terça-feira, 4 de agosto de 2009

Entrevista com ALEILTON FONSECA

ALEILTON FONSECA


POR: Eduardo Cruz Filho


Aleilton Fonseca é autor de obras como: "O Espelho da Consciência", "O canto de alvorada", "Nhô Guimarães", dentre outras. O poeta, ensaísta e professor universitário conversou conosco sobre educação, literatura e Guimarães Rosa.


CL - Quando se trata de ensino de literatura, uma questão sempre surge. Deve-se, ou não fazer uso de adaptações ao abordar os cânones? Qual é a sua opinião? As adaptações podem ajudar a despertar o interesse pelos clássicos?

Os clássicos devem ser preservados em sua integridade textual. A adaptação pode ser feita no momento da abordagem da obra, quando se pode ressaltar determinadas passagens, deixando outras de lado. Com isso, pode-se dar um direcionamento à leitura e à interpretação, de modo a fazer com que o leitor tenha uma maior interação com a obra, apreciando-a naqueles pontos que lhe são mais atraentes e estimulantes. De fato, cteio que nõa se deve mutilar uma obra literária, expurgando passagens, comente para torná-la supostamente "mais fácil". O interesse pelos clássicos deve ser despertado exatamente por aquilo que essas obras representam, tanto como resgistro cultural de uma época, como exemplo de estilo, técnica e linguagem.

CL - Para você (e para mim) “literatura é uma sentença de vida; uma forma eficaz de conhecer profundamente o ser humano”. Como escritor e professor, você acredita que é possível “plantar” o gosto pela leitura numa sociedade tão desequilibrada econômica e culturalmente, sobretudo quando há uma concorrência desigual com a mídia moderna (em especial a televisão) ?

Desenvolver o gosto pela leitura não é e nunca foi fácil. Ler é uma vocação e uma necessidade, portanto é uma habilidade intelectual que deve ser despertada e estimulada constantemente. Os desequilíbrios de nossa sociedade, marcada pela exclusão e por desníveis tão graves, a leitura deve ser ensinada, inclusive, como uma forma de superação de diferenças. devemos aliar o lazer da leitura à formação pela leitura. As mídias modernas são poderosas e ocupam o tempo que seria da leitura. Não tem jeito. É preciso concorrer com as mídias, dando um sentido mais amplo à leitura; ou seja, deve-se estimular a leitura de formação do indivíduo como um cidadão pensante, crítico, capaz de discernir as questões da vida real a partir da leitura de situações ficcionais. A experiência de leitura torna o indivíduo mais capaz de discutir, entender e formular questionamentos em torno da vida, do mundo, da sociedade e de si mesmo. A leitura é indispensável.

CL - Em sua crônica “Presente de grego” há uma questão que sempre surge quando a conversa é sobre literatura: o gosto estético. Num país cujo número de leitores é extremamente baixo (pelo menos é o que dizem as estatísticas divulgadas), ler um best-seller, ainda que de qualidade literária duvidosa, não é um bom começo ?

De fato, pior do que ler best-seller é não ler livro nenhum. O que se espera é que a experiência e a maturidade do leitor levem-no às obras de maior complexidade semântica e estética. No entanto, há diversos níveis de interação com o mundo e, portanto, com as obras disponíveis. Não devemo ser impositivos quanto à leitura dos outros no dia-a-dia. Agora, se somos professores em aula, aí então devemos fazer escolhas significativas para a formação dos alunos. O professor é um interlocutor e, como tal, deve criar meios e promover o diálogo entre a obra e o leitor em formação. É muito difícil alguém começar a carreira d eleitor através de Alencar, Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. São autores que exigem uma certa bagagem. Os textos mais atuais, que falam de questões mais palpáveis da vida contemporênea, podem servir de bons pontos de partida para a formação de um leitor.

CL - Como você analisa o cenário educacional e/ou cultural do Brasil, após sua experiência como professor na França ?

No Brasil, geralmente o sistema educacional é mais frouxo. Há muitos professores que ensinam pouco e os alunos gostam disso, pois se acostumam com a lei do menor esforço. Se o professor não cobra muito, os alunos estudam menos. Eles não têm medo de perder o ano, pois acabam passando mesmo aprendendo pouco. Isso torna a educação algo pobre, medíocre, um certo faz-de-conta. Na França, por exemplo, percebe-se que há uma seriedade de fundo no sistema educacional. Os programas são discutidos, há controle efetivo do trabalho e há, sobretudo, um compromisso social muito claro quanto à necessidade de formar bem o cidadão, exigindo de professores e alunos um desempenho satisfatório. Há mais cobrança, há mais rigidez na relação professor- aluno, há mais presença institucional do Estado.

CL - O que as instituições de ensino, sobretudo as universidades, deveriam ensinar sobre literatura e não o fazem ?

Deveriam ensinar a literatura como arte da palavra que atua duplamente, formando o lado cognitivo e o lado afetivo do indivíduo. É preciso aproximar a literatura do dia-a-dia do aluno, fazê-lo perceber e acompanhar a existência da literatura e dos escritores na vida cotidiana, interessando-se pela atualidade dos livros, dos lançamentos, das novidades editoriais. Literatura deveria ser um assunto normal do dia-a-dia, como parte da vida de todos os cidadãos.

