiorano.



Salvador

Teatro SESI Rio Vermelho
Apresentações: de 08 de agosto a 27 de setembro/2009
Sábados e domingos, 20 horas.
Ingressos: R$14,00 inteira e R$ 7,00 meia entrada

Para maiores informações:
Deusi Magalhães
(071) 9137-4567 e 3011-1437 magadeusi@gmail.com
Edinilson Motta Pará (071) 8754-2769 nilsinho67@hotmail.com
Fotos: Maurício Requião

Este texto foi retirado do blog “De tudo um pouco” de Leni David. Publicado em 17/07/09.

Fonte:http://blogs.abril.com.br/lenidavid acessado em 19/07/09.

sábado, 6 de junho de 2009

O homem cria a poesia, a poesia recria o homem


ou a poética existencialista de Aleilton Fonseca


Por: Gustavo Felicíssimo

O homem cria a poesia, a poesia recria o homem. É dessa forma que podemos olhar para a poética existencialista de Aleilton Fonseca, um grapiúna de Firmino Alves que passou a infância e a adolescência entre Ilhéus e Uruçuca. Aleilton reside em Salvador desde 1996 e sempre fez do estudo ligado à literatura o seu pão de todo dia, pois para ele "a literatura é uma sentença de vida; uma forma eficaz de conhecer profundamente o ser humano".

Membro da Academia de Letras da Bahia e Doutor em Letras pela USP, Aleilton é professor do curso de Letras da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), fundador e co-editor da revista de arte e cultura Iararana, se notabilizou como contista e nessa área publicou Jaú dos bois e outros contos (1997), O desterro dos mortos (2001), Canto de Alvorada (2003) e o formidável Nhô Guimarães (2006), um romance (de contista, segundo o próprio autor) concebido como uma homenagem ao escritor João Guimarães Rosa no cinqüentenário de Grande Sertão: Veredas. No entanto seus três primeiros livros foram todos de poesia: Movimento de sondagem (1981), O espelho da consciência (1984) e Teoria particular (mas nem tanto) do poema – ou poética feita em casa (1994).

Alguns poemas desses três primeiros livros formam, juntamente com outros poemas inéditos ou publicados de forma avulsa, o opúsculo As formas do barro e outros poemas (2006), uma seleta que comemora os seus 25 anos no fazer poesia e que nos dá uma boa idéia dos elementos que a compõe.

Há na poesia de Aleilton Fonseca uma tensão entre o clássico e o moderno, um querer embriagar-se que sabe dos perigos de tal atitude, por isso mantém um pé na tradição e outro na contemporaneidade, estabelece uma ordem entre o presente e o passado, dentro de uma forma modelar, reflexo da incerteza de um futuro frente ao presente fragilizado, explicitado no poema Sondagem: No exercício da palavra/ ressuscito de meus naufrágios/ e construo novos barcos.// Encho-os de sorriso/ que satisfazem aos desavisados.// E, pois, sol após sol,/ singro o mar que não sei/ e adio o suicídio/ que nunca cometerei.

Quando possuímos alguma qualidade literária podemos evocá-la por precisarmos reconhecer nossa capacidade, concisão, graça ou leveza. Podemos, assim, estar fortalecidos no momento de utilizá-la em benefício da nossa poesia sem que seja necessário buscar um exemplo de boa aplicação em outros autores, de modo contrário nos tornamos imitadores baratos dos nossos pares ou daqueles que nos precederam. Assim Aleilton ousa misturar em seu caldeirão algo da poesia concreta de Décio Pignatari com os preceitos modernistas dos escritores da Semana de Arte de 1922 no poema Consumatum est: Compre: beba, coma, vista/ pegue, passe, pague, gaste-se/ entre, coma, entre em coma/ vista bacana, beba bacana/ babe, beba, gaste a grana/ compre linha, linho, lã. (...) Cheque o seu cheque e mate-se:/ impreste-se, suco ou muco,/ ao consumo, à soma, avaro,/ consuma-se de vez em vão,/ corra, suma pelo ralo, morra,/ mas ainda compre: um caixão.

Ousadia pura que se alicerça no domínio da linguagem, do ritmo, da estética e na maturidade de um autor que conhece e reconhece as montanhas do seu tempo, as respeita, e as homenageia como no poema Canto de água preta, onde o poeta brinca com o nome de outro bardo grapiúna, Florisvaldo Mattos: (...) É um canto de verdes passagens/ com flores, vau do (rio e) matos,/ às sombras frias dos cacauais,/ com seu corpo de ventos e regatos/ e vozes de almas vivas e vendavais.(...)

