sexta-feira, 5 de junho de 2009

INTENSA HUMANIDADE

Este texto foi retirado do site de Carlos Ribeiro, jornalista e escritor.

Texto 1

CONTOS - Marcado por intenso lirismo, livro de Aleilton Fonseca traz narrativas densas, com ênfase nas memórias da infância.

Jornal A Tarde - 18/12/01

Carlos Ribeiro

A palavra exata associada a uma vivência profunda; a observação arguta e sutil da vida, expressa através de um olhar marcado por um profundo lirismo, que compõe, passo a passo, e com extremo cuidado, uma construção artística plena de significados. Isto é o que se pode dizer, logo de partida, dos 12 contos do escritor baiano Aleilton Fonseca, reunidos no livro Desterro dos Mortos (Relume Dumará, 121 páginas).

A obra inclui cinco histórias anteriormente publicadas em Jaú dos Bois e Outros Contos - um dos vencedores do Prêmio Cultural de Literatura 1996, da Fundação Cultural da Bahia: livro de apenas 52 páginas, mas que obteve considerável reconhecimento por parte da crítica, com referências entusiasmadas à elegância da linguagem simples, justa e densa de significados (Luís Antônio Cajazeira Ramos), à leveza e à criatividade dos textos “combinadas com a habilidade de quem sabe equilibrar as palavras” (Kátia Borges), à junção da “profusão de sentimentos vivos do seu universo ficcional num espaço definido e preciso: o espaço da escrita...” (Cid Seixas), à “simplicidade de alto nível, como se quer a simplicidade literária” (Gláucia Lemos), ao “domínio da técnica formal a serviço de uma sensibilidade aguçada” (Luís Ruffato) e à sutil análise psicológica que lhe dá um caráter universal (Dominique Stoenesco).

Nesse livro, Aleilton confirma sua posição entre os melhores escritores brasileiros de sua geração, fato perfeitamente constatável por quem se dispuser a ler contos como O Sorriso da Estrela - incluído na antologia 25 Contistas Baianos, organizada por Cyro de Mattos no ano passado -, O Avô e o Rio, O Pescador e O Sabor das Nuvens, entre outros. Peças primorosas que garantem, como assinala a professora Rita Aparecida Coêlho Santos, no posfácio, a permanência do narrador - o mesmo do qual se vaticinou a morte, mas que está mais do que nunca vivo e atuante.

Segundo Rita Aparecida, Aleilton Fonseca aproxima-se do narrador clássico, conforme caracterização que dele fez Walter Benjamim em famoso ensaio sobre Nicolai Leskov. “Em geral, seus contos são relatos de vivências poderosamente nossas e ao mesmo tempo universais, porque falam dos mistérios da vida e da morte, e é isso que eleva a nossa alma e nos faz pensar na necessidade de intercambiar experiências e ouvir conselhos”, diz ela.

As contradições - muitas vezes ilusórias - entre tradição e modernidade, regional e urbano ou local e universal desaparecem, aqui, na alquimia que une experiência e linguagem. Experiência profunda, linguagem depurada - eis a base sobre a qual se constrói o edifício ficcional do autor. Os tijolos são os velhos e inextingüíveis temas: a solidão, a loucura, o amadurecimento, a amizade, o ciclo de nascimento, amadurecimento e morte, o amor.

O menino que só compreende a irmã “doida” - que lhe ofertava uma estrela - depois da sua morte; o menino que acompanha a luta do avô com o rio, que avança mais e mais sobre suas terras; o homem que retorna, após muitos anos, à fábrica inexistente, agora apenas um terreno tomado pelo mato, na qual sempre fora proibido de entrar; a avó que, docemente, espera a volta do marido morto, após tantos anos... histórias tocadas pelo mais intenso lirismo e que, como num conto de Tchekov, livre de qualquer sentimentalismo fácil, nos restituem o direito de chorar e rir, esquecidos de que estamos diante de uma ficção.

Vale destacar o conto que abre o volume - Nhô Guimarães -, engenhosa narrativa que reconstitui a imagem do escritor Guimarães Rosa, através da fala (em estilo roseano) de uma mulher, que rememora as visitas do escritor a ela e ao seu marido, no sertão de Minas Gerais. História transformada, posteriormente, num romance, ainda inédito.