CL - Gostaria de fazer a mesma pergunta que, há algum tempo, você fez à poetisa Yêda Schmaltz: Ser professor e escritor no Brasil é problema ou solução?

Um ofício complementa o outro; não ajuda nem atrapalha necessariamente. Por outro lado, um professor que escreve é um testemunho vivo da existência do escritor como cidadão comum, ao alcance das pessoas. O escritor que leciona tem a oportunidade de conviver mais de perto com leitores, com pessoas que podem ajudá-lo a ver certas coisas no texto literário, pela ótica do leitor.

CL - Que peso a crítica literária exerce em seu processo de criação?

Normalmente, o escritor acompanha a crítica, naturalmente, como forma de ter um retorno de leitura. Mas, no fundo, ao fazer sua obra, ele não vai simplesmente se direcionar pela crítica. O escritor dever estar convicto de um projeto literário que deseja desenvolver. A crítica nem sempre acerta, seja nos elogios, seja nas restrições a um autor.

CL - Há em seus contos, os presentes em Jaú dos bois são um bom exemplo, um casamento bem sucedido entre conteúdo e forma. Esse resultado é algo natural, ou você trabalha essa técnica?

Em criação literária nada acontece de graça. Para tudo é preciso muito trabalho, muita dedicação e muito cuidado. Literatura é trabalho, é busca, é aprendizagem constante. No meu trabalho, eu traço um objetivo em torno dos efeitos de leitura que tornarão o texto mais expressivo, mais tocante e comunicativo. Em torno disso, estabeleço a forma como o enredo vai fluir, como as revelações serão feitas, como as informações serão dosadas. Tudo isso é feito por respeito ao leitor e à literatura. Em literatura, a espontaneidade é inimiga da perfeição. O autor deve estar consciente de cada passo que dá em seu texto, na busca de um diálogo mais expressivo com os leitores.

CL - Sua obra mais recente, Nhô Guimarães, é uma homenagem ao grande escritor Guimarães Rosa. Fale um pouco sobre a importância de Guimarães e Grande Sertão: Veredas para o cenário literário brasileiro.

O escritor mineiro Guimarães Rosa está entre os autores mais importantes da língua portuguesa. Sua proposta de narrativa é inovadora, pois ele toma a tradição da oralidade e elabora uma linguagem complexa, tão rica de sentidos quanto bela na sua forma exuberante. Grande sertão: veredas é, talvez, o romance mais importante da moderna literatura brasileira. Sua concepção, sua linguagem, seus temas, sua profundidade, tudo isso nos enriquece culturalmente.

CL - O escritor brasileiro conta com algum tipo de apoio do poder público no momento de publicar e divulgar sua obra? Como funciona esse processo?

Há algumas iniciativas oficiais, através de coleções, concursos, mas é tudo muito tímido e insatisfatório. No Brasil, o escritor, em geral, fica jogado ao léu da sorte, tendo de brigar por um lugar ao sol, num mercado altamente restritivo. Como a massa de leitores é ainda muito pequena para sustentar a produção editorial, muitas vocacionados para a escrita desistem ou não desenvolvem plenamente seu potencial, pois têm de se dedicar a outras atividades para sobreviver. Prova disso é que ainda é raro encontrar escritores que vivem profissionalmente de sua produção literária. Em geral, a criação literária é coisa das horas vagas, das noites insones, da teima mesmo dos que se sentem compelidos a escrever por uma necessidade íntima muito forte. Mas, geral, ainda paira no ar uma idéia difusa de que escrever literatura é uma "perda de tempo", tempo que o indivíduo poderia empregar em algo mais "rentável".

CL - Quais as suas expectativas em relação ao panorama literário brasileiro?

Quem escreve deve ter esperança de que o panorama melhore, que os leitores aumentem, que a cultura do livro se desenvolva, que as pessoas não tenham pena de gastar algum dinheiro comprando livro. Há sinais de melhora, mas isso demanda tempo; toda mudança de hábito cultural é lento e precisa ser estimulado. Cabe á escola dizer ao aluno que ler faz parte de sua condição de ser pensante e de cidadão.

CL - Para quem quer se tornar escritor, que dicas você poderia dar?

Primeiro ler muito, ler poesia, ficção, ensaio, ensaios de divulgaação científica, sobretudo no campo das ciências humanas. E viver, buscar a experiência da vida. E, ainda, refletir se escrever é mesmo uma necessidade. Após isso, verificar se tem algo realmente significativo a dizer, e se sabe escrever bem, com consciência do que está fazendo. Não há curso que forme um escritor, mas, ao mesmo tempo, nenhum escritor nasce feito. Eis a questão.


Disponível em : http://www.caminhosdalingua.com.br/entrevista_Aleilton.php acessado em :29/07/09

Um comentário:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

tenho muitas coisas desse querido escritor, me lembro bem também das nossas aulas de literatura aqui em santo amaro
http://edineysantana.zip.net