Os poemas apresentados até aqui, bem como todos aqueles inseridos em As formas do barro e outros poemas, obviamente, possuem autonomia enquanto unidade rítmica e semântica, mas estão incluídos em um conjunto, um projeto que mostra a cosmovisão do autor interessado pela essência poética, revelando que um poema não é apenas um fenômeno de linguagem, mas também de idéias. Prova disso é o destaque que tem as críticas em relação ao comportamento da nossa sociedade e a metaposeia em sua obra. Sobre este último exemplo, vários poemas poderiam ser destacados, inclusive o que dá título ao livro, porém preferimos eleger outro, o poema Manifesto, que também poderia se chamar "Profissão de fé", título de um poema de Olavo Bilac que traz em si o mesmo tom confessional que este de Aleilton: Se contenho/ o impulso da minha palavra/ não sobrevivo à mudez:// Palavra é vida.// Se as armas capitulam/ às amarras do dia-a-dia,/ sangram ante ao fio do cutelo;// Mãos atadas; mãos decepadas.// Se as veias não veiculam/ a brasa do sentimento,/ sucumbem ao gelo da vida pedra.// Nada mais resta/ senão fazer-se vida.

Enfim, "estamos diante de um poeta consumado, alguém que, nos últimos 11 anos, a despeito de quase haver trabalhado contra a divulgação de seus próprios poemas, não conseguiu abandonar a poesia, ou ser abandonado por ela.", disse o jornalista, crítico literário e poeta Ricardo Vieira Lima, prefaciador do livro aqui apresentado.

Artigo publicado originalmente no Jornal Agora, de Itabuna, Caderno Banda B


fonte:http://sopadepoesia.zip.net/arch2008-03-30_2008-04-05.html

sexta-feira, 5 de junho de 2009

INTENSA HUMANIDADE

Este texto foi retirado do site de Carlos Ribeiro, jornalista e escritor.

Texto 1

CONTOS - Marcado por intenso lirismo, livro de Aleilton Fonseca traz narrativas densas, com ênfase nas memórias da infância.

Jornal A Tarde - 18/12/01

Carlos Ribeiro

A palavra exata associada a uma vivência profunda; a observação arguta e sutil da vida, expressa através de um olhar marcado por um profundo lirismo, que compõe, passo a passo, e com extremo cuidado, uma construção artística plena de significados. Isto é o que se pode dizer, logo de partida, dos 12 contos do escritor baiano Aleilton Fonseca, reunidos no livro Desterro dos Mortos (Relume Dumará, 121 páginas).

A obra inclui cinco histórias anteriormente publicadas em Jaú dos Bois e Outros Contos - um dos vencedores do Prêmio Cultural de Literatura 1996, da Fundação Cultural da Bahia: livro de apenas 52 páginas, mas que obteve considerável reconhecimento por parte da crítica, com referências entusiasmadas à elegância da linguagem simples, justa e densa de significados (Luís Antônio Cajazeira Ramos), à leveza e à criatividade dos textos “combinadas com a habilidade de quem sabe equilibrar as palavras” (Kátia Borges), à junção da “profusão de sentimentos vivos do seu universo ficcional num espaço definido e preciso: o espaço da escrita...” (Cid Seixas), à “simplicidade de alto nível, como se quer a simplicidade literária” (Gláucia Lemos), ao “domínio da técnica formal a serviço de uma sensibilidade aguçada” (Luís Ruffato) e à sutil análise psicológica que lhe dá um caráter universal (Dominique Stoenesco).

Nesse livro, Aleilton confirma sua posição entre os melhores escritores brasileiros de sua geração, fato perfeitamente constatável por quem se dispuser a ler contos como O Sorriso da Estrela - incluído na antologia 25 Contistas Baianos, organizada por Cyro de Mattos no ano passado -, O Avô e o Rio, O Pescador e O Sabor das Nuvens, entre outros. Peças primorosas que garantem, como assinala a professora Rita Aparecida Coêlho Santos, no posfácio, a permanência do narrador - o mesmo do qual se vaticinou a morte, mas que está mais do que nunca vivo e atuante.

Segundo Rita Aparecida, Aleilton Fonseca aproxima-se do narrador clássico, conforme caracterização que dele fez Walter Benjamim em famoso ensaio sobre Nicolai Leskov. “Em geral, seus contos são relatos de vivências poderosamente nossas e ao mesmo tempo universais, porque falam dos mistérios da vida e da morte, e é isso que eleva a nossa alma e nos faz pensar na necessidade de intercambiar experiências e ouvir conselhos”, diz ela.

As contradições - muitas vezes ilusórias - entre tradição e modernidade, regional e urbano ou local e universal desaparecem, aqui, na alquimia que une experiência e linguagem. Experiência profunda, linguagem depurada - eis a base sobre a qual se constrói o edifício ficcional do autor. Os tijolos são os velhos e inextingüíveis temas: a solidão, a loucura, o amadurecimento, a amizade, o ciclo de nascimento, amadurecimento e morte, o amor.

O menino que só compreende a irmã “doida” - que lhe ofertava uma estrela - depois da sua morte; o menino que acompanha a luta do avô com o rio, que avança mais e mais sobre suas terras; o homem que retorna, após muitos anos, à fábrica inexistente, agora apenas um terreno tomado pelo mato, na qual sempre fora proibido de entrar; a avó que, docemente, espera a volta do marido morto, após tantos anos... histórias tocadas pelo mais intenso lirismo e que, como num conto de Tchekov, livre de qualquer sentimentalismo fácil, nos restituem o direito de chorar e rir, esquecidos de que estamos diante de uma ficção.