O livro de Aleilton Fonseca -poeta, ficcionista, ensaísta, professor universitário e editor da revista iararana - pode ser recomendado como uma excelente opção para presentear os amigos nessas festas natalinas. Presente inesquecível, com certeza.

fonte: http://www.carlosribeiroescritor.com.br/

Texto 2

O TERRITÓRIO SAGRADO DA ALMA NA OBRA DE ALEILTON FONSECA

É sob o signo da amizade que compareço a este espaço para apresentar, como se isto fosse necessário, o escritor Aleilton Fonseca, meu prezado companheiro de geração. Amigo de longo curso em águas que confluíram para um mesmo ponto, naqueles já remotos anos 70/80, tempo de manifestações contra a ditadura militar, já em seus estertores; de longas conversas sobre literatura e política na República dos Estudantes, onde ele morava, na Federação; de encontros na Literarte; de noitadas do Raso da Catarina ou de aventuras nas frias noites da Ilha dos Frades, próximo ao cemitério onde acampamos, em volta do fogo, com o nosso amigo poeta Geraldo Alves, comendo arroz integral e bebendo café de cevada, próximo ao povoado de Nossa Senhora do Guadalupe, diante do Mar Incógnito e de todos os sonhos ainda por realizar. Ali, comungávamos o mesmo amor pela vida, pela revolução, pela poesia. Sim, era um tempo primevo aquele, no qual, vejam os senhores, como se isto fosse possível, o meu dileto amigo ainda não possuía esse respeitável bigode, parecia um índio recém-saído das matas do sul baiano e tocava doces canções com sua clarineta, nas horas vagas de um tempo sem relógio.

Digo, pois, a palavra amizade com o que ela evoca de mais nobre: a fraternidade, o respeito, a admiração, o riso franco, mas também um repertório de vivências compartilhadas, que vem se somando, ao longo de 25 anos, e consolidando, com a maturidade, aquela consideração que hoje parece tão deslocada no mundo pós-moderno, mas que é ainda freqüente entre os homens e mulheres simples do interior. Homens e mulheres que compõem um universo riquíssimo, aliás, tão bem retratado na ficção deste escritor, hoje prestigiado neste espaço.

Falar de Aleilton e da sua obra é evocar essa autenticidade. Uma qualidade, meus amigos, bastante rara nesta floresta de signos midiáticos, neste cipoal de simulacros, mas que ainda existe adormecida sob camadas de convenções do homem urbano. Deste homem, como disse o cronista Rubem Braga, “cujo calendário é o vencimento dos títulos, os invencíveis títulos, que se vencem ao sol e à chuva com a mesma triste pressa, a mesma cruel monotonia”. Este homem assoberbado por compromissos e medos, habitante de um mundo que parece estar cada dia mais fora dos seus eixos.

É a esta autenticidade que Aleilton, amigo e escritor, nos reconduz, com firmeza, mas também com doçura, ele mesmo paradigma dos seus personagens: aquele que, numa relação de profunda honestidade com a vida, vivencia profundamente suas dores, suas perdas e seus encontros, em busca de uma transcendência que só é verdadeiramente compreendida no confronto com o sofrimento e com a morte. Não necessariamente a morte física, mas também a morte simbólica, elemento fundamental dos ritos de passagem. Há de se morrer para se tornar imortal.

Por isso, falar de Aleilton e da sua obra é, para mim, a mesma coisa; nele pode-se compreender, com exemplar nitidez, o sentido da obra como biografia do autor, conforme definição de Octavio Paz. Isto porque sua vida é o principal alimento da sua escrita. E vice-versa, pois, como ele mesmo, Aleilton, já declarou, escrever é “cumprir uma sentença de vida”. Quem leu seus livros certamente percebeu que todos os elementos do seu mundo ficcional resultam numa rede tecida habilmente, na qual tudo converge para um fim, mas que nunca se esgota. Fim que é marco de novos reinícios, de novas possibilidades de re-significação.

E não seria característica de toda obra literária de alto valor esta sensação de que tudo só começa, efetivamente, quando se chega ao fim? É no eco, que ressoa ao final de uma obra, que nos encontramos verdadeiramente. O melhor texto é aquele que nunca termina.

Mas, antes de me deter um pouco mais na vertente mais conhecida e festejada da produção intelectual de Aleilton Fonseca – sua ficção, através da qual, inclusive, já ganhou importantes prêmios – deixem-me ressaltar que não se deve esquecer o poeta lírico de aguda sensibilidade, autor de três livros de poesia: Movimento de sondagem (Menção Honrosa no Prêmio Literário da Universidade Federal da Bahia, editado em 1981 pela Coleção dos Novos da Fundação Cultural do estado da Bahia), O espelho da consciência (Edição do Autor, 1984) e Teoria particular (mas nem tanto) do poema (Edições D´kasa, São Paulo, 1994). Relegada, hoje, a uma posição discreta na sua intensa atividade intelectual, nela se encontram, entretanto, algumas sementes que nos possibilitam compreender o universo íntimo do autor, a sua vital necessidade de dizer, já que “Calar é ceder à morte”.

Estão lá, no seu livro de estréia, Movimento de sondagem, vários elementos que configurariam, mais tarde, numa fase mais madura, o ficcionista. Por exemplo: a infância, como um dos elementos centrais do seu mundo poético e ficcional, aqui referido diretamente pela expressão lírica, sem o anteparo do construção ficcional. Como neste “Poema da rua da infância”:

Os dias passaram
Sobre a rua da infância
E revolveram sua terra
Até fazê-la estranha.
Nada mais lembra as barragens na enxurrada,
Nem os naufrágios das esquadras de papel.

No antigo campo dos bemequeres
Florescem agora os malmequeres,
Penetras na festa das pálidas rosas
De um jardim que não tive nem quero.

Que memória esta rua guarda da minha infância,
Senão meus rastros, sepultos sob calçadas novas
Que ocultaram as minhas estradas?

Ou ainda neste “Memórias”, um dos poemas do segundo livro do autor, O espelho da consciência:
Os passarinhos
Que sobrevoaram a infância
Sobrevivem mortos.

O ribeirão conduziu travessuras
E afogou-se no mar.

Os miúdos rastros
Permanecem na memória do vento
E são marcas de outros
Caminhos.

E a criança
Espia o mundo
lá dentro do adulto.

Não menor atenção merece sua ensaística, com destaque para o seu minucioso e rigoroso estudo Enredo romântico, música ao fundo: Manifestações lúdico-musicais no romance urbano do Romantismo, fruto da sua dissertação de Mestrado, publicado em 1996 pela Sette Letras, do Rio de Janeiro, e o ainda inédito A poesia da cidade: imagens urbanas em Mário de Andrade, tese de doutorado defendida em 1997, na USP. Sem falar, é claro, no rico conjunto de artigos, ensaios, estudos, resenhas e conferências publicados em jornais e revistas do Brasil e do exterior.

Mas, se foi na ficção que ele se revelou, no final dos anos 70, no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia, então organizado pelo escritor e jornalista Adinoel Motta Maia, é também nela que Aleilton conseguiu realizar, até o presente momento, o melhor da sua produção. Na abalizada opinião de Ricardo Vieira Lima, Aleilton é um autor que pertence à linhagem do realismo psicológico, iniciada no século 19 por Stendhal, e que adentrou o século 20 influenciando várias gerações de escritores, dentre os quais se incluem Katherine Mansfield, Virgínia Woolf, Graciliano Ramos, Lúcio Cardoso e Clarice Lispector, entre outros. O que lhe interessa é, portanto, conforme assinala Vieira Lima, “retratar a paisagem interior de seus personagens, e perscrutar seus dramas íntimos”.

Aleilton perscruta o íntimo de seus personagens, sim, mas não, como grande parte dos autores de sua geração, como quem mexe numa lata de lixo. Ele perscruta seus dramas como quem adentra um território sagrado, o território sagrado da alma, com uma profunda solidariedade. Talvez seja esta solidariedade, e não o fato de situar suas histórias em “ambientes urbanos de cidades interioranas”, que lhe imprime a sensação de estar na contramão das tendências atuais da ficção urbana neonaturalista. O olhar de Aleilton é marcado por uma profunda generosidade: aquela que traz uma compreensão profunda das ossadas que jazem sob as aparências dos atos e comportamentos aparentemente normais. Não daquelas que resultam de grandes crimes e castigos, mas dos erros e desentendimentos que marcam as relações humanas cotidianas – sobretudo as familiares.