Vale destacar o conto que abre o volume - Nhô Guimarães -, engenhosa narrativa que reconstitui a imagem do escritor Guimarães Rosa, através da fala (em estilo roseano) de uma mulher, que rememora as visitas do escritor a ela e ao seu marido, no sertão de Minas Gerais. História transformada, posteriormente, num romance, ainda inédito.

O livro de Aleilton Fonseca -poeta, ficcionista, ensaísta, professor universitário e editor da revista iararana - pode ser recomendado como uma excelente opção para presentear os amigos nessas festas natalinas. Presente inesquecível, com certeza.

fonte: http://www.carlosribeiroescritor.com.br/

Texto 2

O TERRITÓRIO SAGRADO DA ALMA NA OBRA DE ALEILTON FONSECA

É sob o signo da amizade que compareço a este espaço para apresentar, como se isto fosse necessário, o escritor Aleilton Fonseca, meu prezado companheiro de geração. Amigo de longo curso em águas que confluíram para um mesmo ponto, naqueles já remotos anos 70/80, tempo de manifestações contra a ditadura militar, já em seus estertores; de longas conversas sobre literatura e política na República dos Estudantes, onde ele morava, na Federação; de encontros na Literarte; de noitadas do Raso da Catarina ou de aventuras nas frias noites da Ilha dos Frades, próximo ao cemitério onde acampamos, em volta do fogo, com o nosso amigo poeta Geraldo Alves, comendo arroz integral e bebendo café de cevada, próximo ao povoado de Nossa Senhora do Guadalupe, diante do Mar Incógnito e de todos os sonhos ainda por realizar. Ali, comungávamos o mesmo amor pela vida, pela revolução, pela poesia. Sim, era um tempo primevo aquele, no qual, vejam os senhores, como se isto fosse possível, o meu dileto amigo ainda não possuía esse respeitável bigode, parecia um índio recém-saído das matas do sul baiano e tocava doces canções com sua clarineta, nas horas vagas de um tempo sem relógio.

Digo, pois, a palavra amizade com o que ela evoca de mais nobre: a fraternidade, o respeito, a admiração, o riso franco, mas também um repertório de vivências compartilhadas, que vem se somando, ao longo de 25 anos, e consolidando, com a maturidade, aquela consideração que hoje parece tão deslocada no mundo pós-moderno, mas que é ainda freqüente entre os homens e mulheres simples do interior. Homens e mulheres que compõem um universo riquíssimo, aliás, tão bem retratado na ficção deste escritor, hoje prestigiado neste espaço.

Falar de Aleilton e da sua obra é evocar essa autenticidade. Uma qualidade, meus amigos, bastante rara nesta floresta de signos midiáticos, neste cipoal de simulacros, mas que ainda existe adormecida sob camadas de convenções do homem urbano. Deste homem, como disse o cronista Rubem Braga, “cujo calendário é o vencimento dos títulos, os invencíveis títulos, que se vencem ao sol e à chuva com a mesma triste pressa, a mesma cruel monotonia”. Este homem assoberbado por compromissos e medos, habitante de um mundo que parece estar cada dia mais fora dos seus eixos.

É a esta autenticidade que Aleilton, amigo e escritor, nos reconduz, com firmeza, mas também com doçura, ele mesmo paradigma dos seus personagens: aquele que, numa relação de profunda honestidade com a vida, vivencia profundamente suas dores, suas perdas e seus encontros, em busca de uma transcendência que só é verdadeiramente compreendida no confronto com o sofrimento e com a morte. Não necessariamente a morte física, mas também a morte simbólica, elemento fundamental dos ritos de passagem. Há de se morrer para se tornar imortal.

Por isso, falar de Aleilton e da sua obra é, para mim, a mesma coisa; nele pode-se compreender, com exemplar nitidez, o sentido da obra como biografia do autor, conforme definição de Octavio Paz. Isto porque sua vida é o principal alimento da sua escrita. E vice-versa, pois, como ele mesmo, Aleilton, já declarou, escrever é “cumprir uma sentença de vida”. Quem leu seus livros certamente percebeu que todos os elementos do seu mundo ficcional resultam numa rede tecida habilmente, na qual tudo converge para um fim, mas que nunca se esgota. Fim que é marco de novos reinícios, de novas possibilidades de re-significação.

E não seria característica de toda obra literária de alto valor esta sensação de que tudo só começa, efetivamente, quando se chega ao fim? É no eco, que ressoa ao final de uma obra, que nos encontramos verdadeiramente. O melhor texto é aquele que nunca termina.

Mas, antes de me deter um pouco mais na vertente mais conhecida e festejada da produção intelectual de Aleilton Fonseca – sua ficção, através da qual, inclusive, já ganhou importantes prêmios – deixem-me ressaltar que não se deve esquecer o poeta lírico de aguda sensibilidade, autor de três livros de poesia: Movimento de sondagem (Menção Honrosa no Prêmio Literário da Universidade Federal da Bahia, editado em 1981 pela Coleção dos Novos da Fundação Cultural do estado da Bahia), O espelho da consciência (Edição do Autor, 1984) e Teoria particular (mas nem tanto) do poema (Edições D´kasa, São Paulo, 1994). Relegada, hoje, a uma posição discreta na sua intensa atividade intelectual, nela se encontram, entretanto, algumas sementes que nos possibilitam compreender o universo íntimo do autor, a sua vital necessidade de dizer, já que “Calar é ceder à morte”.

Estão lá, no seu livro de estréia, Movimento de sondagem, vários elementos que configurariam, mais tarde, numa fase mais madura, o ficcionista. Por exemplo: a infância, como um dos elementos centrais do seu mundo poético e ficcional, aqui referido diretamente pela expressão lírica, sem o anteparo do construção ficcional. Como neste “Poema da rua da infância”:

Os dias passaram
Sobre a rua da infância
E revolveram sua terra
Até fazê-la estranha.
Nada mais lembra as barragens na enxurrada,
Nem os naufrágios das esquadras de papel.

No antigo campo dos bemequeres
Florescem agora os malmequeres,
Penetras na festa das pálidas rosas
De um jardim que não tive nem quero.

Que memória esta rua guarda da minha infância,
Senão meus rastros, sepultos sob calçadas novas
Que ocultaram as minhas estradas?

Ou ainda neste “Memórias”, um dos poemas do segundo livro do autor, O espelho da consciência:
Os passarinhos
Que sobrevoaram a infância
Sobrevivem mortos.

O ribeirão conduziu travessuras
E afogou-se no mar.

Os miúdos rastros
Permanecem na memória do vento
E são marcas de outros
Caminhos.

E a criança
Espia o mundo
lá dentro do adulto.

Não menor atenção merece sua ensaística, com destaque para o seu minucioso e rigoroso estudo Enredo romântico, música ao fundo: Manifestações lúdico-musicais no romance urbano do Romantismo, fruto da sua dissertação de Mestrado, publicado em 1996 pela Sette Letras, do Rio de Janeiro, e o ainda inédito A poesia da cidade: imagens urbanas em Mário de Andrade, tese de doutorado defendida em 1997, na USP. Sem falar, é claro, no rico conjunto de artigos, ensaios, estudos, resenhas e conferências publicados em jornais e revistas do Brasil e do exterior.

Mas, se foi na ficção que ele se revelou, no final dos anos 70, no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia, então organizado pelo escritor e jornalista Adinoel Motta Maia, é também nela que Aleilton conseguiu realizar, até o presente momento, o melhor da sua produção. Na abalizada opinião de Ricardo Vieira Lima, Aleilton é um autor que pertence à linhagem do realismo psicológico, iniciada no século 19 por Stendhal, e que adentrou o século 20 influenciando várias gerações de escritores, dentre os quais se incluem Katherine Mansfield, Virgínia Woolf, Graciliano Ramos, Lúcio Cardoso e Clarice Lispector, entre outros. O que lhe interessa é, portanto, conforme assinala Vieira Lima, “retratar a paisagem interior de seus personagens, e perscrutar seus dramas íntimos”.

Aleilton perscruta o íntimo de seus personagens, sim, mas não, como grande parte dos autores de sua geração, como quem mexe numa lata de lixo. Ele perscruta seus dramas como quem adentra um território sagrado, o território sagrado da alma, com uma profunda solidariedade. Talvez seja esta solidariedade, e não o fato de situar suas histórias em “ambientes urbanos de cidades interioranas”, que lhe imprime a sensação de estar na contramão das tendências atuais da ficção urbana neonaturalista. O olhar de Aleilton é marcado por uma profunda generosidade: aquela que traz uma compreensão profunda das ossadas que jazem sob as aparências dos atos e comportamentos aparentemente normais. Não daquelas que resultam de grandes crimes e castigos, mas dos erros e desentendimentos que marcam as relações humanas cotidianas – sobretudo as familiares.

Ao contrário de Poe, Aleilton não caminha pelas áreas interditas, pelas zonas da exceção, mas por outras sendas, mais familiares, porém, muitas vezes, também perturbadoras. Não por acaso, a escavação é freqüentemente referida nos seus textos: escavação da terra, dos escombros, das palavras. É através dela que seus personagens conhecem “a sala escura do lar”. Mas, ao reviver a ferida, segue-se a cura e não a condenação. Trazendo á luz os fantasmas das catacumbas, reencontra, pela linguagem, como pharmakon, remédio, o sentido através do qual é possível finalmente enterrar o passado.

A morte, a infância, os ritos de passagem, o doloroso processo da conscientização, a consolidação da identidade no confronto com a natureza que oferece resistência, a memória, o resgate impossível do vivido, a imprevisibilidade dos jogos amorosos, a amizade que vence o tempo e a morte, a dor da perda e da separação, a indefinição dos limites entre o vivido e o imaginado, ou o ficcionalizado (a “pura invenção de letras e frases”): estes são alguns dos elementos básicos do universo ficcional de Aleilton, os tijolos com os quais constrói, ora um casebre, ora um palácio, ora um abrigo para o inverno de suas desesperanças.

São estas, portanto, as unidades básicas de contos belos e pungentes, como “O avô e o rio”, “O sorriso da estrela”, “Jaú dos bois”, “O sabor das nuvens”, “O desterro dos mortos”, “O canto de Alvorada”, “A última partida” e “Descanse em paz”. Contos escritos com enganosa simplicidade, nos quais se flagra, aqui e ali, efeitos de estilo e intervenções do autor/narrador (ali, como disse Hélio Pólvora, onde o ficcionista dá as mãos ao crítico) e todo um jogo de metalinguagem que lhe imprime o sabor, nem sempre palatável para alguns gostos, da chamada pós-modernidade, aliada ao rigor clássico de suas construções de linguagem.

Muitos dizem, não sem razão, que Aleilton é um autor que escreve dentro da tradição, que dialoga com os clássicos, mas não se deve deixar passar despercebida a dimensão sestrosa das artimanhas poéticas deste escritor que, num jogo de ilusionismo, certamente está bem à frente de muitos que, um tanto apressadamente, autodenominam-se “transgressores”. “Arquiteto de epifanias”, no dizer de André Seffrin, Aleilton retoma o fio da tradição oral e, em meio ao tiroteio de desconstruções e fragmentações, preserva, ainda bem, o sabor das histórias contadas antigamente à volta do fogo. E dá-lhes sobrevida.

Para finalizar, quero dizer que Aleilton Fonseca é, sem dúvida, uma figura de proa da minha geração – um intelectual que constrói, pedra por pedra, o seu próprio caminho, com absoluta integridade, e faz dele, com não menor generosidade, um caminho que é também o de todos nós. Disto posso dar testemunho, desde quando, jovens autores de 18 anos, fomos revelados no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia, em 1978; quando nos encontramos, pela primeira vez, em 1979, em torno do movimento que levou à criação do Clube da Ficção e à publicação do jornal Aqui Ficção; quando publicamos, em 1981, na Coleção dos Novos, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, criada e coordenada por Myriam Fraga; e quando, em 1998, lançamos a revista de arte, crítica e literatura Iararana, que chegará em breve ao 11° número, com prestígio consolidado e com ânimo renovado no seu propósito de divulgar autores brasileiros de diversas gerações.

Aos 46 anos, ficcionista, poeta, ensaísta, professor universitário respeitado nacionalmente e membro da Academia de Letras da Bahia, para a qual foi eleito, em 2004, com a quase unanimidade dos votos dos integrantes da Casa, Aleilton, segundo desconfio, está apenas aquecendo os motores da sua nave intergaláctica. Não para a obtenção de cargos e honrarias, meras contingências, mas para vôos mais altos na Arte que exerce com rigor, talento e seriedade.

Apresentação de Aleilton Fonseca, no projeto Com a palavra o escritor, promovido pela Fundação Casa de Jorge Amado. 2005.

fonte: http://www.carlosribeiroescritor.com.br/

quinta-feira, 4 de junho de 2009

ENTREVISTA COM ALEILTON FONSECA

Encontrei essa entrevista no blog SOPA DE POESIA

e gostaria de compartilhar...

Autor: Gustavo Felicíssimo

Gustavo Felicíssimo – Para você, Aleilton, quais podem ser as chaves de acesso à poesia?

Aleilton Fonseca – O acesso à poesia se dá por dois fatores iniciais. Primeiro, por indução e incentivo à leitura, através de recomendações de um leitor mais experiente, sejam pais, parentes, amigos, professores. Depois, esse acesso se dá através da sensibilidade pessoal, quando a própria pessoa, uma vez iniciada na leitura de poemas, vai fazendo suas descobertas e ampliando paulatinamente a sua experiência de leitura e de compreensão de obras e autores, tornando-se um leitor cada vez melhor. Nem todas as pessoas se identificam com a natureza do texto lírico, embora algumas vezes na vida possam experimentar momentos de percepção e fruição poéticas. Gostar de ler é uma tendência que precisa ser estimulada. Gostar de ler poesia é uma vocação rara, quase um dom; um sopro de uma sensibilidade especial. O acesso à poesia é misterioso; exige uma conjugação de sensibilidade, inteligência e capacidade de percepção para além do lógico, prosaico e cotidiano.

GF – Em um ensaio muito bonito e útil, você reflete sobre a situação do poeta na sociedade contemporânea, onde afirma que "o poeta moderno vive uma situação de deslocamento". Estamos, definitivamente, condenados a estar fora de contexto?

AF – Na antiguidade clássica, Platão expulsou o poeta da República, por uma questão filosófica. Como produtor de um discurso metafórico e imagístico, ele é "deslocado" da pólis, lugar de convívio dos homens práticos, senhores do discurso da ordem e dos saberes racionais. Na modernidade capitalista ocidental, o poeta foi expulso da metrópole por uma questão econômica. Como produtor de um discurso que se recusa a ser mercadoria, ele é "deslocado" do oikos¸ lugar de convívio dos homens práticos, donos do discurso da ordem e da produtividade de bens de consumo de massa. No entanto, em sua condição de deslocado, ou seja, fora de lugar, o poeta pode observar o mundo, com distanciamento e amplitude de visão, transformando sua experiência e vivências em discurso, numa linguagem de enunciação crítica da pólis moderna e contemporânea. Sua condenação é, semelhante àquela de Sísifo, rolar a pedra da poesia até o ponto mais alto possível da consciência humana. E recomeçar sempre a mesma jornada, repetindo os discursos da poesia moderna na contra-mão da própria modernidade.

GF – A poesia é a legítima defesa do poeta?

AF – A poesia é a legítima defesa e a condenação do poeta. Se perder a voz poética, ele pode entrar em sofrimento existencial. Anula-se, tornando-se um ser comum, em meio à multidão sem rosto. Por outro lado, o exercício da poesia o torna um ser marcado, para quem os homens práticos olham com desconfiança e disfarçada comiseração.

GF – Que relações você percebe estabelecer entre a sua obra em prosa e a sua poesia?

AF – A princípio, prosa e poesia são diferentes modos de produzir linguagem literária; mas já não se repelem entre si; ao contrário, muitas vezes se juntam, amalgamam-se, na poesia prosaica, na prosa poética, na narrativa lírica, no poema narrativo. Na modernidade, definitivamente a prosa e a poesia fizeram as pazes; uma convoca a outra para andarem juntas nos textos. Tanto na poesia como na prosa, eu penso que sou um autor que parte de leituras da tradição moderna para dizer algo novo numa linguagem ao mesmo tempo trabalhada e acessível, simples e comunicativa. Quero ser simples, sem ser simplório. Meu objetivo não é complicar; mas sim encantar e impressionar o leitor. Mesmo que isso o incomode um pouco. Literatura é um diálogo cifrado à distância, no tempo e no espaço. O escritor escreve o que pensa e sente estar escrevendo; o leitor lê o que pensa e sente estar lendo. Cada qual forja seu texto, sua leitura, sua compreensão pessoal e intransferível do texto e da vida. O que lemos e sentimos, hoje, no texto de Dante, será o mesmo que ele pensou e sentiu ao escrever? Não, definitivamente não. Literatura é este mistério simples e insondável.

GF – Machado de Assis foi um bom poeta, porém seus contos e romances são extraordinários, o que fez os seus poemas serem relegados a um segundo, e até terceiro plano pela crítica e também pelos seus leitores. Dada a aceitação da sua obra em prosa por parte da crítica, leitores e mercado, você crê que isso também pode acontecer com os seus poemas?

AF – Em primeiro lugar, é impossível comparar um nome altamente consagrado, como Machado de Assis, com um simples autor contemporâneo. Mas, na verdade, tudo tem sua contrapartida lógica e necessária. Talvez até por causa desse relativo esquecimento, acaba de sair uma esmerada edição das poesias completas de Machado de Assis, por uma grande editora. Assim, os leitores são convidados e provocados a ler sua poesia. Ora, as circunstâncias também fazem o escritor. A ficção, sobretudo o romance, tem muito mais atenção das editoras, dos críticos e do mercado. Se o poeta escreve um romance, ou mesmo um livro de contos, tem mais chance de editar, crescer, ganhar algum dinheiro de direitos autorais. Se ele diz ao editor que tem um livro de poemas, recebe uma resposta lacônica e evasiva. Se anuncia um livro de contos, recebe a vaga promessa de que a obra será avaliada. Mas, se disser que está concluindo um romance, o editor logo se anima: "Ao terminar, mande-nos imediatamente". O que significa isso? Poesia não vende ou não querem vender poesia? Ficarei como poeta? Ficarei como ficcionista? Aliás, ficarei? Não sei. No fundo isso não me preocupa muito. Sou, sobretudo, um escritor: escrevo crônicas, contos, romance, ensaios e poesia. A crítica e os leitores que façam bom proveito, como acharem melhor. Fico satisfeito e agradecido que me leiam, que me notem, que avaliem o meu trabalho, quer seja poesia, ensaio ou ficção. O tempo é o verdadeiro e implacável juiz.

Fonte: http://sopadepoesia.zip.net/arch2008-03-30_2008-04-05.html

Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

na Librairie Orfeu, em Bruxelas, Bélgica

Outubro de 2008


Bio-bibliografia


ALEILTON FONSECA

ALEILTON (Santana da) FONSECA nasceu em Itamirim, hoje Firmino Alves - Bahia, em 21/07/1959. É casado e tem 2 filhos. É poeta, ficcionista, ensaísta e professor universitário. Em 1963, sua família se fixou em Ilhéus-Bahia, onde o autor viveu a infância e a adolescência, cursou até o primeiro ano do segundo grau, escreveu e publicou seus primeiros textos em jornais.

Aleilton começa a escrever ainda no segundo grau, motivados pelas lições e leituras de poemas, crônicas e romances. Em 1977, ingressou na EMARC, escola de Uruçuca - Bahia, onde se formou em Técnico Agrimensor, mas nunca foi buscar o diploma. Nesse ano começa a publicar contos e poemas no Jornal da Bahia, de Salvador, tendo vencido 3 vezes o seu Concurso Permanente de Contos. Publica também no suplemento A Tarde/Novela, de A Tarde. Em Ilhéus passa a assinar a coluna "Entre Aspas", no Jornal da Manhã. Em dezembro de 1977, aos 18 anos, sai sua primeira entrevista, no Jornal da Bahia, quando é apresentado por Adinoel Mota Maia, como um novo escritor que surgia no sul da Bahia. Ainda neste ano, vence um prêmio de contos da Editora Grafipar, do Paraná, além de outros locais. Em 1979, ingressa no curso de Letras da UFBA, e se transfere para Salvador, que adota como seu ambiente de formação cultural. Organiza seu primeiro livro de poemas, que recebe Menção Honrosa no concurso Prêmios Literários Universidade Federal da Bahia – 1980 e é, logo depois, selecionado para abrir a série de poesia da Coleção dos Novos, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, que publicou 14 novos autores baianos no início da década de 80 e fixou o perfil da Geração 80 no estado.

Em 1981 publica o seu primeiro livro, Movimento de Sondagem (Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1981) que recebeu, entre outros, a atenção de Carlos Drummond de Andrade, que lhe escreveu uma carta de incentivo e de Rubem Braga, que publicou dois de seus poemas na coluna “A Poesia é Necessária”, na Revista Nacional, semanário que circulava encartado nos principais jornais das capitais.

Começa a lecionar Português no ensino fundamental, criando uma oficina literária, cuja produção discente era publicada em murais, em coletânea e nos suplementos infanto-juvenis de jornais, como o JOBA, do extinto Jornal da Bahia. Conclui o curso de Letras e passa a lecionar Literatura e Língua portuguesa. Em 1984 ingressa, como professor, no curso de Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, transferindo-se para a cidade de Vitória da Conquista. Publica o livro de poemas, O espelho da consciência. Em 1988, especializa-se em Literatura brasileira, ao ingressar no Mestrado em Letras, na Universidade Federal da Paraíba. Fixa-se com a família em João Pessoa. Em 1990 retorna às atividades na UESB, trabalhando no curso de Letras, divulgando literatura, incentivando a formação de leitores de poesia através de cursos preparatórios para professores. Em 1992 defende tese de mestrado, sobre música e literatura romântica, que será publicada em livro em 1996, pela editora 7Letras, com o título: Enredo Romântico, música ao fundo: manifestações lúdico-musicais no romance urbano do romantismo. Passa a publicar ensaios e resenhas em suplementos de jornais e em revistas universitárias. Em 1993 ingressa no Doutorado em Literatura Brasileira, na Universidade de São Paulo, fixando-se com a família na capital paulista. Em 1994, publica, em edição artesanal, o metapoema Teoria particular (mas nem tanto) do poema. Conclui o doutorado na USP em 1997, com a defesa de uma tese intitulada: “A poesia da cidade: Imagens urbanas em Mário de Andrade”, que sairá em livro proximamente.

Ainda em 1996 retorna a Salvador, onde fixa residência até a atualidade. Retoma suas atividades, junto aos demais escritores da geração 80. Organiza, com Carlos Ribeiro o livro Oitenta: poesia & prosa (Coletânea comemorativa dos 15 anos da Coleção dos Novos). Salvador: BDA-Bahia, 1996, que serviu de base para a definição da geração 80, na antologia A Poesia na Bahia no século XX, organizada por Assis Brasil (Rio: Imago,1999). Concorre ao "Prêmios Culturais de Literatura" da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com o livro Jaú dos Bois, que fica entre os vencedores (3o Lugar) e é publicado pela Relume Dumará, em 1997. O livro esgota rapidamente, obtendo expressiva acolhida da crítica, com vários artigos, tornando-se objeto de estudo em cursos de Letras, na Bahia. Em 1998, funda, em parceria com Carlos Ribeiro e outros escritores, Iararana – Revista de arte, crítica e literatura, periódico de divulgação da geração 80. Retoma suas atividades na UESB, lecionando e orientando bolsistas de iniciação científica e monitoria em literatura.

Em 1999, transfere-se para a Universidade Estadual de Feira de Santana, integrando-se ao grupo fundador do curso de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural (PPgLDC), tendo já orientado várias dissertações concluídas. Como professor do mestrado, desenvolve pesquisas sobre a representação lírica da cidade na poesia moderna e contemporânea, com o projeto “Imagens urbanas na Literatura”. Como parte disso, pesquisa a representação de imagens da Bahia na poesia brasileira. Como professor pesquisador, orienta trabalhos e dissertações de alunos de pós-graduação e de iniciação científica, na área de literatura baiana e brasileira.

Em 2003 leciona, como professor convidado, na Universidade de Artois (França). Neste ano e nos seguintes faz palestras nas Universidades: Sorbonne Nouvelle, Nanterre, Artois, Rennes, Toulouse Le Mirail (França) e ELTE (Budapeste). Tem participado de diversos eventos universitários e culturais em vários estados do país.

Em 2001 publica o livro de contos O desterro dos mortos. Nesse ano recebeu o Prêmio Nacional Herberto Sales – Contos, da academia de Letras da Bahia, com o livro O canto de Alvorada, publicado em 2003,com 2ª edição em 2004, pela Editora José Olympio. Em 2005 co-organiza (com o escritor Cyro de Mattos), o livro O triunfo de Sosígenes Costa: estudos, depoimentos, antologia (Ilhéus: Editus; Feira de Santana, UEFS Editora, 2005.), que recebeu o Prêmio Marcos Almir Madeira 2005, da União Brasileira de Escritores-RJ. Participa de várias antologias e coletâneas de poesia e de prosa, na Brasil e no exterior. Tem livros inéditos em poesia, infanto-juvenil, contos e ensaios

É co-fundador e co-editor de Iararana, revista de arte, crítica e literatura, editada em Salvador desde 1998, já no nº 13. É co-editor de “Légua & Meia - Revista de Literatura e Diversidade Cultural” da PPgLDC/UEFS. Foi editor da revista Heléboro (UESB, 1997-98). Participa da comissão editorial das revistas Politeia (UESB), Ágere (UFBA) e Floema (UESB). É co-editor de Légua e Meia - revista de Literatura e Diversidade Cultural (PPGLDC/UEFS). Tem colaborado com revistas e suplementos literários, no país e no exterior. Em 2006, publicou poemas em francês, traduzidos por Dominique Stoenesco, na edição especial da revista Autre Sud, de Marselha/França, no dossiê poético “Voix croisées Brésil-France”. Participa do dossiê bilíngue de poesia Português/Francês da revista Iararana n° 11. Já publicou vários artigos e resenhas, além de diversos poemas e contos em revistas, jornais e sites, no Brasil e no exterior.

Em 2009 completou 50 anos e foi homenageado pelo Lycée des Arènes, em Toulouse-França, com uma exposição de trabalhos de alunos sobre seu livro Les marques du feu. Na Bahia foi homenageado pelo IL-UFBA, através de um seminário sobre sua obra, e também pela Academia de Letras da Bahia. Neste mesmo ano, seu romance Nhô Guimarães foi adaptado para o teatro e encenado em Salvador e outras cidades.

É correspondente da revista francesa Latitudes: cahiers lusophones. Desde 2005, pertence à Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira nº 20. É membro da UBE-São Paulo e do PEN Clube do Brasil.

Livros de poesia, ensaio, contos e romance:

1.Movimento de Sondagem. Salvador; Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1981. “Coleção dos Novos, vol. 2 – série Poesia”.

2. O espelho da consciência. Salvador: Gráfica da UFBA, 1984.

3. Teoria particular (mas nem tanto) do poema — ou poética feita em casa. São Paulo: Edições D’Kaza, 1994.

4. Enredo romântico, música ao fundo. (ensaio) Rio de Janeiro: 7 Letras, 1996.

5. Oitenta: poesia e prosa. Coletânea comemorativa dos 15 anos da “Coleção dos Novos”. Salvador: BDA-Bahia, 1996. (org. Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro)

6. Jaú dos bois e outros contos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.

7. Rotas e imagens: literatura e outras viagens. Feira de Santana: UEFS/PPGLDC, 2000. (Org. Aleilton Fonseca e Rubens Alves Pereira)

8. O desterro dos mortos (contos) Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

9. O canto de Alvorada (contos). Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

10. O triunfo de Sosígenes Costa. Ilhéus: Editus, 2004. (Org. Cyro de Mattos e Aleilton

Fonseca).

11. As formas do barro & outros poemas. Salvador: EPP. 2006.

12. Nhô Guimarães (romance). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

13. Todas as casas (contos, livro coletivo). Salvador: EPP, 2007.

14. Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia. Paris: Lanore, 2008. (Tradução de Dominique Stoenesco).

15. Guimarães Rosa, écrivain brésilien centenaire. Bruxelas, Librairie Orfeu, 2008.

16. O olhar de Castro Alves. (org.). Salvador: ALB/ALBA, 2008.

17. O pêndulo de Euclides (romance). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.