Ao contrário de Poe, Aleilton não caminha pelas áreas interditas, pelas zonas da exceção, mas por outras sendas, mais familiares, porém, muitas vezes, também perturbadoras. Não por acaso, a escavação é freqüentemente referida nos seus textos: escavação da terra, dos escombros, das palavras. É através dela que seus personagens conhecem “a sala escura do lar”. Mas, ao reviver a ferida, segue-se a cura e não a condenação. Trazendo á luz os fantasmas das catacumbas, reencontra, pela linguagem, como pharmakon, remédio, o sentido através do qual é possível finalmente enterrar o passado.

A morte, a infância, os ritos de passagem, o doloroso processo da conscientização, a consolidação da identidade no confronto com a natureza que oferece resistência, a memória, o resgate impossível do vivido, a imprevisibilidade dos jogos amorosos, a amizade que vence o tempo e a morte, a dor da perda e da separação, a indefinição dos limites entre o vivido e o imaginado, ou o ficcionalizado (a “pura invenção de letras e frases”): estes são alguns dos elementos básicos do universo ficcional de Aleilton, os tijolos com os quais constrói, ora um casebre, ora um palácio, ora um abrigo para o inverno de suas desesperanças.

São estas, portanto, as unidades básicas de contos belos e pungentes, como “O avô e o rio”, “O sorriso da estrela”, “Jaú dos bois”, “O sabor das nuvens”, “O desterro dos mortos”, “O canto de Alvorada”, “A última partida” e “Descanse em paz”. Contos escritos com enganosa simplicidade, nos quais se flagra, aqui e ali, efeitos de estilo e intervenções do autor/narrador (ali, como disse Hélio Pólvora, onde o ficcionista dá as mãos ao crítico) e todo um jogo de metalinguagem que lhe imprime o sabor, nem sempre palatável para alguns gostos, da chamada pós-modernidade, aliada ao rigor clássico de suas construções de linguagem.

Muitos dizem, não sem razão, que Aleilton é um autor que escreve dentro da tradição, que dialoga com os clássicos, mas não se deve deixar passar despercebida a dimensão sestrosa das artimanhas poéticas deste escritor que, num jogo de ilusionismo, certamente está bem à frente de muitos que, um tanto apressadamente, autodenominam-se “transgressores”. “Arquiteto de epifanias”, no dizer de André Seffrin, Aleilton retoma o fio da tradição oral e, em meio ao tiroteio de desconstruções e fragmentações, preserva, ainda bem, o sabor das histórias contadas antigamente à volta do fogo. E dá-lhes sobrevida.

Para finalizar, quero dizer que Aleilton Fonseca é, sem dúvida, uma figura de proa da minha geração – um intelectual que constrói, pedra por pedra, o seu próprio caminho, com absoluta integridade, e faz dele, com não menor generosidade, um caminho que é também o de todos nós. Disto posso dar testemunho, desde quando, jovens autores de 18 anos, fomos revelados no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia, em 1978; quando nos encontramos, pela primeira vez, em 1979, em torno do movimento que levou à criação do Clube da Ficção e à publicação do jornal Aqui Ficção; quando publicamos, em 1981, na Coleção dos Novos, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, criada e coordenada por Myriam Fraga; e quando, em 1998, lançamos a revista de arte, crítica e literatura Iararana, que chegará em breve ao 11° número, com prestígio consolidado e com ânimo renovado no seu propósito de divulgar autores brasileiros de diversas gerações.

Aos 46 anos, ficcionista, poeta, ensaísta, professor universitário respeitado nacionalmente e membro da Academia de Letras da Bahia, para a qual foi eleito, em 2004, com a quase unanimidade dos votos dos integrantes da Casa, Aleilton, segundo desconfio, está apenas aquecendo os motores da sua nave intergaláctica. Não para a obtenção de cargos e honrarias, meras contingências, mas para vôos mais altos na Arte que exerce com rigor, talento e seriedade.

Apresentação de Aleilton Fonseca, no projeto Com a palavra o escritor, promovido pela Fundação Casa de Jorge Amado. 2005.

fonte: http://www.carlosribeiroescritor.com.br/

Nenhum comentário: